Artigo publicado em parceria com o Correio do Vouga

Luís Manuel Pereira da Silva*

 

Li (melhor, ‘sorvi, demoradamente’…) a primeira encíclica do Papa Leão XIV. Esperava-a, pois fazia parte da promessa anunciada pelo Papa, no dia da sua eleição. Ao explicar a escolha do nome – ‘Leão’, que o situava na senda do longo e atento pontificado de Leão XIII –, logo prometera que os desafios destes tempos – e, entre eles, os que nos coloca a ‘Inteligência’ Artificial – fariam parte da sua detida reflexão.

A leitura demorada deste documento confirma que valeu a pena esperar. Li-o entre os dias 27 e 31 de maio. Propositadamente, não me socorri da IA para obter sínteses ou esquemas. Escrevo, de dentro para fora, depois de, ao ler, ter aceitado fazer o movimento contrário: recebi, como sujeito leitor.

Espero que estas minhas palavras não façam o que vem operando a IA: que não dispense os leitores de se abeirarem do texto integral, mas, pelo contrário, contribua para que maior seja o número dos leitores desta bela carta encíclica. Nenhum resumo colhe, integralmente, a riqueza deste documento que, sendo uma carta, não deverá ficar ‘na caixa do correio’.

Para esta breve análise, socorro-me de um instrumento que escapa, completamente, à IA: o perfume, o odor. A IA consegue, algoritmicamente, fazer rápidas sínteses de ideias. Mas não vive uma experiência e não suscita vivências. E não sabe a que cheiram as coisas…

Pela via do odor, proporei sete pontos (vivências) que esta encíclica proporciona.

Antes de nos embrenharmos nos odores que permanecem, deixo duas sensações não olfativas. Impressões táteis.

O Papa é da ordem de Santo Agostinho. É interessante que tenha dado à sua primeira encíclica o título de ‘Magnifica Humanitas’. Na verdade, uma injusta receção do pensamento de Santo Agostinho atribui-lhe um pessimismo antropológica que bebera, por exemplo, Lutero (ele também padre agostinho). ‘Magnifica Humanitas’ como que ‘redime’ Santo Agostinho’ perante o olhar do mundo. Mas não é ele, afinal, o teólogo do coração?

Uma segunda nota que se nos imprime no tato como impressão digital é que Leão XIV sabe encontrar um seguro equilíbrio entre a evocação de princípios (que clareza!) e a sua aplicação precisa e acutilante, com uma linguagem que não deixa, também, de ser muito plástica, na boa tradição que já cultivara o Papa Francisco. E com uma humildade (define-se como ‘fiel entre fiéis’) que o leva a reconhecer que a Igreja nem sempre, ao longo da história, foi consequente com o tesouro que lhe está confiado (vejam-se os números 86, 138, 175-177).

Acrescento mais uma observação, antes de abrirmos o frasco de perfume: antes deste documento que reflete sobre a IA, já os dicastérios para a Cultura e Evangelização e da Doutrina da Fé tinham feito sair, em março de 2025, a nota ‘Antiqua et Nova’, profusamente citada nesta encíclica, documento onde se clarifica o que é aqui evocado: que, com propriedade, não deveria designar-se a ‘IA’ como ‘inteligência’, que deverá considerar-se própria do humano. Sendo que a esta observação deverá acrescentar-se que o humano é muito mais do que inteligência, como claramente evidencia Leão XIV, nesta ‘Magnifica Humanitas’.

Partamos, então, o frasco de perfume…

Mirra (finitude)

O odor da mirra, uma resina utilizada no embalsamamento de cadáveres, evoca a omnipresente ‘finitude’. Não me parece abusivo considerar que esta encíclica é como que uma ‘ode ao perfume da finitude humana’, uma recordação permanente de que, face à IA, que se afigura como imune ao erro, é preciso voltar a recordar a condição frágil da humanidade, condição não dispensável, como se pudéssemos pensar-nos ou viver ‘apesar’ da finitude, mas antes como a condição que nos define. E, por isso, merecem particular crítica os transumanismos e pós-humanismos que se propõem esquecer o humano e a sua fragilidade, ao ponto de se proporem, mesmo, superá-lo. Na senda da visão preconizada neste encíclica, urge reconhecermo-nos como seres ‘efinitos’, que vivem na e da finitude a partir da qual podem pensar-se como projetados para o infinito, que não será a sua anulação, mas a sua total assunção.

