Qui. Out 28th, 2021
GLOSASEspaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente

Tiago Azevedo Ramalho

Acompanhamos nestas glosas a obra de Charles Taylor, A Secular Age, cujo objecto foi enunciado na primeira destas composições. Após a leitura das três primeiras partes da obra (glosas 2 a 22), iniciámos a Parte IV, de título «Narrativas de Secularização». Visto o primeiro dos seus capítulos (glosas 23 a 25), e já iniciado o seguinte (glosa 26), suspendemos hoje a exposição, para um excurso sumário pela obra 1977 de Philip Sarrasin.

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– 96.  Um breve excurso. – Antes de prosseguirmos a leitura da obra de Taylor, transitando das características gerais da Idade da Autenticidade para o lugar que a religião nela ocupa, justifica-se um breve excurso para considerar a obra 1977. Eine kurze Geschichte der Gegenwart (1977. Uma breve história do presente), de Philip Sarrasin, recém-editada (2021) pela editora alemã Suhrkamp. É um excurso que creio valioso, uma vez que os dados dela constantes ajudam a confortar o entendimento de que, por altura da segunda metade do séc. XX, se consumou uma efectiva mudança cultural.

O esquema adoptado pelo Autor é de grande simplicidade, mas por isso não menos interessante – antes pelo contrário. O ano de 1977 é escolhido por se lhe afigurar paradigmático de um acentuado conjunto de mudanças que se foram produzindo ao longo da década: «1977 foram lançadas as sondas espaciais Voyager 1 e 2 para o espaço (…), foi inaugurado em Paris o Centro Pompidou e na Califórnia lançado o “computador pessoal” Apple II (…) Por que é que Jimmy Carter no seu discurso inaugural a 20 de Janeiro falou de direitos humanos, a ONU proclamou a 8 de Março o “dia internacional da mulher” e em Paris os nouveaux philosophes se afirmaram? E porquê a quase contemporânea emergência do Hip-Hop, Disco e Punk, enquanto na Alemanha a organização terrorista de extrema esquerda Rote Armee Fraktion (RAF) iniciava a sua “Ofensiva” 77?»

O interesse não está em considerar uma putativa especialidade do ano de 1977, mas em utilizá-lo como um momento temporal particularmente apto a retirar uma amostra significativa de um conjunto de mudanças ao tempo surgidas, e que, volvidas quatro décadas, se tornaram lugares comuns. Mudanças que, naturalmente, foram emergindo nos anos anteriores: poderá apontar-se como referência os finais dos anos 60 e a década de 70 (sendo esta tida como período de grande incerteza, contrastando com o optimismo dos anos 60: entre outros aspectos, surgem cenários de apocalipse ecológico…).

Tratando-se de obra de alguma dimensão – cerca de meio milhar de páginas –, procurarei colocar em evidência alguns desses dados que permitem colocar em evidência a nova forma social surgida por esse período, em década na qual se colocam em crise as «certezas» próprias da modernidade, que «a muitos aparece como (…) projecto falhado» (p. 21), num ambiente de apreensão generalizada.

Seleccionam-se os temas principais dos capítulos da obra que assinalam as mudanças surgidas neste período (salvo do capítulo 2, de índole mais política, relativa à reconfiguração do espaço político da «extrema-esquerda»):

(a) Direitos humanos, minorias e a política da diferença (cap. 3).Assiste-se em 1977 à emergência da categoria dos «direitos humanos» – de que o já referido discurso de Jimmy Carter é sinal –, que, até então, não eram arma política de primeira grandeza: «Os “Human Rights” (…) eram a palavra de ordem do momento: em vez de esperança da Revolução prometiam a protecção do indivíduo ante o arbítrio estatal e a violência. Uma nova utopia, porventura a “última”, como o historiador do Direito Samuel Moyn diz? O presente capítulo colocará em evidência como, no palco da política, a partir de agora os perseguidos aparecem menos como cidadãos do Estado nacional, mas antes como indivíduos, que com os seus nomes e características das ofensas sofridas comprovam o mal geral de um Estado repressivo. Os indivíduos e a sua “diferença” manifestam-se também noutros quadrantes. Filósofos franceses contrapõem os indivíduos agredidos às formações de poder da modernidade, os punks modificam a cultura pop com a sua encenação como excluídos da sociedade, e as feministas politizam a “experiência feminina”» (p. 116).

