Sáb. Out 23rd, 2021
GLOSASEspaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente

Tiago Azevedo Ramalho

Acompanhamos nestas glosas a obra de Charles Taylor, A Secular Age, cujo objecto foi enunciado na primeira destas composições. Após a leitura das três primeiras partes da obra (glosas 2 a 22), iniciámos a Parte IV, de título «Narrativas de Secularização». Visto o primeiro dos seus capítulos (glosas 23 a 25), iniciamos hoje o segundo, o 13 da obra.

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– 93.  Uma nova Idade. – «Toda a gente sente que qualquer coisa mudou. Muitas vezes a mudança é experimentada como uma perda, uma quebra. A maioria dos americanos julga que as comunidades estão em erosão, e também as famílias, a vizinhança, mesmo a comunidade política; pensam que as pessoas estão menos dispostas a participar, a fazer a sua parte; e estão menos dispostos a confiar nos outros. (…) Sem dúvida que percepções similares estão disseminadas noutras sociedades ocidentais.» (p. 473)

A presente transcrição dá a tónica para o objecto do capítulo 13 da obra. Depois de um laborioso de identificação da genealogia da Idade Secular, eis uma surpresa: subitamente se anuncia que, algures no século XX, houve lugar a uma forte revolução cultural. É ali, desde os seus anos 60, que «A Idade da Autenticidade» (The Age of Authenticity), título que recebe o presente capítulo, toma o espaço público, revolvendo a cultura comum herdada.

O presente capítulo – em tema ao qual o Autor dedica também a obra The Etichs of Authenticity (Harvard University Press, 2018, mas cuja primeira edição fora de 1991, sob o título The Malaise of Modernity) – é, a meu ver, dos mais valiosos para tomar o pulso ao (nosso) tempo. Mais do que explorar as causas que podem ter conduzido a uma Idade de individualismo «expressivista» (sociedade de consumo, mobilidade, modificações na organização de trabalho, reconfiguração das relações familiares, urbanização, advento da televisão,…), na linha da intenção «genealógica» que guiou as partes anteriores da obra, procura agora identificar quais os seus efeitos ao nível moral, nomeadamente na definição do critério do bem e do valor (pp. 473-474). Estamos ainda a começar a aproximar-nos desta nova época – agora que está quase consumada a saída da vida activa de todos aqueles que provêm de período histórico anterior, que, neste medida, entra no domínio do perfectum –, e por isso dela como nos aproximamos apenas às apalpadelas, a partir das suas manifestações exteriores.

As mudanças presentes nesta Idade da Autenticidade começarão por ser vistas em sede geral (pp. 474-486); só de seguida se considerarão as suas consequências sobre o lugar da religião (pp. 486-504). Entre uma e outra parte, suspenderemos temporariamente a leitura de Taylor para a consideração de uma outra obra, recém-saída, que ajuda a ilustrar as grandes mudanças ocorridas a partir da década de 60.

– 94.  A Idade da Autenticidade. Dimensão «expressivista». – Começaremos assim a ver as características desta nova Idade, dita de Autenticidade, e que é a Idade a que o nosso tempo pertence. Como ponto prévio está a advertência de Taylor de não reduzir esta Idade a uma simples viragem egoística ou hedonística, mas de a considerar seriamente como um período de mudança efectiva no quadro de valores.  Veremos alguns dos seus traços.

Assinala-se logo a revolução de consumo, passando este a ser concebido como meio para expressão de gostos, de personalidade, etc. (p. 474). Dentro ainda deste âmbito, destaca-se a criação de uma específica cultura juvenil de índole «expressivista», que se há-de multiplicar num conjunto de grupos específicos de afinidades e diferenças específicas: «Os estilos de roupa adoptadas, os tipos de música ouvidos, a criação da personalidade, as afinidades de quem escolhe, num amplo espaço de moda em que as opções de uma pessoa podem alinhar com milhares, mesmo com milhões de outras.»