Alecrim (memória)

O Papa Leão XIV apresenta, entre os números 17 e 45, uma brilhante síntese do que foram estes anos de Doutrina Social da Igreja, inaugurada, como pensamento organizado e sistematizado, com Leão XIII, em 1891. Esta secção é lugar a regressar, vezes sem conta. Lugar de uma memória que se atualiza no pensamento e agir da Igreja de todos os lugares e tempos.

Alfazema (Paz)

É particularmente interessante o desafio que Leão XIV faz a que se problematize o conceito de ‘guerra justa’, em cujo contexto desafia a que se tome consciência de que ‘o recurso à força, à violência e às armas testemunha uma pobreza relacional que tem sempre consequências desastrosas para as populações civis.’ (n.192)

São particularmente densas afirmações que utiliza como as de ‘gramática dos conflitos’, ‘nação armada’, recordando que se assiste a uma mudança de paradigmas, em matéria bélica, em que a guerra deixou de ser a ‘extrema ratio’ para se passar a legitimar, como uma espécie de cultura explicitada nas polarizações e lógicas de ‘amigo-inimigo’, ‘nós-eles’, suportada por interesses económicos que se alimentam da normalização do conflito e da violência.

Camomila (cura e cuidado)

Entre as inúmeras e fecundas sínteses que este documento vai disponibilizando, numa pedagogia que fará deste um modelo a seguir (são várias as partes da encíclica em que, após enunciar ideias fundamentais, elas se vão desdobrando como um leque, dobra após dobra), Leão XIV propõe cinco ‘pistas de responsabilidades quotidianas e públicas: desarmar as palavras, construir a paz na justiça, assumir o olhar das vítimas, cultivar um saudável realismo, revitalizar o diálogo e o multilateralismo’ (n.213) E acrescenta, recuperando palavras do seu antecessor, que ‘devemos tocar a carne de quem sofre: olhar para os rostos, escutar as histórias, reconhecer as feridas.’ (n.216)

Dama da noite (como jasmim) – floresce de noite – mistério

O documento abre com a referência a duas histórias bíblicas que, como numa espiral, se irão desenrolando, progressivamente. A história de Babel e a da reconstrução das muralhas de Jerusalém, após o exílio da Babilónia, sob a condução de Neemias.

Com estas duas metáforas, o Papa recordará que a humanidade está diante de um desafio: o de utilizar as potencialidades que as tecnologias lhe disponibilizam, ou para se edificar numa lógica que nos voltará uns contra outros, ao considerar-nos autossuficientes, ou numa lógica em que, reconhecendo-nos nascidos de Deus e irmãos, crescemos, conjuntamente.

Laranjeira (equilíbrio)

O odor da flor da laranjeira inebria. Mas bem sabemos como, da laranja doce se pode, facilmente, deslizar para a acidez do limão. O equilíbrio é uma das notas marcantes desta encíclica: nem idolatra a tecnologia, nem a demoniza. Mas já não se basta em afirmar a sua neutralidade enquanto instrumento. Reconhece que, dada a sua potencialidade, ‘não podemos considerar a IA moralmente neutra [pois] todo o artefacto técnico traz consigo escolhas e prioridades: o que mede, o que ignora, o que otimiza e a forma como classifica pessoas e situações.’ (n.º104)

Amêndoa (esperança)

O modelo a que deveremos regressar é Jesus Cristo. Ele não é Deus apesar da humanidade: antes, assume a nossa humanidade. Assume-a e eleva-a, consigo. Essa deverá ser a matriz, de modo a garantir que ‘permitir o crescimento da técnica [se opere] sem deixar regredir o coração’ (n.126) Daqui resulta que ‘o humanismo cristão não rejeita a ciência e a técnica: acolhe-as com gratidão e realismo, inserindo-as, “com os pés bem assentes na terra”, numa vocação mais elevada. [] a verdadeira alternativa não é entre o entusiasmo ou medo, mas entre duas formas de construção: um progresso que serve à pessoa e aos povos, ou um progresso que os submete às lógicas de poder.’ (n.129)

Esta encíclica deixa, por tudo isto e por quanto escapa a este insuficiente ‘frasco de perfume’, uma pungente pergunta: quanta humanidade há nas nossas decisões sobre o que fazer e o que fazemos com as tecnologias ao nosso dispor?


*Professor, Presidente da Comissão Diocesana da Cultura
Autor de ‘Bem-nascido… Mal-nascido… Do ‘filho perfeito” ao filho humano’, ‘Ensaios de liberdade’ e de ‘Teologia, ciência e verdade: fundamentos para a definição do estatuto epistemológico da Teologia, segundo Wolfhart Pannenberg’

Imagem recolhida de https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2026-06/18-carta-enciclica-magnifica-humanitas-padre-gerson-schmidt.html