Sinais | Leitura de ‘sinais’ inquietantes | Rubrica promovida em parceria com o Correio do Vouga

Da UA para a IA

António Jorge Pires Ferreira

A inteligência artificial (IA) está realmente a transformar o modo como aprendemos, trabalhamos, pensamos e até acreditamos. Como nova tecnologia que é, há sempre duas grandes tendências quando se trata de avaliar as suas consequências: a dos apocalípticos e a dos integrados, para seguir o célebre título de um ensaio de Umberto Eco. Os apocalípticos são aqueles que acham que é o fim do mundo. Ou, pelo menos, o fim de um mundo. E por isso, avançam rapidamente e em força (os entusiastas) ou odeiam e receiam qualquer mudança (os tropofóbicos; os luditas, que no tempo da revolução industrial entravam pelas fábricas adentro para destruir as máquinas; ou os sabotadores, que lançavam tamancos – “sabot” em francês – nas engrenagens para paralisar a produção – e daí “sabotagem”).

Os integrados, com mais ou menos crítica, acabam por aceitar as mudanças. Pensam-nas e perguntam: “O que muda? O que é que podemos ou devemos fazer?” Estas perguntas estão a fazê-las a Universidade de Aveiro (UA), e, com certeza, muitas outras instituições de ensino. Com a IA à distância de um clique, os alunos já não vão às aulas teóricas (só às práticas, que são obrigatórias). Há professores que esperam, esperam, esperam e não aparece nem um aluno, quando antes as salas estavam cheias. Está tudo na IA, geralmente muito bem explicadinho. Para quê ir às aulas? Tudo indica que a IA vai dispensar muitos professores do ensino superior. Ou também o ensino tem de mudar.


Imagem de Gerd Altmann por Pixabay