Sáb. Nov 27th, 2021

 

Leituras que nos abrem para a grande questão do sentido,
Jorge Pires Ferreira

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A minhas leituras
Luigi Giussani | Tenacitas | 232 páginas

Luigi Giussani (1922-2005) é mais conhecido como o padre que fundou o movimento Comunhão e Libertação, na década de 1950, hoje presente em mais de 70 países, incluindo Portugal. Menos conhecida será a sua faceta de apreciador e mesmo estudioso da literatura e do cinema. “Amante” talvez seja a palavra mais adequada.

Na realidade, Giussani sempre se dedicou a mostrar a “pertinência da fé” para com as “exigências da vida”, como afirma o objetivo básico do movimento Comunhão e Libertação. E nas exigências da vida sobressaem as da cultura. Ou antes, pelas grandes obras culturais passam os dramas, alegrias, sofrimentos, absurdos e redenções da vida humana. Daí que, no programa educativo do seu movimento, que começou e é em grande parte juvenil, esteja a leitura e meditação de textos. Não necessariamente católicos. E para facilitar a leitura, Giussani criou a coleção “Os livros do espírito cristão”, na qual editou em 1996 este “As minhas leituras”, que foi publicado em Portugal em 2010, dando título a uma nova coleção da editora Tenacitas.

Em “As minhas leituras” estão reunidas 12 conferências sobre autores ou obras literárias, a que se juntam três textos sobre filmes. Vale a pena referi-los, pois, num livro com este, pode-se começar por qualquer lado. E um autor familiar pode levar-nos a outros desconhecidos. E num até agora desconhecido podemo-nos confrontar “com as palavras cheias de arte e de engenho da melhor literatura e, através dela, com questões mais agudas da consciência humana”, como se afirma na nota do editor da edição portuguesa. Os títulos, então:

  1. Giacomo Leopardi no auge do seu génio profético
  2. Uma leitura de Pascoli sobre os últimos destinos
  3. O drama de Clemente Rebora
  4. O problema da conversão em Ada Negri
  5. A forma do eu: Dante e São Paulo
  6. Montale, a razão e o imprevisto
  7. O amor como gerador do humano. Leitura de A Anunciação a Maria, de Paul Claudel
  8. Consciência da Igreja no mundo moderno, nos Coros de «A Rocha», de T. S. Eliot
  9. A descoberta de D. Juan. Leitura de Miguel Mañara, de O. V. Milosz
  10. A voz que resiste nas trevas. À volta das poesias e de um romance de Par Lagerkvist
  11. Reavivar o humano. Sobre algumas cartas de Emmanuel Mounier
  12. A liberdade e a gratuidade. À volta de duas páginas de Charles Péguy

Os títulos dos textos três filmes:

  1. O ímpeto da vida. Sobre o filme de Ordet, de C. T. Dreyer
  2. A tragédia do moralismo. Sobre o filme Dies Irae, de C. T. Dreyer
  3. O carácter concreto do sentido religioso. Sobre o filme Deus precisa dos homens, de J. Delannoy.

Entrei neste livro pelo texto número 8, relativo a T. S. Eliot, um autor de que tinha lido os “Quatro Quartetos” (Ática), mas não “Terra desolada”, e alguns dos “Ensaios Escolhidos” (Cotovia), mas sem ter visto o musical “Cats” (sim, inspira-se numa série de poemas de Eliot sobre a “psicologia felina”). Fiquei a conhecer os admiráveis versos dos Coros de “A Rocha” sobre a posição da Igreja num mundo que já não a quer, um mundo que transforma igrejas em lojas, que ao fim de semana passeia de carro ou, se estiver mau tempo, fica “em casa a ler os jornais” – ou nas redes sociais – e sobre como os próprios cristãos são assaltados pelo ceticismo. “Terá sido a Igreja que abandonou a humanidade ou foi a humanidade que abandonou a Igreja?”, interrogava-se Giussani, a partir do poema de Eliot, nas três conferências que deram origem ao oitavo texto. “A resposta [de Eliot] é afirmativa em ambos os casos”, diz Giussani. E isso provoca-nos.

 

 

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