Qui. Out 28th, 2021
GLOSASEspaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente

Tiago Azevedo Ramalho

 

Acompanhamos a obra de Charles Taylor, A Secular Age, cujo objecto foi enunciado na primeira destas glosas. Nos dois textos seguintes (2 e 3), procurámos ver quais as características que conduziam a que, no ano de 1500 – ou, de acordo com os lugares, mesmo noutro momento temporal mais próximo –, a experiência de fé fosse tida por natural, óbvia, sendo virtualmente impossível que não suscitasse a adesão natural da pessoa.

No texto anterior, iniciámos a abordagem do processo conducente a uma radical alteração deste quadro. Concluiremos agora tal análise acompanhando as pp. 75-89, que encerram o capítulo 1 (“Os baluartes da fé”/ The Bulwarks of Belief), o primeiro da Parte I (“A obra de reforma”/ The Work of Reform).

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– 16. Consequências centrais da Reforma. – Começámos por notar (n.º 13) que a sociedade medieval conheceu um vasto movimento de reforma resultante do desconforto com as divergências entre diferentes estados de vida. Daí, portanto, os movimentos dirigidos ao estreitamento das divergências existentes, por um lado (n.º 14), mas também, por outro, os impulsos dirigidos à criação de novas distinções (n.º 15).

Foi neste ambiente que eclodiu a Reforma protestante, fazendo seu, a ponto de iniciar uma ruptura na cristandade latina, o desejo de radical transformação do modo de vivência religiosa (pp. 75-77). Entre outros aspectos, caracteriza-a o desejo de eliminar a pluralidade de estados de vida (n.º 8) – que, onde sejam aceites, supõem o reconhecimento de diferentes vias de vivência do Evangelho –, na origem do desconforto que motivou a acção de reforma (n.º 13). Assim, “um dos principais pontos de discussão desde o princípio [da Reforma] foi a recusa em aceitar vocações especiais e os conselhos de perfeição [pobreza, castidade, obediência]. Não deveria mais existir cristãos comuns e super-cristãos. As vocações ascéticas foram abolidas. Todos os cristãos deveriam ser totalmente dedicados do mesmo modo./ Vista sob esta perspectiva, a Reforma é o último fruto do espírito de reforma, produzindo pela primeira vez uma verdadeira uniformidade de crentes, um nivelamento por cima que não deixou mais espaço para diferentes velocidades.” (p. 77)

Quais as consequências deste novo movimento para a alteração do quadro vivencial próprio de 1500 que começámos por retratar (n.º 5 a 12)? Taylor explora as consequências a partir da linha calvinista, antepondo a respectiva exposição de um sumário retrato desta linha confessional. Sumariamente, caracteriza-se, ao nível do conteúdo soteriológico, pela afirmação os seguintes elementos: a depravação da natureza humana; a justeza, por essa mesma razão, de uma sua condenação; mas, finalmente, a confiança na misericórdia infinita de Deus para com os escolhidos para a salvação. Trata-se de um quadro explicativo da salvação, de natureza jurídico-penal (“crime e castigo”) que, sendo comum à reforma, tem em todo o caso fundas raízes na cristandade latina (S.to Agostinho e S.to Anselmo).

Ao nível existencial, este quadro teológico-soteriológico tem por resultado a experiência de radical libertação para aqueles que se confiam totalmente a Deus, libertados, nessa medida, da ansiedade esmagadora que brota do temor da condenação (embora anote Taylor, à p. 78: “a confiança – para não dizer arrogância – com que estas conclusões eram tiradas antecipa e oferece um modelo para a hostilidade posterior do humanismo para com o mistério”).

Daqui decorrem as seguintes consequências:

(a) O desencantamento, conduzindo a uma intransigente (…zelo reformador) recusa do sagrado [conceito de Sagrado que deve ser distinguido do de Santo]. Por sagrado entende-se o atributo próprio de certas coisas, ou de certos lugares corpóreos, que são tidos por habitados pelo poder de Deus; é noção, portanto, que supõe uma relação porosa entre o mundo e o seu significado, único modo de afirmar que certos elementos do mundo têm um significado próprio (pp. 77-80).

