Ter. Nov 30th, 2021

Lições vivas

Jorge Pires Ferreira

A última Aula

Randy Pausch com Jeffrey Zaslw

Presença | 2008 | 256 páginas

 

Dar uma última aula não difere muito de olhar as coisas a partir do fim. Como se afirma logo no início do livro, “tornou-se uma prática comum nas universidades. Solicita-se a professores que imaginem o seu falecimento e que ruminem sobre o que mais os interessa”. Ou, como muitos santos e diretores espirituais sugeriram, trata-se de olhar as coisas da perspetiva da eternidade. No caso de Randy Pausch, a sua última aula, dada aos 46 anos, menos de um ano antes de morrer, por causa de um cancro no pâncreas, sabendo que ir morrer, foi mesmo olhar as coisas a partir do fim. Literalmente.

O professor de ciência da computação da Universidade Carnegie Mellon (CMU) não falou de espiritualidade nem de religião – embora se tenha convertido à hora da morte, pois comprou um computador Apple, como disse na joke –, mas falou sobre os seus sonhos de infância, sobre o tornar possível os sonhos dos outros e as lições aprendidas sobre como realizar os sonhos próprios e ajudar à realização dos sonhos dos outros.

Digamos desde já: a aula não foi lamechas (pode ser vista num vídeo TED) e o livro a que ela deu origem muito menos o é. Pelo contrário, é uma grande lição de vida, olhando a morte de frente. Com auto-ironia, como quando disse a um aluno para o motivar: “Sou um idiota em recuperação. É por isso que tenho autoridade moral para lhe dizer que também pode vir a ser um idiota em recuperação” (135). Com frases inspiradoras (todo o livro é “inspiracional”): “Os muros existem por um motivo. Dão-nos a oportunidade de mostrarmos até que ponto desejamos alguma coisa” (97); “Sempre acreditei que se pagássemos num décimo da energia gasta nas queixas e a empregássemos na resolução do problema, ficaríamos surpreendidos com o rumo positivo que as coisas podem tomar” (162). Com lições aprendidas nas relações: “Um bom pedido de desculpa é como um antibiótico. Um mau pedido de desculpa é esfregar sal na ferida” (195).

“A última aula”, o livro, divide-se em 61 pequenos capítulos. Pretende ser uma passagem de sabedoria aos três filhos de Randy Pausch. Mas só não a aproveita que não quiser. O jornalista Jeffrey Zaslow, que então escrevia no Wall Street Journal (morreu em 2013 num acidente de automóvel), assistiu mesmo à palestra e a partir dela, após 53 conversas por telemóvel enquanto Pausch andava de bicicleta (“exercício crucial para a minha saúde”), redigiu o livro. “Tínhamos algo bem presente logo à partida”, diz Pausch na introdução. “Nada disto substitui um pai vivo. Mas a engenharia não tem que ver com soluções perfeitas. É sobre darmos o nosso melhor com recursos limitados”.

O livro saiu em Portugal em maio de 2008 e Randy Pausch morreu no dia 25 de julho seguinte. As lições continuam vivas.

 

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