• Um olhar atento ao tempo que flui

Victor Bandeira*

 

Os registos dos passaportes no Governo Civil de Aveiro começaram a incluir a fotografia do requerente a partir do dia 19 de Agosto de 1927. Esta mais-valia proporcionou que se pudesse ter acesso à imagem de cada interveniente que foi retratado naquela época. Ora, deste modo, para além dos milhares de leigos que foram fotografados, também os religiosos que passaram pela região de Aveiro, e que deixaram a sua marca, mesmo não sendo daqui originários,  foram sujeitos ao registo fotográfico quando precisavam de viajar para o estrangeiro. A partir destes registos de passaportes, podem conhecer-se alguns destes religiosos, através da respectiva fotografia e de informações escritas que as complementam, as quais incluem características corporais que se evidenciavam e alguns aspectos biométricos, bem como a idade e a localidade de origem.

No final da década de 20 do século XX, os registos de passaportes tinham como função o controlo das pessoas que viajavam para o estrangeiro, contendo a sua identidade, nacionalidade e o motivo por que viajavam, incluindo o país de destino e os países pelos quais passavam.

Nesta primeira parte, em que se revelam os religiosos que solicitaram passaporte no Governo Civil de Aveiro, entre 19 de Agosto de 1927 e 31 de Dezembro de 1929, percorreram-se mais de 7500 registos de passaportes. Destes, encontraram-se quatro registos de passaportes relativos a religiosos, que se apresentam seguidamente:

1.  Monsenhor Miguel Augusto de Oliveira, que nasceu à 1 hora da madrugada, no dia 15 de Dezembro de 1897, no lugar do Corgo do Norte, em Válega (Ovar), diocese do Porto. Foi baptizado a 16 de Dezembro de 1897, pelo Padre Francisco Alves de Resende. Era o mais velho dos 7 filhos de Jacinto de Oliveira e de Rosa Maria de Jesus, ambos lavradores e naturais de Avanca (Estarreja). Era neto paterno de José Joaquim de Oliveira e de Ana Maria de Jesus e, materno, de avô incógnito e de Rosa Maria de Jesus (solteira).

No registo de passaporte consta que tinha 1,61 metros, cabelo e olhos castanhos. O passaporte foi-lhe atribuído a 22 de Agosto de 1927 para viajar para França, em 2.ª classe, em viagem de recreio.

O Monsenhor Miguel de Oliveira foi ordenado a 18 de Julho de 1920 e iniciou a carreira leccionando Português, Francês e História no Seminário da Diocese do Porto, e, 5 anos mais tarde, mudou-se para Lisboa, a fim de dirigir o jornal católico “Novidades”, cuja vocação para a redacção foi descoberta através das publicações dos relatos das viagens que empreendeu à Palestina e a vários países do Próximo Oriente. Desde cedo se tornou um conceituado historiador, tendo deixado centenas de publicações em periódicos, livros e várias monografias. Em 1945, foi condecorado com o grau de Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada e, 6 anos depois, foi eleito sócio correspondente da Academia Portuguesa da História.

Faleceu em S. Jorge de Arroios, no concelho de Lisboa, a 28 de Fevereiro de 1968, com 70 anos.

2. Padre Alfredo Brandão de Campos, que nasceu às 6h30m do dia 13 de Janeiro de 1884, na Rua da Fábrica, na freguesia da Glória (Aveiro), que, à época, pertencia à Diocese de Coimbra. Foi baptizado a 2 de Fevereiro de 1884, na igreja paroquial de Nossa Senhora da Glória, pelo pároco, Padre José Cândido Gomes d’ Oliveira Vidal. Era filho de João Maria Pereira Campos (empregado público e natural da freguesia da Vera Cruz) e de Rachel Maria de Souza Brandão Campos (natural de Arrifana, Santa Maria da Feira), casados em Cedofeita (Porto). Os avós paternos eram João Maria Pereira Campos e Florinda Rosa Pereira e, os maternos, Miguel André Estrella e Maria Izabel de Souza Brandão.

No registo de passaporte consta que tinha 1,68 metros, cabelo e olhos castanhos. O passaporte foi-lhe atribuído a 29 de Agosto de 1927 para viajar para Espanha, França e Inglaterra, em 2.ª classe, em viagem de recreio.

Faleceu na freguesia da Vera Cruz, na cidade de Aveiro, a 7 de Janeiro de 1947, com 62 anos, a 6 dias de completar 63.

3. D. Francisco Maria da Silva, que nasceu no dia 15 de Março de 1910, no Monte (Murtosa), que, à época, pertencia à Diocese do Porto. Era filho de Joaquim José da Silva e de Maria José Violante.