Ora, a radical centralidade da fé, já antes referida, conduz ao abandono da prática sacramental tal como usualmente compreendida, em que se supõe o emprego de certos elementos particulares de ordem corpórea (o pão, o vinho, os óleos, a água, os círios, …). Agora é toda a vida humana, na integridade dos seus aspectos, que é perspectivada como lugar de santificação (negando-se, por conseguinte, a existência de lugares específicos, por isso sagrados, em que o divino habite de modo privilegiado). A vida ordinária de todos os dias ou as ocupações profissionais são vistas como lugares de santificação, posto que esta depende somente da opção pessoal e interior da pessoa (excluindo-se portanto qualquer intercessão de terceiros) de se confiar totalmente à misericórdia de Deus (p. 79). É deste último modo, afinal, que se torna possível uma real comunicação de Deus e da sua Graça ao crente. Tudo, pois, é reduzido a um eixo central: cultuar a Deus na, e com a, vida ordinária, rejeitando todas as demais distracções (pp. 79-80).

O desencantamento tem um duplo alcance. Um efeito de sinal negativo, primeiro, conduzindo a que se procure eliminar tudo aquilo que possa ser perspectivado como idolatria. Depois, um efeito de sinal positivo, uma novidade: a liberdade de “reordenar tudo como pareça melhor; (…) de reordenar tudo no melhor sentido. (…) Assim podemos racionalizar o mundo, expelir dele o mistério (porque ele está agora concentrado na vontade de Deus). Uma grande energia é libertada para reordenar os diferentes assuntos na ordem secular.” (p. 80)

(b) O que nos conduz a uma segunda consequência, resultante deste feixe de energia que subitamente se descobre: a construção de uma nova ordem.  Ao rejeitar-se a diferença entre formas de vida – vocações celibatárias (“renunciativas”, ascéticas) e vocações laicais –, conduz-se a uma padronização do modo de vida cristão. Tal tem por consequência, por um lado, a eliminação dos específicos elementos ascéticos próprios daquele primeiro perfil vocacional. Mas, por outro lado, sendo a vida ordinária ou comum tornada agora o único padrão disponível, passa esta última a compreender um conjunto de exigências, outrora apenas próprio de certas vocações específicas, antes não colocado (pp. 80-82).

As ideias de ordem e de desordem torna-se então centrais: uma vida ordenada (na qual não se dá espaço à violência, ao alcoolismo, em que se tem moderação no discurso, em que a sexualidade é vivida de modo regrado,…) é vista como expressão de uma existência justificada ou santificada; e opõe-se a uma vida desordenada, sinal do exacto contrário (p. 82). Este desejo de imprimir uma nova ordem, porém, não se limita à própria vida individual, mas projecta-se sobre a totalidade da sociedade, cujos vícios deveriam ser extirpados (p. 82).

(c) Finalmente, é importante moldar a correcta atitude interior, por um lado sem cair no desespero de temer a condenação interna, por outro sem se limitar a ter uma confiança leviana na misericórdia de Deus (p. 83).

– 17. Um eclipse de Deus. – Três eixos, portanto: vida pessoal disciplinada, sociedade bem ordenada (p. 82) e correcta atitude interior (p. 83). Em comum a qualquer uma destas características está a descoberta, pelo sujeito, da capacidade de que dispõe de dar um rumo a si próprio e ao mundo envolvente – e, por consequência, de desencantar o mundo, esvaziando-o das “forças” que antes supunha nele estarem presentes (n.º 6). Abre-se a porta, pois, ao eclipse de Deus (Buber), pois o que agora ressalta é a capacidade ordenadora da pessoa.

Num tal contexto, a consciência da presença de Deus pode tornar-se mais intensa, porque agora absoluta, desligado de quaisquer poderes rivais e garante único da salvação. Mas à medida que o crente, exercitando as suas capacidades, descobre o seu poder individual de se transformar a si próprio e o mundo sobre o qual intervém, o sentido prático dessa mesma presença começa a esvanecer (p. 84). É a pessoa humana que, de dia para dia, cada vez mais se experimenta como a protagonista, a figura de referência, no vasto universo que modela de acordo com a sua ideia de ordem.

