Sinais | Leitura de ‘sinais’ inquietantes | Rubrica promovida em parceria com o Correio do Vouga

Ecos da “Magnifica humanitas”

António Jorge Pires Ferreira

Uns dias antes de morrer (3 de junho de 1963), João XXIII, que publicara uns meses antes a encíclica sobre os Direitos Humanos, afirma: “Que ressonância a desta «Pacem in Terris»! Nesse documento pus de mim mesmo, sobretudo, o humilde exemplo de tentei dar durante toda a minha pobre vida: ser um bom homem pacífico”. Por estes dias, também Leão XIV se pode regozijar com a ressonância da “Magnifica humanitas”. Recolhi alguns ecos.


A primeira encíclica do Papa Leão XIV é plena de riqueza teológica e doutrinal e igualmente relevante para a comunidade democrática pluralista.

Teresa Violante, “Expresso”, 29-05-2026


Washington quer vencer a corrida. Bruxelas quer regular a corrida. Roma pergunta o que a corrida faz ao Homem. (…) Roma não tem semicondutores nem contratos militares. Tem uma pergunta antiga: o que resta do Homem quando a inteligência deixa de ser apenas humana?

Miguel Sousa Tavares, “Expresso”, 29-05-2026


“Creio que a recomendação mais importante que é possível fazer a seu respeito é a de a ler integralmente. Idealmente mais do que uma vez e com calma – não cedendo à tentação de formar opinião sobre ela exclusivamente com base nos comentários de terceiros ou num qualquer resumo solicitado a uma das muitas ferramentas de IA disponíveis”.

André Azevedo Alves, “Observador”, 25-05-2026


A primeira grande ilusão que a encíclica desmantela é a da neutralidade técnica. Um algoritmo não é um espelho plano e assético do real; é uma arquitetura de escolhas prévias, prioridades e exclusões, possuindo o rosto daqueles que o concebem e financiam. O problema, contudo, agudiza-se quando percebemos a profunda utilidade psicológica desta opacidade. O fascínio humano pela “caixa negra” da computação global não deriva de um desejo de perfeição, mas de uma calculada fuga à responsabilidade. Delegar o ato de julgar a um sistema automatizado — seja no acesso a um posto de trabalho, na concessão de crédito ou, de forma mais crua, nos sistemas de armamento letal — permite-nos diluir a cadeia de responsabilidade. Ao transferirmos a decisão para a máquina, a culpa evapora-se.

Eduardo Moreira da Silva, “Observador”, 08-06-2026


A encíclica de Leão XIV funciona, assim, como uma tentativa de recuperar, pela via teológica, aquilo que o Iluminismo secular construiu pela via da razão: a consciência como fundamento da dignidade humana. Kant pôs a autonomia racional no centro da ética moderna. Leão XIV coloca a irrepetibilidade da pessoa – na sua identidade, fragilidade, imperfectibilidade – no centro da sua resposta à inteligência artificial. Para o Papa, há domínios da vida humana em que a delegação às máquinas é simplesmente inadmissível, qualquer que seja o nível de precisão do sistema. Magnífica humanidade, perfeita desumanidade.

Pedro Lomba, “Observador”, 28-05-2026


O debate público sobre a inteligência artificial tem-se afundado numa espécie de vaivém previsível entre o deslumbramento tecnológico e o pânico civilizacional, como se a alternativa estivesse sempre entre entregar tudo à máquina e fugir dela para uma qualquer nostalgia analógica. Ora, a verdade é que a tecnologia avança mais depressa do que a nossa capacidade de avaliar, ou até da narrativa política disponível para a discutir, deixando a sociedade a correr atrás de um problema que, muitas vezes, ainda não sabe nomear. A entrada de uma instituição com dois milénios de reflexão sobre o que faz de nós humanos oferece a este debate uma lentidão, uma espessura e uma exigência moral que só pode ser vista como muito útil. (…) Se a informação que recebemos é filtrada por arquiteturas opacas, otimizada para capturar atenção e multiplicada por máquinas capazes de produzir verosimilhança em escala industrial, então a decadência da verdade já não é apenas uma falha de literacia – embora também o seja -, mas uma crise institucional.

Rodrigo Adão da Fonseca, “Observador”, 28-05-2026


É um grande roteiro de confronto com os desafios atuais de grandeza e de ameaças.

Bento Domingues, “Público”, 31-05-2026


Imagem recolhida de https://www.vaticannews.va/