Sinais | Leitura de ‘sinais’ inquietantes | Rubrica promovida em parceria com o Correio do Vouga
O fim da mesa de jantar?
António Jorge Pires Ferreira
Na sua crónica de domingo, Helena Matos, no “Observador”, insurge-se contra o fim da mesa de jantar, substituída por refeições em ilhas, sofás ou na própria cama, geralmente de coisas que se comem à colher, sem espinhas nem ossos, o que implicaria o uso de vários talheres e não deixaria uma mão livre para mexer nos ecrãs. “O presente declínio da mesa de refeições é muito mais que o resultado de uma moda. Pelo contrário, é o sinal de uma mudança enquanto sociedade”. Que mudança? Famílias cada vez mais separadas, desconjunturadas, famílias mais de indivíduos do que de pessoas com laços, sujeitos que vivem na mesma casa, mas em mundos completamente diferentes. E se, por um lado, a família é vítima da evolução desnorteada em que vivemos, por outro, os pais têm responsabilidade no que está a acontecer: “Os ecrãs só ganharam essa espécie de omnipresença porque ocuparam o espaço cada vez mais em desuso e simbolicamente vazio da mesa de refeições de todos os dias” (…).
“A assim chamada mesa de jantar, embora lá se fizessem as outras refeições e em muitas casas também fosse mesa de cozinha ou aquela em que muitas crianças faziam os trabalhos de casa, foi mudando de aspeto, dimensão, materiais mas estava lá enquanto centro da vida familiar. E se agora podemos prescindir dela, tal só acontece porque a vida familiar está a mudar para algo que é cada vez mais vida individual, mais atomizado: dados recentes indicam que apenas um terço das famílias inglesas faz uma refeição em comum, por dia. Sendo que também temos de questionar o que se entende por refeição em comum: por exemplo, comem ou não em família os franceses que, a fazer fé nos números, trocam crescentemente a mesa pelo sofá, cadeirão ou o que seja para poderem continuar a interagir com os seus écrans enquanto comem?”
Felizmente, ainda há famílias que fazem pelo menos uma refeição por dia em conjunto, o jantar, e não permitem qualquer tipo de ecrã ligado ou à mesa.
Imagem de Vilius Kukanauskas por Pixabay