É neste âmbito que Taylor se serve do termo «autenticidade», com raízes no romantismo e agora disseminado, assente na ideia de que «cada um tem a sua forma própria de realizar a nossa humanidade». A disseminação deste modo de ser dá-se já na segunda parte do séc. XX, momento no qual expressões como «do your own thing», «just do it», se tornam correntes: «Um expressivismo infiltra-se em toda a parte. As terapias multiplicam-se com a promessa de te ajudar a encontrares-te, a realizar-se, a libertar o teu verdadeiro eu, e por aí adiante.» (p. 475)

Diferentes revoluções surgem na década de 60 do séc. XX, também em resposta à específica cultura dos anos 50: «Revoltaram-se contra um sistema “mecânico” em nome de laços mais “orgânicos”, contra o instrumental, e a favor de vidas dedicadas a bens com valor intrínseco; contra o privilégio, e a favor da igualdade; e contra a repressão do corpo pela razão, e pela plena realização da sexualidade.» (p. 476) E isto de modo a constituir um todo harmónico entre tais diferentes elementos, que ficaria por realizar: «Na medida em que os fins da auto-expressão integral, libertação sexual, relações iguais, e vínculos sociais não podem ser facilmente realizadas em conjunto – e parece que só podem ser unidos com dificuldade, e por tempo limitado, na melhor das hipóteses em pequenas comunidades –, a tentativa de os realizar envolverá o sacrífico de alguns elementos do conjunto em favor de outros.» (p. 477)

Seguem-se dois parágrafos de Taylor nos quais recenseia sumariamente a obra de David Brooks, Bobos in Paradise, que de tão acutilantes merecem ser transcritos. Dentro da citação da obra de Taylor encontra-se, por sua vez, uma citação directa daquele Autor:

«David Brooks apresenta a síntese entre “bourgeois” e “boémio” que vê na actual classe alta dos EUA. Estes “BoBos”, como lhes chama, fizeram as pazes com o capitalismo e a produtividade, mas conservam como preponderante o sentido da importância do desenvolvimento pessoal e da auto-expressão. Continuam a abraçar de todo o coração o sexo e a sensualidade como bens em si, mas procuram-no com uma espécie da mais séria preocupação pelo investimento em si próprio que está a anos luz da espontaneidade dionisíaca dos anos 60. Desenvolveram aquilo a que chama um “egoísmo selecto” [higher selfishness]: “O cultivo de si próprio é o imperativo… Não é um egoísmo grosseiro e vulgar, procurando o seu estreito auto-interesse ou a acumulação insana. É um “egoísmo selecto”. Tem a ver com estar bem seguro de que se consegue obter o máximo de si próprio, o que significa colocar-se a si próprio num trabalho que realiza do ponto de vista espiritual, é socialmente construtivo, diversificado nas experiências que proporcionada, enriquecedor do ponto de vista emocional, que aumenta a auto-estima, sempre desafiante, e eternamente edificante.”

Entre o que se perdeu do conjunto original está, por um lado, a igualdade social; BoBos fizeram as pazes com a revolução Reagan-Thatcher, o emagrecimento do Estado-Providência, e o aumento da desigualdade no rendimento, onde se sentam bem no topo. E, por outro lado, o seu estilo de vida móvel contribuiu para erodir a comunidade. Mas há mais do que apenas um desconforto residual entre muitos destes grandes voadores. Querem acreditar que estão a contribuir para o bem estar de todos; e anseiam por relações comunitárias mais significativas.» (p. 477)

É numa sociedade com estas características que a invocação do factor «escolha» (pro-choice), enquanto tal, é constante (p. 478), com isso de podendo esvaziar o justamente o impacto e significado moral das opções tomadas. E mesmo se diga a respeito da invocação de «direitos» (p. 479) – embora, como adiante se dirá, a sua invocação esteja agora menos ligada a uma comunidade específica (p. 486). Como seja, houve uma efectiva modificação do contexto de discussão das mais diferentes questões políticas (pp. 480-481).

