Dom. Out 17th, 2021
GLOSASEspaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente

Tiago Azevedo Ramalho

 

Acompanhamos nestas glosas a obra de Charles Taylor, A Secular Age, cujo objecto foi enunciado na primeira destas composições. Após a leitura das três primeiras partes da obra (glosas 2 a 22), iniciámos a Parte IV, de título «Narrativas de Secularização». O presente texto conclui o capítulo 12 (depois da glosa 23 e 24), o primeiro da parte IV.

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– 89. Contraposição entre os dois tipos ideais. – Os tipos ideais do Ancien régime e da Idade da Mobiliação, enquanto diferentes formas de configuração religiosa, podem ser contrapostos mediante quatro critérios:

(a) Ideia de ordem moral:

(i) Ancien régime. – Ideia pré-moderna de ordem, inscrita no cosmos ou num tempo superior;

(ii) Mobilização. – Ordem moral moderna, entre iguais, assente no benefício recíproco (pp. 459-460).

(b) Relação com a acção humana:

(i) Ancien régime. – As formas de organização religiosa preexistem aos seus concretos membros, recuando ao «princípio dos tempos».

(ii) Mobilização. – As formas de organização religiosa são vistas como o resultado da actuação dos seus membros, que as constituem e animam. Daí o termo mobilização: «as pessoas têm de ser conduzidas, ou forçadas, ou organizadas a fazer a sua parte na nova estrutura; têm de ser recrutadas para a criação de novas estruturas.»

(c) Forma de organização:

(i) Ancien régime. – Estruturação orgânica, assente em estados, instituições e pequenas comunidades, participando-se no conjunto através de cada um destes elementos (por ex., paróquia).

(ii) Mobilização. – Assenta num modelo de sociedade de acesso directo, em que todos são perspectivados reciprocamente como indivíduos (n.º 47).

(d) Relação com o mundo envolvente:

(i) Ancien régime. – Articula-se com um mundo visto como encantado.

(ii) Mobilização. – Relaciona-se com um mundo desencantado (para estas noções, ver o n.º 6).

Repise-se que se trata de tipos meramente ideais: a concreta composição eclesial pode conjugar, no mundo histórico real, elementos dos dois modelos (p. 460).

São muito valiosas, finalmente as reflexões das pp. 462-466 – que não serão glosadas de perto –, relativas à dissolução, em âmbito francês (largamente aproveitáveis para a nossa realidade), da lógica do antigo modelo de vivência paroquial. Aí se coloca em evidência a tensão entre um modelo de prática religiosa assente num forte consenso comunitário, que (quando de um certo estilo) só é possível à custa de grande uniformização da prática religiosa, e a promoção de uma devoção pessoal intensa, que pode justamente colocar em causa a uniformização comunitária.

– 90. Relação com o declínio da prática religiosa. – A distinção entre as duas formas de organização eclesial é, de resto, relevante para compreender algumas dinâmicas de declínio ou conservação da prática religiosa – assim como para recusar leituras lineares do processo de secularização. Com efeito, algumas dinâmicas próprias da modernidade, por ex., a urbanização, se podem atingir de modo muito profundo um modelo de organização eclesial assente no primeiro modelo, estão aptos a serem devidamente absorvidos pelo segundo: «Como o sociólogo da religião francês Gabriel le Bras afirma, quando o camponês francês chegava à Gare de Montparnasse em finais do séc. XIX, já estava perdido para a Igreja. Mas a migração de camponeses semelhantes para a América do Norte trouxe frequentemente novas e mais vigorosas formas de prática.» Quer dizer, a ao ponto chega Taylor, tudo depende da existência, e em que termos, de alternativas às formas de vida religiosa inicialmente experimentadas (p. 461), que apenas serão oferecidas nalguns dos modelos de presença da dimensão religiosa na sociedade.

– 91. O isolamento identitário.Ao nível católico, as diferentes formas de mobilização religiosa – «recolha de fundos, criação e condução de escolas, hospitais, universidades (…)» – tinha em vista também «isolar os fiéis, tanto quanto possível, de influências exteriores (perspectivadas como) de natureza hostil: o liberalismo, o socialismo, o protestantismo. Este último fim requeria também um amplo conjunto de organizações, como clubes desportivos católicos e outros grupos recreativos. Finalmente, mas longe de por último, foram fundados partidos católicos.» (p. 467) Há paralelos não católicos: também assim se organizavam, por ex., os partidos sociais democratas, ou comunistas; ou o protestantismo na Holanda; etc. (p. 472)

Ao mesmo tempo, decresce o controlo por parte da hierarquia (p. 467). Interessante é o desenvolvimento, ao nível católico, de formas de espiritualidade análogas às evangélicas, sublinhando particularmente a dimensão emocional (Sagrado Coração; Santa Teresinha do Menino Jesus); a tentativa, também, de ordenamento moral (por ex., combate ao alcoolismo); a promoção de associações mutualistas; Catholic Trade Unions; etc. (p. 468). Ainda dentro deste lado católico, não se combateu a dimensão festiva, embora tenha havido o esforço de deslocar as peregrinações do nível local para regional (em França: La Salette, Lourdes, Paray le Monial), com a «bênção da hierarquia». É de assinalar, todavia, que os grandes santuários surgidos ao longo dos últimos séculos se tenham iniciado a partir de baixo, da vivência popular da religião (p. 469). Trata-se de uma diferença para o campo protestante, embora, como adiante se verá, tenha certo paralelo com o revival meeting e com formas do pentecostalismo desenvolvidas no séc. XX, para as quais a dimensão festiva é central (pp. 469-470).

– 92. Dimensão social da religião. – Em suma, são muitas as formas de interacção possíveis entre a dimensão religiosa e política (pp. 470-471). Seja como for, em qualquer uma das perspectivas se torna claro: do ponto de vista cristão, a religião é perspectivada como garante da ordem social. E o seu declínio é temido como factor de turbação da ordem estabelecida: «Esta visão é ainda defendida hoje em alguns círculos, mas há um século atrás era normal e mesmo hegemónica entre crentes cristãos.» (p. 472) É esta visão mobilizadora aquela que marca a vivência religiosa no período de 1800 a 1950/60.

Deste modo, quatro factores que caracterizavam a religiosidade das elites tornam-se generalizadas neste período: «espiritualidade, disciplina, identidade política, e uma imagem de ordem civilizacional.»

Viriam a ser desafiadas, porém, por uma nova Idade (p. 472).

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Passaremos a considerá-la na próxima glosa.


Imagem | Santuário de Lourdes | Manfred Zajac por Pixabay