GLOSASEspaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente

Tiago Azevedo Ramalho 

 

­ – «Nulla salus extra scholam» (cont.) –

[Introdução geral: nn.º 1 a 8/ I. Ivan Illich e a Escolarização: nn.º 9 e ss.]

 

– 28. Mais do que um paralelo: a continuidade.Mas quão mais se procura a comparação entre o sistema escolar e a realidade eclesial, mais claro se torna para Ivan Illich que não se trata somente de realidades paralelas, mas que se encontram em continuidade, a primeira em relação à segunda.

Nas respectivas pronúncias sobre a história da Igreja, fica a impressão de que Ivan Illich tende a adoptar a leitura «iluminista» que identifica a Igreja, no arco medieval e moderno, essencialmente como um aparato burocrático institucional clericalizado. Até que ponto um tal juízo tem real correspondência histórica é uma outra questão, que ultrapassa o âmbito destas glosas. Como seja, tal parece ser o ponto de vista de Ivan Illich. E, tendo esse ponto de partida, entende que as instituições modernas – incluindo o sistema escolar, portanto – continuam semelhante tradição: «O sistema escolar contemporâneo realiza a tripla função comum às igrejas poderosas na história. É simultaneamente o repositório do mito da sociedade, a institucionalização das contradições desse mesmo mito, e o local do ritual que reproduz e vela as disparidades entre mito e realidade.» (Deschooling, p. 37) Deste modo, o sistema escolar constitui a «continuação do sistema da igreja cristã na cultura ocidental.» (Conversation, p. 65)

Desde este ponto de vista, a escolarização obrigatória, alvo principal da sua crítica (n.º 14), não constitui senão um novo compelle intrare – compulsão obrigatória a ser iniciado numa crença social: «A igualdade de oportunidade é, de facto, um objectivo desejável e realizável, mas identificá-lo com a escolarização obrigatória é como confundir a salvação com a Igreja. A escola tornou-se a religião global de um proletariado modernizado, e faz promessas fúteis de salvação para os pobres da era tecnológica. O Estado-Nação adoptou-a, mobilizando todos os cidadãos num currículo gradual que conduz a diplomas sequenciais, não distantes dos rituais de iniciação e das promoções hieráticas de tempos anteriores.» (Deschooling, p. 10)

Daí, por conseguinte, a especial intensidade da resposta a casos em que haja rebelião diante das pretensões do sistema educativo: «Hoje é tão perigoso na América Latina questionar o mito da salvação social pela escolarização como o era há três séculos atrás questionar os direitos divinos dos reis católicos.» (Futility, p. 120) A que acresce: «Por fim, o culto da escolarização conduzirá à violência, como o estabelecimento de qualquer religião o fez.» (Futility, p. 119)

Finalmente, também a singular posição dos principais actores do sistema educativo (cf. os nn.º 23 e 34) se deixa explicar como uma actualização da posição de autoridade de clérigos no paradigma que serve de base à exposição de Ivan Illich: «Professores de escola e ministros religiosos são os únicos profissionais que se sentem titulados a bisbilhotar nos assuntos privados dos seus clientes ao mesmo tempo que pregam para uma audiência cativa.» (Deschooling, p. 31)


Imagem de Sasin Tipchai por Pixabay