GLOSASEspaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente

 

Glosas a Brève apologie pour un moment catholique

– Adresse: La croix sans la bannière –

(pp. 7-14)

 

Tiago Azevedo Ramalho 

 

– 1. «Sobre esta pedra…». – É um imenso mar de nuvens que apresenta esta Brève apologie pour un moment catholique, da autoria de Jean-Luc Marion (Grasset, 2017). Mas não se trata de um mar de nuvens diante do qual se perfile, à maneira romântica, um viajante, fruindo desse frio arrepio de quem se descobre perante o Erhabene, o Sublime, aquilo que ultrapassa a claridade da luz, do contorno, da forma e da nitidez. Não, olhamos melhor e vemos que este mar de nuvens não é total, antes rasgado por um alto; e que nesse alto, imagina-se que sobre a rocha, se divisa a forma de um edifício; e que dele se levanta, firme e determinado, um pináculo que domina a paisagem. Cai a chuva, engrossam os rios, sopram os ventos, abate-se um manto de indistinção e de nevoeiro – e sobre o que está firme na rocha há uma presença que não desmobiliza.

            Jean-Luc Marion (n. 1946), destacada figura da cena filosófica francesa, sem com isso não menos assumir a respectiva condição de intelectual católico, arrisca, nesta Brève apologie, a usar da palavra em defesa desse «sinal de contradição» que, a olhar de terceiros, a Igreja de todos os tempos sempre constituiu. Fá-lo, pois, apresentando uma apologia, discurso de defesa ou de justificação da fé cristã ad extra.

            O género não é novo, bem o sabemos. Data dos primeiros tempos da literatura patrística o desenvolvimento de uma literatura apologética, de que são testemunho exemplar as Apologias de São Justino (séc. II), para nós traduzidas por Fr. Isidro Lamelas, OFM (Justino, Filósofo e mártir do século II – Em defesa dos cristãos, Paulus, 2019). Antes mesmo de semelhantes realizações, a própria literatura neotestamentária apresenta já modelos de discurso apologético, nem sempre com imediato sucesso, aliás: é o caso, entre outros, do discurso de Santo Estevão perante as autoridades judaicas (Act 7) ou de São Paulo em Atenas (Act 17, 22-34). Trata-se de uma modalidade de discurso de que é sempre característico um duplo movimento: a defesa ou justificação da racionalidade da fé, primeiro, justamente a característica que dá nome a este registo literário (Apologia significa discurso de defesa); mas em vista, depois, da sua proposta ao exterior. O que é razoável – quer dizer, razoado, passado pelo filtro da razão – pode, porque o é, cativar aqueles a quem se comunica. Esta dupla dimensão encontra-se bem presente, aliás, no título de Marion: trata-se, com efeito, de uma breve apologia «pour un moment catholique», em vista de um momento católico.

– 2. Apologia(s). – Será esta a tradição apologética, a do primeiro cristianismo, que, imagino, Marion pretende evocar com este título – e não outra, bem mais recente, desenvolvida no âmbito do catolicismo moderno pós-tridentino, destinada a esgrimir, no quadro de conflitos interconfessionais, aquelas que seriam as boas, infalíveis e indefectíveis razões para a permanência com a Igreja unida a Roma… Regresso àquele primeiro registo que se saúda, claro, embora não sem alguma apreensão. Se este novo exercício apologético se identifica com o registo das apologias da antiguidade, é também porque se vê superado o modelo de sociedade «cristão» que até há pouco caracterizava o mundo europeu, substituído por formas de convivência que relembram alguns traços das formas de vida da sociedade que lhe era anterior. A divisão fundamental já não se dá hoje, como há pouco ocorria, entre diferentes confissões da fé cristã, adquirindo as suas divisões internas uma relevância mais secundária, mas entre qualquer uma delas e um vasto mundo exterior para o qual aquele evento é inteiramente estranho.

              Na França contemporânea, há, pois, alguém que toma a palavra na condição de como se dirigir a novos «gentios». Que o caso é crítico, revelam-no as palavras inaugurais do texto: «N’ayez pas peur!», «Não tenhais medo!» (p. 7). Reconhece-se, nesta exortação, as célebres palavras escriturísticas com que São João Paulo II inaugurou o seu pontificado. Mas, assim as emprega Marion, hão-de elas agora ser ressignificadas, não apenas para exortarem já cristãos a uma adesão determinada à vivência cristã, mas, de forma bem mais prosaica, de católicos para não católicos (e para católicos «envergonhados): a exortação a que «não tenhais medo!» entendida como «não tenhais medo de nós!».

            Exortação que se compreende, enfim, desde a radical estranheza que voltou a ser provocada pela profissão de fé cristã – …um imenso manto de nevoeiro se abate sobre a realidade… –, estranheza que, muito justamente, provoca hesitações e receio. E que por isso pede uma Apologia: discurso sólido sobre a rocha.

Será muito diferente a situação entre nós? Algumas diferenças haverá – mas o assinalável decréscimo na iniciação sacramental permite antever, com relativa segurança, que muito em breve os traços característicos da fé cristã serão pouco mais do que ininteligíveis para a grande massa da população. Uma experiência exodal na própria casa que pedirá quem se proponha a fazer uma agora tornada necessária apologia.

(Continua.)


Imagem recolhida das Edições Grasset