GLOSAS – Espaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente
Tiago Azevedo Ramalho
– Distinguir para compreender (cont.) –
[Introdução geral: nn.º 1 a 8/ I. Ivan Illich e a Escolarização: nn.º 9 e ss.]
– 13. Instituições e pessoa: política e antropologia. – Uma vez que o ser humano vive em contextos sociais plurais, entre a política (assim se entendendo o espaço convivial de interacção humana) e a antropologia não há solução de continuidade. Sob certo ponto de vista, a política é uma antropologia no plural, e a antropologia a política no singular. Semelhante correlação é expressamente assumida por Ivan Illich: «Pretendo levantar a questão de índole geral da definição recíproca da natureza humana e da natureza das instituições modernas que caracterizam a nossa visão do mundo e linguagem. Para o fazer, escolhi a escola como o meu paradigma, e por conseguinte lido apenas indirectamente com outras instituições burocráticas do Estado: a família como unidade de consumo, o partido, o exército, a igreja, os media.» (Deschooling, p. 2)
É sempre desde essa correlação que escreve Ivan Illich. A crítica dirigida às instituições tem por parâmetro o que podem ou não representar para o ser humano, de bom, quando devidamente modeladas, mas igualmente constituindo um potencial de ameaça para as relações interpessoais. Onde a realidade institucional cresça de modo significativo, logo, por correlação, o espaço de conformação individual pode minguar ou ser mesmo eliminado, fazendo-se o ser humano apenas um objecto de manipulação: assim ocorre quando aquele crescimento institucional deixe pouco espaço para a liberdade de (inter)acção. Onde o espaço político seja pensado, portanto, como apenas um aparato de fornecimento de serviços, a pessoa reduz-se à condição de voraz e dependente, e voraz porque radicalmente dependente, consumidora: «O ser humano desenvolveu o poder frustrante de exigir qualquer coisa, porque não consegue representar nada que uma instituição não possa fazer para ele. Rodeado por superpoderosos instrumentos, o ser humano é reduzido a um instrumento dos seus instrumentos.» (Deschooling, p. 109) Num tal quadro institucional, qualquer necessidade tende a ser interpretada como um apelo, não ao esforço de autonomamente, a partir de baixo, se procurarem soluções para que seja satisfeita, mas para uma nova expansão dos serviços públicos, a partir de cima, pensados e programados com esse propósito. Tudo se torna, então, objecto de planeamento: «Uma vez que não há nada de desejável que não tenha sido planeado, a criança da cidade conclui em breve que será sempre capaz de criar uma instituição para qualquer desejo. Toma por garantido o poder do processo para gerar valor. Seja o fim conhecer um colega, integrar um vizinho, ou adquirir competências de leitura, será definido de uma tal maneira que a sua obtenção pode ser programada.» (Deschooling, p. 108)
No confronto com o mito helénico de Prometeu, assim elenca Ivan Illich a cosmovisão moderna: «Para o homem primitivo, o mundo era governado pelo destino, pelos factos, e pela necessidade. Ao roubar o fogo dos deuses, Prometeu transformou os factos em problemas, colocou em questão a lógica da necessidade, e desafiou o destino. O homem clássico deu origem a um contexto civilizado desde uma perspectiva humana. Estava consciente de que poderia desafiar o ambiente natural e o destino, mas apenas pelo seu próprio risco. O homem contemporâneo vai mais além; ele tenta criar um mundo à sua imagem, construir um ambiente totalmente criado pelo homem, e depois descobre que apenas o pode fazer na condição de se estar totalmente a refazer a imagem dele próprio para se lhe adequar. Devemos agora enfrentar o facto de que é a própria pessoa que está em jogo.» (Deschooling, p. 107)
Simbolizando um ambiente vital inteiramente programado, em que evanesce, ou não tem sequer lugar, a sensação de contactar com aspectos da realidade que não foram objecto de manipulação intencional pelo ser humano, está a vida de uma grande metrópole: «Uma criança nas ruas de Nova Iorque nunca toca nada que não tenha sido cientificamente desenvolvido, configurado, planeado e vendido a alguém. (…) A própria aprendizagem é definida como uma questão de consumo de algo, que é o resultado de programas que foram objecto de investigação, planeamento e promoção. O que quer que haja de bom, é resultado de alguma educação especializada. Seria insensato exigir alguma coisa que uma qualquer instituição não pudesse produzir. A criança de uma cidade não pode esperar o que quer que seja que resida de fora do possível desenvolvimento de um processo institucional.» (Deschooling, p. 108)
O estudo do sistema escolar terá, portanto, uma dupla intenção. Procura não só descobrir o que ele é em si próprio e significa para a pessoa humana, como, igualmente, revelar o que nele se manifesta de um quadro institucional que, na verdade, em muito o ultrapassa, mas que desde o ponto de vista identificado por Ivan Illich realiza o mesmo ideário. É, portanto, na qualidade de paradigma das instituições modernas que a escola será estudada (Deschooling, p. 2).
Imagem: https://parallax-media.eu/andrew-sweeny/ivan-illichs-hour-of-legibility