O caso dos direitos humanos, exercidos agora como arma política de primeira grandeza, é muito significativo. Para ilustrar até que ponto surgia insólita a invocação da categoria «direitos humanos» como arma política na década de 70, podem dar-se dois exemplos. Em Abril de 1977, a (sempre à medida do Zeitgeit) revista alemã Der Spiegel escrevia, a respeito dos direitos humanos, que Jimmy Carter «se dotou de uma arma do arsenal teórico [geistig] de finais do séc. XVIII, que ninguém acredita que é para levar a sério numa época histórica de prioridades técnico-económicas» (pp. 122-123). E Roberta Cohen, conselheira do Presidente Carter, era citada nos seguintes termos nas páginas do New York Times: «Os direitos humanos são subitamente chique» (p. 123).

A «nova» categoria será cavalgada por diferentes grupos de base, assumindo uma forma «activista»: exemplo é a Amnistia Internacional, com a pretensão de vigiar qualquer violação de direitos humanos em qualquer paragem do mundo, e que, com a concessão do prémio Nobel da paz em 1977, recebe chancela pública (pp. 126-127). O que determina a política já não é a «vontade de mudança política (…), mas o sofrimento individual e “direitos” individuais, exigidos por actores individuais ou grupos de advocacy.» (p. 127)

Iluminadoras são as seguintes linhas: «A nova política de direitos humanos pretendia acima de tudo ser pós-ideológica ou politicamente “neutral”, como o Comité do Nobel sublinhou. Pretendia, conforme a expressão talvez excessivamente ampla de Samuel Moyn, substituir as “Utopias” tornadas caducas das esquerdas pela nova “Utopia” dos direitos humanos. Acima de tudo, o discurso dos direitos humanos podia de facto funcionar como pós-ideológico e “utópico” porque nunca estava determinado o que é que o conceito deveria significar ao certo: era o último “significante vazio” da política, que
à volta do globo se apresentava subitamente como a solução para trazer ao mais pequeno denominador comum as mais diferentes exigências e pretensões políticas, direitos e desejos de libertação.» (pp. 127-128). Mais adiante se escreverá: «A mudança política mais significativa (…) foi o fim da crença “na” Revolução – se necessário armada –, compreendida como a etapa seguinte do progresso social para o socialismo; foi a rápida erosão da esperança socialista. (…) Uma grande época histórica que começou no séc. XVIII com a “dupla revolução” nos EUA e em França tende para o fim.» (p. 419)

É também neste novo quadro tomam espaço público os que representam minorias invisíveis, tidas por agredidas ou marginais. Ora um discurso que sacrifica as grandes narrativas a favor das microrealidades, como em Foucault; ora, no espaço público, com a emergência da marginal cultura punk («white trash»).

Grande eco vem ainda a ter a «viragem feminista», com as seguintes características: (i) alcance global assente em «organizações de base», sem prejuízo das tensões entre feministas do hemisfério norte e hemisfério sul (o exemplo dado é o tema dos métodos contraceptivos e do aborto: sustentados pelas «feministas do norte», são recebidos pelas feministas do sul, «que conheceram o planeamento familiar não raro sob a forma de esterilização forçada», como uma forma de «genocídio»: cf. p. 154). A palavra de ordem fundamental é (ii) a «autonomia» e a intenção de «libertação» da mulher. Se nalguns casos o movimento feminista conduz à exaltação do próprio feminino – a ponto de, para alguns, a «feminilidade seria entendida como uma posição não mais compatível com um mundo pensado como um espaço comum para ambos os sexos» –, noutros o feminino há-de ser tomado por pura realidade meramente cultural e convencional. Problemático se tornará então não só a noção do «feminino», mas também do «masculino» ou das demais categorias rígidas que estruturem a sociedade: prenuncia-se, para esta segunda leitura, o «fim da naturalização da diferença sexual e ao mesmo tempo o início de uma pluralização das diferenças de acordo com bem diferentes “funções” e “categorias” sociais e culturais» (p. 159). Caracteriza o movimento, ainda, (iii) a politização da vida privada. Para o significar publicamente, surge em finais da década anterior o substantivo «sexismo», construído a partir de «racismo». Como meio de sinalização do feminino, encontra-se «não o jornal, nem a revista, nem o livro. É o corpo» (p. 160).

