Sáb. Nov 27th, 2021

Relação com o outro: que civilização pretendemos construir?

Georgino Rocha (Texto)

O outro é, por si mesmo, um ser possuidor de uma dignidade inalienável, comum a todos os humanos, que espelha a igualdade radical e afiança a liberdade original.

A civilização humana avança na medida em que valoriza a pessoa não apenas como indivíduo, mas como indivíduo em relação, aberto em reciprocidade, dotado de capacidades e de fragilidades. Como ser em crescimento.

Referência histórica relevante deste esforço gigantesco por redimensionar a originalidade ferida são, sem dúvida, as sentenças populares sábias, os códigos de comportamento, as regras de convivência ética,  as constituições do Estado de uma Nação, a declaração Universal dos direitos/deveres humanos, os textos das grandes culturas e os documentos de igrejas, as orientações da Igreja católica, designadamente na sua Doutrina Social. Jesus Cristo converte esta redimensão em renovação completa, em recriação e recomposição qualificada da dignidade original.

A relação humana neste patamar dá-se entre iguais em dignidade, embora diferentes em capacidades e funções, e complementares na missão comum de ser e construir a nossa humanidade e de guardar com desvelo a criação, nossa casa comum.  Assim, promove a unidade, respeita e valoriza a diferença e faz prevalecer em tudo o amor (GS 92  ).  Provém da natureza comum, dá origem à solidariedade e revigora a subsidiariedade. Torna-se seiva da árvore da vida organizada em sociedade, a partir da família e das demais agregações cívicas e religiosas congregadas em torno à defesa e promoção do bem comum. Adquire várias configurações em que o ambiente de cada uma lhe dá um colorido especial, fruto dos laços que unem os seus membros.

A relação humana interpessoal, seja em que ambiente for, pode desenvolver-se sempre mais, numa lógica de «aumento progressivo». O outro, como nós, é um ser em «construção», com avanços e recuos, a caminho de uma realização mais plena. «Temos de deixar de pretender que as relações interpessoais sejam uma perfeição», afirma o Papa Francisco, referindo-se ao matrimónio. E Laurinda Alves adianta que «todas as relações habitam numa espécie de estaleiro perpétuo».

Só a hábil gestão do nosso peregrinar marca a qualidade do relacionamento que dignifica a humanidade.  

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