Dom. Jun 13th, 2021

Radcliffe convida muita gente para o drama,

Jorge Pires Ferreira

Ir à Igreja porquê? O drama da eucaristia

Timothy Radcliffe

Paulinas | 2010 | 296 páginas

Se um ateu me pedisse para lhe sugerir um livro de introdução à fé, indicava-lhe este: “Ir à Igreja porquê? O drama da Eucaristia”. Se um católico convicto me fizesse pedido similar, para aprofundar a fé, indicava-lhe o mesmo. Porquê? Entre outros motivos, porque começa assim:

“Certo domingo, a mãe acordou o filho com uma sacudidela e disse-lhe que estava na hora de ir para a igreja. Sem resultado. Dez minutos mais tarde, insistiu:

– Sai imediatamente da casa e vai par a igreja.

– Ó mãe, não me apetece! É tão aborrecido! Porque é que hei de chatear-me?

– Por duas razões: sabes muito bem que deves ir à igreja ao domingo e, em segundo lugar, és o bispo da diocese”.

E Radcliffe remata: “Não são apenas os bispos que, por vezes, não têm desejo de ir à igreja”.

Este é, portanto, o primeiro motivo: a assunção de que também os mais destacados responsáveis da igreja – os bispos – têm dúvidas, preguiça, frouxidão na fé ou, como tem dito o Papa e diziam os moralistas clássicos, acédia. Estamos todos na mesma barca.

O segundo motivo será a convocação do humor para falar de fé. Humor com base na vida pessoal do dominicano a quem quiseram dar o nome de Cucufate quando fez a profissão religiosa – teve o bom senso de manter o nome dados pelos pais, que já lembra o apóstolo Timóteo – e com o contributo de outros, como Dan Berrigan, que escreveu: “A tua fé raramente está onde está a tua cabeça ou o teu coração. A tua fé está onde está o teu traseiro” (p. 17). E agora um exemplo de humor passado com o autor: “Fui uma vez abordado, no exterior de Blackfriars [residência de dominicanos em Londres], por dois jovens que realizavam um inquérito. Perguntaram-me se eu acreditava que Jesus era, literalmente, o Filho de Deus. Respondi-lhe que isso dependia daquilo que pretendiam com isso. Se pretendiam dizer que Jesus era o filho do Pai [Deus], tal como eu era filho de meu pai, então a resposta era «Não». Mas se estavam a perguntar-me se Ele era verdadeiramente o Filho do Pai, «gerado e não criado», então, «Sim». Olharam um para o outro, surpreendidos, e um deles disse: «Regista-o aí como “Não sabe”»” (p. 101). Noutro livro, conta que quando nos aeroportos faz o check-in e lhe perguntam se Londres é o seu “destino final”, nem sempre resiste à tentação de dizer: «Não, espero que seja o Céu»”.

O terceiro motivo é a convocação de uma plêiade de autores, livros, filmes, poemas, canções para auxiliar a busca, ajudar à compreensão ou pelo menos despertar a atenção. Há quem não goste do estilo, há quem o ache forçado, despropositado. Eu gosto. Ajuda-me a pensar em algum aspeto da fé cristã e, como no caso que vou citar, ajuda-me a olhar para o filme com novo olhar:

«“The Shawshank Redemption” [Os Condenados de Shawshank], um filme rodado em 1994 por Frank Darabont, fala-nos de Andy, um banqueiro americano, preso depois de, por engano, ter sido condenado pelo assassínio da sua mulher. Esforça-se por manter viva a esperança neste mundo deprimente. Tendo-se tornado um preso de confiança, com liberdade excecional, um dia, ocupa a torre de controlo e emite pelos altifalantes a música da ópera As Bodas de Fígaro de Mozart. Todos estacam e se transfiguram. A beleza abriu-lhes um outro mundo em que já não eram simples criminosos, mas podiam atrever-se a esperar, de novo, uma vida humana. Nenhum de nós consegue pregar tão bem como Mozart, ou mesmo de forma tão libertadores como aqueles músicos no clube de jazz; é por isso que sempre precisaremos de artistas para compartilhar o acontecer da graça. Johann Sebastian Bach celebrou, no seu Oratório de Natal, o nascimento do «mais belo de todos os seres humanos». Precisamos de descobrir a música para repartir esta beleza com os nossos contemporâneos» (p. 97).

Mas se Radcliffe invoca o filme é porque quer sugerir que as celebrações litúrgicas – a missa – existem para oferecer um vislumbre do mundo aparentemente impossível, como o que a música de Mozart destapou. E assim, com E. M. Forster (autor de de “A Passage to India”), Ford Prefect (de “The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy”), Barbara Taylor Brown, Tenzin Palmo (monja budista), Etty Hillesum (jovem judia que morre em Auschwitz) ou o filme “O Grande Silêncio” (sobre a vida de La Grande Chartreuse), para só referir os apontados nas páginas 54-55, abertas à sorte (duas em quase trezentas), somos levados a encontrar continuidades entre a cultura e a fé. Ou o contrário. A invocação de tantos autores e de tantos dramas ajuda a construir a “tese” deste livro: “A Eucaristia é, efetivamente, um drama; representa o drama fundamental de toda a existência humana”.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.