(b) A viagem para si próprio (cap. 4). – Com os movimentos anteriores, diferentes actores sociais «começam a afastar-se dos grandes projectos da modernidade e da crença numa “lei” vigente para todos, de modo a encetarem uma viagem rumo a si próprias, para investigarem o seu “interior” e a sua “identidade”» (p. 168). Se para uns a referida viagem passaria pela «libertação sexual», para «os Hippies a droga milagrosa LSD parecia abrir a porta para esta viagem. Em breve seriam gurus indianos [escreve-se adiante: «com uma linguagem “universal” de “espiritualidade”, que já só raramente apresenta conteúdos teológicos, e faz  exigências mínimas aos seus seguidores, conseguiram estes guros “desetnizar” o hinduísmo e torná-lo consumível para um apetite religioso globalizado»], budistas alemães, monges tibetanos, esotéricos britânicos e ainda um físico austríaco que apontariam, no fim do sonho da Revolução, o caminho para o “interior” – aí onde a consciência deveria ser “expandida” para o Cosmos. Por diferentes formas, estes caminhos cruzam-se (…) com os dos psicólogos “humanistas”, que limavam as novas tecnologias do Eu singular. A crença no racionalismo da modernidade e nas coordenadas discursivas que firmam os sujeitos no mundo começam a deslizar nesta “New Age”. Nenhuma surpresa que um filósofo declare em 1975, em Berkeley: “Vale tudo”. [Anything goes.] E também nenhuma surpresa por em todo este esforço de procura do próprio eu o novo ansiado significante “Identidade” comece a captar energias políticas.» (p. 180) É a partir de agora que se torna moda a procura da «autenticidade». Do ponto de vista político, emerge, portanto, a «política da identidade»: o termo identity politics surge em 1977 (p. 229).

Mas esta identidade – ler-se-á na conclusão –, qual «palavra mágica de um período posterior é modernidade», ao mesmo tempo que seduz na pretensão de dar um espaço à diversidade, já não «oferece qualquer ponto de apoio para pensar o geral [como pretenderam as categorias jurídicas da modernidade]: a “identidade” compreendida à letra não pode nada incluir, mas apenas encontrar-se sempre no “mesmo”» (p. 421)

(c) Máquinas culturais (cap. 5). – Menciona-se agora o conjunto de inovações tecnológicas com forte impacto ao nível cultural – e, por isso, também antropológico: «O período em cujo início estava a produção de sons com martelos e pistolas por detrás de uma tela de cinema, passando pela invenção da televisão, até à introdução do computador pessoal, teve a duração de apenas uma vida humana. Mas as mudanças técnicas que trouxe consigo foram significativas. É a história em aceleração de máquinas culturais, que, mediante a manipulação de sinais, que em breve serão apenas electrónicos, são capazes de criar mundos e permitem fazer jogos com sentidos (…) Em 1977 esta história adensou-se de modo especial. Trata de computadores de todas as dimensões [o Apple II sai para o mercado em 1977], de gira-discos e de câmaras de vídeo, de mesas de mistura e aparelhos de eco [Echogeräten], de filmes, de luzes cintilantes e de latas de spray, assim como, mesmo no fim, de um centro de cultura [Pompidou]. (…). A propósito: as cidades também são máquinas culturais? Num certo sentido sim. Pelo menos desde metade do séc. XIX estabeleceu-se o topos de que os edifícios falam uma “linguagem” mediante a sua arquitectura – que, de facto, foi decididamente afastada pelos modernos por volta de 1920: não, as formas de arquitectura “adequadas ao tempo” expressariam doravantes apenas a verdade das leis geométricas, da estática e da função. Contra este dogma moderno levanta-se agora oposição: a cidade e a sua arquitectura, disseram os teóricos do “pós-moderno” arquitectónico, são geradores de sinais que têm de ser programados de novo.» (p. 262).

(d) Na sombra da natureza (cap. 6). – Finalmente, o capítulo 6 trata da influência do «biologismo» sobre diferentes domínios da vida social. Num primeiro momento, sobre as próprias ciências sociais, dando-se por exemplo a economia a apropriar-se de conceitos da própria biologia (em 1975 é publicada a obra Sociobiologia; em 1976 publicara Dawkins a obra The Selfish Gene). Ecos mais distantes esta biologização da cultura encontram-se, ao nível da cultura de massas, na disseminação de práticas como o body-building – e, mais amplamente, da estética do corpo –, o fitness, ou, finalmente, o running (movimento que engloba «quase exclusivamente white collar workers e membros da classe média branca, na maioria mulheres»), que se torna ícone de uma pós-modernidade que valoriza as próprias opções, os próprios percursos, o exercício da autonomia, a modelação do próprio corpo.

Assinalaram-se algumas das mudanças da década de 70, hoje tornadas lugares comuns, ao menos na cultura urbana – que, porém, pelos meios de comunicação à distância caminham para a hegemonia. Com a «erosão do geral» e a «pluralização de verdades», perdem relevo referentes objectivos de discurso. Não só a moralidade, como também a própria epistemologia – passe o paradoxo –, subjectivizam-se modo radical.

Podemos fechar o presente excurso, posto que realizado o propósito a princípio indicado: ilustrar a seriedade da afirmação de Taylor de que estamos perante uma nova Idade.

A questão que agora se coloca é: qual o lugar que o fenómeno religioso nela ocupa?

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Vê-lo-emos na próxima glosa.


Imagem de Rafael Javier por Pixabay