Homilia do Sagrado Coração de Jesus
O dia do Sagrado Coração de Jesus, na tradição da Igreja, está associado à santificação dos Sacerdotes. Este ano de 2026, tal como afirma a mensagem da Comissão Episcopal vocações e ministérios para este dia, estamos todos convidados a rezar pelos sacerdotes, especialmente pela sua humanidade.
Humanos como todos e não super-humanos como ninguém, os sacerdotes são frágeis, “vasos de argila”, mas instrumentos de Graça, sinais de um “tesouro” que transportam. É esta humanidade que é necessário alimentar, de forma desarmada, longe dos focos do poder, isenta de interesses e recompensas… que faz apontar sempre para Jesus, o Sacerdote Único.
“Tu és um Povo consagrado ao Senhor”. A eleição de Israel, tal como a nossa para servirmos o povo santo de Deus, baseia-se no amor gratuito de Deus. A eleição não é fruto de uma conquista humana, mas é sempre pura graça de Deus.
S. João, na segunda leitura, diz-nos que o amor de Deus se manifestou de forma clara no envio de Jesus, o Filho, que se tornou um homem como nós, que partilhou a nossa humanidade, que nos ensinou a viver a vida de Deus e, levando ao extremo o seu amor pelos homens, morreu na cruz. A cruz manifesta a “qualidade” do amor de Deus pela humanidade: amor gratuito, incondicional, de entrega total e que nos transforma a partir de dentro de cada um de nós. Para um cristão, e mais ainda para um sacerdote ou um diácono, servidores do povo de Deus, também o nosso amor pelos irmãos deve ser gratuito, incondicional, total, até à morte. Viver no amor é escolher Deus, permanecer em Deus, viver em comunhão com Ele.
Nesta Eucaristia, queremos dar graças a Deus por tanto bem realizado nas nossas paróquias, por tantos agentes de pastoral que com generosidade e gratuidade se entregam ao serviço e anúncio do reino de Deus, e pelo trabalho feito e mostrado até agora na reflexão e estudo das comunidades pastorais.
Na peregrinação que o Papa Leão XIV fez nestes dias a Espanha, propôs aos bispos a imagem de uma viagem cujo destino é Deus, para quem elevamos o nosso olhar. Penso que o nosso trabalho sobre o futuro na nossa diocese de Aveiro e, mais concretamente, a implementação das comunidades pastorais, tem muito a aprender com os desafios que o sucessor de Pedro nos oferece. Apresento apenas três.
1º Uma tentação nas viagens é a de nos acorrentarmos ao que deixamos para trás, os lugares, as coisas, as formas… sem nos abrirmos em docilidade ao Espírito, à novidade do que encontramos. A esta tentação junta-se a da bagagem, que, por razões semelhantes, enchemos de coisas inúteis que acabam por ser, mais do que um alívio, um fardo. Por outro lado, também não convém esquecer algo que aprendemos com as vicissitudes de tantos emigrantes: uma pessoa sozinha, sem raízes e sem recursos, alguém que sofre terrivelmente e que só com grande dificuldade consegue estabelecer laços sólidos no lugar aonde chega.
2º Outro tesouro que não podemos esquecer na nossa alforja é o Viático do peregrino. O Pão da Palavra e da Eucaristia são-nos ainda mais necessários do que o alimento material, porque nos abrem o caminho da salvação. Não se trata de tornar a celebração mais ou menos atraente, mas sim de sentir que, se fazemos parte d’Ele, a sua ausência causa-nos uma inquietação que podemos comparar com a fome material. A vida sacramental vai ritmando a nossa existência como a de uma criança que recebe o alimento da sua mãe, como a de um desportista que vai medindo as forças necessárias para chegar à meta.
3º O mundo secularizado envolve os nossos cristãos praticantes e não praticantes e cada um de nós se não estivermos atentos. Muitos homens e mulheres do nosso tempo não rejeitam simplesmente Deus; muitas vezes, carregam no coração uma profunda sede de sentido, de verdade, de pertença e de esperança, mesmo quando não sabem dar-lhe um nome. A Igreja é chamada a reconhecer estes anseios, a ouvi-los com respeito e a oferecer, como Pedro e João ao paralítico junto à porta do templo, o tesouro que lhe foi confiado: Jesus Cristo, em cujo nome o homem pode levantar-se e caminhar (cf. At 3,1-10). Também quando colabora com outras instituições, religiosas ou civis, mesmo quando oferece ajuda material, educação, assistência ou promoção humana, a Igreja nunca deixa de oferecer o que lhe é próprio: o amor de Deus revelado em Cristo. Essa mensagem penetra na sociedade, que não hesita em manifestar o seu apreço por muitas destas obras. Assim, cada gesto de caridade cristã que nasce do Evangelho traz em si uma promessa ainda maior: devolver à pessoa a convicção de ser amada.
O que contemplamos e adoramos no Coração de Jesus é Cristo por inteiro, o Filho de Deus feito homem, representado numa imagem em que se destaca o seu coração, porque, mais do que qualquer outro membro do seu corpo, ele é o símbolo da sua imensa caridade para com a humanidade.
Termino com os apelos que o Papa Francisco nos fez na encíclica Dilexit nos (Amou-nos) para que nunca esqueçamos a ternura da fé, a alegria do serviço, o fervor da missão pessoa-a-pessoa, a cativante beleza de Cristo, a gratidão emocionante pela amizade que Ele oferece e pelo sentido último que dá à vida.
Jesus, manso e humilde de coração, fazei o meu coração semelhante ao vosso.
ORAÇÃO
Senhor Jesus,
Sacerdote Único,
santificai todos os sacerdotes.
Conservai-os em comunhão
com o vosso amor,
fortalecei-os nos seus cansaços
e enchei os seus corações
da plenitude do Espírito Santo.
Que a humanidade
de cada sacerdote
seja instrumento
de vossa misericórdia
e caridade pastoral.
Amen.
Aveiro, 12 de junho de 2026.
†António Manuel Moiteiro Ramos, Bispo de Aveiro