GLOSAS – Espaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente
Tiago Azevedo Ramalho
– Marcos da vida de Ivan Illich –
– 8. Reflexão breve sobre o relevo de uma biografia. – A vida de Ivan Illich, cujos marcos fundamentais foram sumariamente apresentados (nn.º 3-7), é o pano de fundo que garante a melhor compreensão da respectiva obra, que, conforme se referiu já, é em boa medida uma resposta a interpelações que foram surgindo no decurso do seu percurso. Assim acontece com a vida de Ivan Illich, mas igualmente com a de uma qualquer outra pessoa: quantas vezes não é perante a descoberta de um qualquer traço particular da vida de alguém – a visão do seu rosto, o conhecimento dos seus pais, a presença no lugar em que cresceu, a respiração do mesmo ar pesado, … – que um determinado aspecto específico da respectiva personalidade, ou da sua obra, se nos ilumina. É esta uma decorrência da condição humana, que é adâmica, húmica: aquele que provém da terra é feito também dos espaços que o construíram.
Mas a respeito de Ivan Illich deve indicar-se uma segunda razão para se ter iniciado o presente conjunto de textos com a respectiva biografia. Uma razão que se pode dizer de índole prudencial.
Todo o pensamento humano se desenvolve no confronto entre dadas faculdades singulares da pessoa e a respectiva experiência, na qual aquelas faculdades podem ser exercitadas. A ponto de, onde não exista qualquer experiência, o pensamento e a capacidade de representação estarem pura e simplesmente impedidos de terem lugar. Como explicar o que é o frio àquele que viveu sempre, e sem excepção, num clima quente, nunca havendo experimentado a privação de calor?
Ao olhar a vida de Ivan Illich, impressiona a riqueza do respectivo percurso. Está simultaneamente dentro e fora de muitas tradições; inscreve-se no vértice e na periferia da estrutura eclesial; participa do poder e da impotência; experimenta o estrelato e o esquecimento; insere-se em fortes estruturas institucionais e arrisca a errância nómada.
Ao confrontar um semelhante percurso com o meu próprio trajecto, que, no confronto com o de Ivan Illich, é de sofrível linearidade, não deixo de me perguntar: e se a resistência que possa surgir aqui e ali a uma sua afirmação mais ousada resultar apenas de uma minha incapacidade de entender? E se a divergência tiver por fonte uma minha ignorância de certas dimensões do humano, que, embora existindo, me estão totalmente vedadas, apenas porque para lá de todo o análogo à minha própria experiência?
A assimetria de experiência não pode ser um obstáculo insuperável ao diálogo. Deve ele ter lugar, mesmo assumindo o risco de uma nunca totalmente perfeita comunicação. Mas daquela assimetria resulta uma interpelação muito intensa a que haja um empenhado esforço de escuta, com vista a evitar censurar-se no outro aquilo que é resultado apenas da própria cegueira. Uma vida como a de Ivan Illich – e de tantos outros que têm igualmente percursos singularíssimos – não o constitui somente no direito de ser por nós escutado: julgo que nos constitui igualmente no dever de procurar o que nos tem a dizer. A assimetria de experiência não é, pois, um obstáculo insuperável ao diálogo, mas o mais forte convite a que ele tenha lugar.
Colocamo-nos ao redor Ivan Illich como aquele que recebe em sua casa um viajante experimentado, que chega de rosto cansado, com pó acumulado sob os pés, mas com um sorriso sulcado no rosto. Falar-nos-á de lugares muito distantes… ou talvez dos nossos, embora de um ângulo diferente daquele que nos é habitual. Não desconhecemos que pode haver aqui ou ali um erro de perspectiva – entre humanos há-os sempre. Ele, viajante experimentado, agradece a hospitalidade que lhe dispensámos. Mesmo se foi ele, e não nós, quem mais profundamente ofereceu hospitalidade, ao acolher-nos no mundo do seu pensamento e da sua memória.