GLOSASEspaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente

Glosas a Brève apologie pour un moment catholique

– L’utilité de la communion –

(pp. 83-119)

(Cont.)

 [Primeiro texto: aqui.]

 

– 22. Do bem comum à comunhão trinitária. – O nihilismo identifica-se, pois, com a redução de tudo à vontade de poder, à vontade de mais vontade (tenha-se em vista – o exemplo é dado por Marion – a omnipresença, no discurso político e económico, da preocupação com o «crescimento»: mas porquê? Para quê? À custa de quê ou de quem?). Vontade que se revela tão mais vazia quão mais omnipotente parece ser:

«Imaginamo-nos a possuir o universo enquanto construímos, para nós mesmos, a nossa prisão, escravos voluntários, escravos por vontade, escravos da vontade da vontade – e que se glorificam a celebrar a própria autonomia!» (p. 96)

A saída deste estado de coisas apenas se poderá dar, escreve, na medida em que se possa aderir a um bem cujo «valor» não dependa da vontade, quer dizer, que esteja fora da ordem do valor e da avaliação subjectiva. O que se traduz em desejar uma vontade que não a própria (Mt 26, 39; Mc 14, 36; Lc 22, 42) – justamente o distintivo da vida cristã, porque distintivo da própria pessoa de Cristo (p. 93). A adesão a uma vontade outra, não enquanto resultado da abdicação do intelecto ou do próprio querer, mas como querer próprio de aderir ao que se reconhece como absolutamente bom, e que nessa medida liberta o eu do seu fechamento em si próprio: eis o próprio da religião cristã.

O que, no plano pessoal, se concretiza em aderir a uma vontade para além da vontade própria, concretiza-se, no plano colectivo, em colocar o «bem comum» à frente do jogo dos egoísmos individuais (p. 96). Ora, este bem comum, que a todos beneficia e de que todos participam, torna-se experiência de comunhão que pode ser interpretada em sentido teológico, como experiência de participação na própria identidade de Deus, que é comunhão trinitária (p. 99). Na verdade, e admitindo a indissociabilidade da confissão de fé e da prática ética nela fundada, a vivência do bem comum torna-se mesmo o único modo esclarecido de experiência da fé, fé que é previamente comunicada já nesta dimensão comunional. Daí a observação:

«(…) não podemos ambicionar desde já qualquer realização empírica, embora imperfeita, do bem comum, a não ser em virtude e em nome da sua perfeição trinitária em Deus. O bem comum histórico encontra-se garantido pela comunhão trinitária realizada eternamente.» (p. 100)

Quer dizer: há, da parte de cristãos, um compromisso radical com um bem comum que é anterior à própria constituição da sociedade e aos interesses que nela possam convergir ou conflituar. Cuidar do bem comum é já exigência de vivência na plenitude da própria vida de fé, que reclama que se cuide desse mesmo bem comum em quaisquer circunstâncias – trata-se, pois, de «um modelo político no fundo não político» (p. 101) Visão esta que contrasta com a da redução do cidadão a simples agente económico contribuindo para uma economia, visão que conduziu à «não coincidência entre riqueza global e proventos individuais, desconexão entre os desempenhos económicos de uma sociedade e o seu nível democrático, e défice, enfim, de representatividade democrática provocado pelos poderes mediáticos» (p. 104).

A esta lógica económica pretende opor uma outra – a lógica da dádiva («don»):

«Dito de outra forma, [pretende-se] pensar seriamente que pretender conservar e conservar-se conduz à perda, que apenas aquilo que é dado não se perde, que aquele que possui a sua vida perde-a. À apropriação que permite e pede a troca e exige a reciprocidade opõe-se à dádiva, que liberta da reciprocidade e da troca praticando a dádiva até ao abandono.» (p. 107)

(continua…)


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