– 95. Consequências sobre o imaginário social. – Tais manifestações, entre outras que se poderiam convocar, se particularmente presentes na cultura juvenil, disseminaram-se já pelo conjunto da sociedade. Eis algumas consequências:

(a) O surgimento de um novo imaginário social, a acrescer à economia, esfera pública e povo soberano, constituído pela moda (fashion): «O lugar da moda encontra-se num espaço no qual sustemos uma linguagem de signos e significados que se encontram constantemente a mudar, mas que a certo ponto é o background necessário para dar aos nossos gestos o sentido que têm.» (p. 481) Torna-se um espaço relevante, uma vez que constitui um meio de comunicação numa sociedade urbana de indivíduos isolados: nela, «cada indivíduo ou pequeno grupo age por si próprio, mas com a consciência de que o seu comportamento diz alguma coisa aos outros, vai ser respondido pelos outros, vai ajudar a construir um mood ou tom comum que colorirá as acções de todos» (p. 482). Na verdade, é esta lógica de multidão solitária que estará presente nas grandes mobilizações colectivas, por ex., grandes eventos culturais, desportivos, comoção geral com uma notícia (morte da «Princesa Di»), etc., e que são o sucedâneo de expressões colectivas anteriores. [Considere-se o fenómeno dos festivais de verão…ou as Jornadas Mundiais da Juventude, como tentativa de codificar em termos religiosos este fenómeno.] Momentos em que se partilha «uma emoção, um forte sentimento comum. O que está a acontecer é que estamos a ser todos tocados em conjunto, movidos como um só, a sentir-nos em conjunto como fundidos no nosso contacto com algo superior, que nos comove profundamente, ou algo admirável; cujo poder de nos comover foi profundamente amplificado pela fusão» (p. 482). Que constitui, afinal, uma pervivência da dimensão do festivo nas sociedades contemporâneas (cf. o n.º 91).

(b) Os bens (commodities) tornam-se «veículos de expressão individual, mesmo da auto-definição da identidade». Ao mesmo tempo que a linguagem que veiculam, é, ela própria, objecto de exploração económica, dado poder ser adquirida. Olhe-se o exemplo, dado por Taylor, de aquisição de um produto assinalado com uma marca desportiva. Estranha simbiose, pois, entre o económico e o identitário. O que pode, bem assim, agudizar a sensação de ruptura com espaços anteriores de pertença (p. 483).

(c) Não só encontramos um imaginário novo, como os imaginários existentes se vêem objecto de transformação. O sentimento de pertença deslocou-se de grandes entidades como nações (ou Igrejas; Partidos Políticos,…) para outros eixos de articulação, como, por ex., estrelas mediáticas ou produtos. O que, se implica o enfraquecimento de certas formas de organização anteriores, supõe também o reforço de outros valores sociais, precisamente daqueles que são próprios da Idade da Autenticidade. Tal «relativismo soft» tem por mote: «deixa cada um fazer a sua cena [their own thing], e não devemos criticar os “valores” dos outros; tal é predicado com uma base ética sólida, na verdade, reclamado por ela. Não se deve criticar os valores dos outros, porque eles têm o direito a viver a sua própria vida como tu. O pecado que não é tolerado é a intolerância.» Neste ponto, trata-se ainda de um desenvolvimento da ordem moral moderna, sobrevalorando uma das suas dimensões e sacrificando algumas outras (p. 484).

(d) Este quadro surge desacompanhado de qualquer disciplinamento, do cultivo de uma ética cívica-individual, da defesa de valores familiares, que como constituíam o quadro de referência (framework) dentro do qual se poderia procurar a felicidade individual (pp. 484-485). É este movimento de fundo que, no conjunto do mundo ocidental, conduziu a um conjunto de alterações normativas em sede de moral social, tidas como de «liberalização dos costumes» – questões tão diferentes, mas agrupáveis sob este ponto de vista, como as relativas ao aborto, divórcio, legalização da pornografia, etc. E «o coração desta revolução reside nos costumes sexuais», não já apenas ao nível de uma elite, mas do conjunto da sociedade (p. 485).

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Antes de considerarmos o lugar da religião nesta nova Era da Autenticidade, suspenderemos a leitura d’ A Secular Age para considerarmos brevemente a obra 1977, de Philip Sarasin, recentemente dada à estampa.


Imagem de Pexels por Pixabay