No registo de passaporte consta que tinha 1,61 metros, cabelo e olhos castanhos. O passaporte foi-lhe atribuído a 14 de Novembro de 1927 para viajar para Itália, como estudante.

Estudou no Seminário de Évora, levado por Monsenhor Pantaleão Costeira (secretário do Arcebispo Metropolita de Évora), seu conterrâneo. Rapidamente se revelou a vocação sacerdotal que o levou a ser enviado a estudar em Roma, com pouco mais de 17 anos de idade, onde se doutorou em Teologia na Universidade Gregoriana. Foi ordenado presbítero a 21 de Maio de 1932, na Basílica de São João de Latrão (Roma). Voltou para a Arquidiocese de Évora, onde foi professor e nomeado cónego capitular e Vigário-Geral daquela circunscrição eclesiástica. A 20 de Dezembro de 1956, o Papa Pio XII nomeou-o para Bispo Auxiliar da Arquidiocese Metropolita de Braga com o título de Telmissus. A 12 de Dezembro de 1963, o Papa Paulo VI nomeou-o como novo Arcebispo Metropolita de Braga e Primaz das Espanhas.

Faleceu a 14 de Abril de 1977, com 67 anos, vítima de cancro.

4. Padre Manuel Maria Nunes Alferes (Frei Gil Maria Nunes Alferes), sacerdote Dominicano que nasceu às 9 horas do dia 14 de Fevereiro de 1905, no lugar da Feiteira, no Troviscal (Oliveira do Bairro), que, à época, pertencia à Diocese de Coimbra. Foi baptizado a 5 de Março de 1905, na igreja paroquial de S. Bartolomeu do Troviscal, pelo pároco, Padre João da Silva Gomes. Era filho de Manuel Maria Nunes e de Rosa da Conceição, ambos lavradores. Os avós paternos eram José Francisco Nunes e Engrácia da Conceição e, os maternos, Manuel Filipe e Maria da Conceição.

No registo de passaporte consta que tinha 1,69 metros, cabelo e olhos castanhos. Usava óculos. O passaporte foi-lhe atribuído a 23 de Julho de 1928 para viajar para França, período durante o qual ainda era estudante.

Na Ordem Dominicana, tomou o nome de Frei Gil Maria Nunes Alferes. Fundou a “Obra do Gil”, a “Obra da Criança” em Vila Verde (Braga), a “Casa dos Rapazes” em Ílhavo, o “Lar do Trabalhador” no lugar da Feiteira, no Troviscal, bem como outros lares de terceira idade.

Faleceu na freguesia de Cedofeita, na cidade do Porto, a 28 de Março de 1979, com 74 anos.

 


*Victor Bandeira, PhD
Departamento de Biologia e CESAM – Centro de Estudos do Ambiente e do Mar

Universidade de Aveiro


Referências bibliográficas

 

Fontes Manuscritas

Padre da Costa, A. J. “Mons. Miguel de Oliveira”. Lusitania Sacra – Revista do Centro de Estudos de História Eclesiástica. Lisboa

Livro de Assentos de Baptismos da Paróquia da Glória (1884).

Livro de Assentos de Baptismos da Paróquia do Troviscal (1905).

Livro de Assentos de Baptismos da Paróquia de Válega (1897-1899).

Pinto, S. R. Dicionário de Historiadores Portugueses da Academia Real das Ciências ao final do Estado Novo. Centro de História, Universidade de Lisboa.

Registo de Passaportes (1927-1929) – Governo Civil de Aveiro. Arquivo Distrital de Aveiro.

Rodrigues, R. F. (2016). “D. Francisco Maria da Silva – Arcebispo de Braga (1963 – 1977)”. Faculdade de Teologia, Universidade Católica Portuguesa. Braga. Tese de Mestrado.

Referências online

Arquivo Distrital de Aveiro. Oliveira do Bairro. Notáveis da Minha Terra! (https://adavr.dglab.gov.pt/2020/05/30/oliveira-do-bairro-notaveis-da-minha-terra/)

Rádio Vagos FM (https://apps.apple.com/cm/app/r%C3%A1dio-vagos-fm/id937012419)


Legendas das Figuras

Figura 1. Registo de Passaporte do Monsenhor Miguel Augusto de Oliveira

Figura 2. Fotografia do Registo de Passaporte do Monsenhor Miguel Augusto de Oliveira

Figura 3. Fotografia do Registo de Passaporte do Padre Alfredo Brandão de Campos

Figura 4. Registo de Passaporte de D. Francisco Maria da Silva

Figura 5. Fotografia do Registo de Passaporte do Padre Manuel Maria Nunes Alferes (Frei Gil)