A passagem para o humanismo encontra-se já próxima, faltando apenas dois elementos: que como fim da ordenação da sociedade passe a ser apresentada apenas a realização humana (imanente); e que o poder para o fazer seja visto como uma capacidade meramente humana, que se receba de Deus (p. 84).

– 18. O espírito de reforma. – Um último apontamento acerca do conjunto da época. Todo o período de reforma em sentido amplo – incluindo a Reforma protestante, certamente, mas também por exemplo a Contra-Reforma (disciplinamento pós-tridentino) –, haverá de ser marcado por sucessivas tentativas de disciplinamento e de tentativa de aumento do padrão de vida da generalidade das grandes massas da população (pp. 85-88).

Muito interessante é a síntese que Taylor das características das acções de reforma, provindas das diferentes partes do orbe cristão resultante da cristandade latina: “(1) são activistas; procuram medidas efectivas de reordenação da sociedade; são muito intervencionistas; (2) são uniformizadoras: pretendem aplicar um único modelo ou esquema a tudo e a todos; tentam eliminar anomalias, excepções, populações marginais, e todos os tipos de não-conformistas; (3) homogeneizam: apesar de operarem em sociedades baseadas em diferenças de posição, a sua tendência geral é de reduzir diferenças, educar as massas, e torná-las mais e mais conformes aos padrões que governam os melhores. (…) (4) são ‘racionalizadoras’ no duplo sentido de Weber: isto é, não só envolvem um uso crescente da razão instrumental, no próprio processo de reforma activista, assim como na definição de alguns dos fins da reforma (por ex., na esfera económica); mas também tentam ordenar a sociedade por um conjunto coerente de regras (segunda dimensão da racionalidade de Weber, Wertrationalität).” (p. 86)

Resultado desta intervenção é o desencantamento do mundo, como já vimos, mas também a abolição das formas tradicionais de equilíbrio hierárquico da sociedade (p. 87). O Carnaval – e o seu papel –, assim como outras manifestações similares, é combatido, recusando-se tudo aquilo que possa introduzir ambiguidade e complexidade (p. 87; sobre o Carnaval e a noção de anti-estrutura, relembre-se o que se escreveu no n.º 9). Mas surgem novas divisões sociais: a cultura popular deixa de ser participada pela elite, que procurará reordenar a forma de vida das grandes massas populares cuja cultura lhe é estranha (p. 87).

Também estas características estarão presentes no posterior humanismo exclusivo: “este último é marcado pelo processo que lhe deu origem, pelo seu activismo, uniformização, homogeneização, racionalização, e, claro, pela sua hostilidade ao encantamento e ao equilíbrio.” (p. 88)

– 19. Uma síntese interlocutória. – Terminado o primeiro capítulo da obra, justifica-se uma sumária síntese interlocutória. Nele pudemos assistir à colocação em crise de um certo quadro mundividencial no qual a crença estava naturalmente alicerçada (n.º 5 a 12). Tal quadro foi particularmente colocado em crise pela acção de reforma – que teve por um dos seus momentos, talvez o mais significativo, a Reforma –, que entre as suas consequências removeu alguns dos pilares em que assentava um certa vivência natural da fé (n.º 13 a 18).

Há dois aspectos que se podem sublinhar: o primeiro é que, mesmo que se possa discordar da concreta causa histórica, ou da causa histórica mais relevante, que espoletou o referido processo de reconfiguração do quadro mundividencial das sociedades integrantes da cristandade latina, é inegável que esse quadro efectivamente se modificou no sentido traçado.

O segundo aspecto é que, neste quadro imediatamente subsequente à Reforma, ainda nos situamos dentro de um perspectiva teística, de crença disseminada e generalizada. O tempo de reforma, e, dentro dela, da Reforma, ainda não é o de uma Idade Secular; é sim o momento em que se inicia um processo, que, quando articulado com outros factores (já nominalmente referidos ao princípio do n.º 13), reconfigurará o rosto das sociedades emergentes da cristandade latina.

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Continuaremos a história no próximo capítulo.


Imagem de Gerd Altmann por Pixabay