GLOSASEspaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente

Glosas a Brève apologie pour un moment catholique

– Adresse: La croix sans la bannière –

(pp. 7-14)

(Cont.)

 [Primeiro texto: aqui.]

 

Tiago Azevedo Ramalho

 

– 3. Uma outra forma de presença.  – Não é só o reconhecimento de, entretanto, se haver tornado necessário o regresso ao discurso apologético que merece apontamento. É também que haja quem se proponha a levá-lo a cabo (poderíamos dá-lo por evidente?) e logo alguém como Marion. Entre outros dados de percurso, baste notar, para que fique sublinhada a sua singularidade, que sucedeu na cátedra a Emmanuel Levinas na Sorbonne e a Paul Ricoeur em Chicago; e, na Académie française, ao Cardeal Jean-Marie Lustiger. Do percurso do autor destaca-se a conjugação de uma notável dedicação filosófica a um profundo interesse teológico – foi premiado com o Prémio Ratzinger em 2020 –, num e noutro caso, na Filosofia como na Teologia, cultivando uma exercitação que simultaneamente mobiliza as respectivas histórias e algumas das suas mais contemporâneas realizações. Trata-se, enfim, de um certo perfil e modo de exercício da fé cristã que rompe com muitas das suas caricaturas habituais.

Em qualquer caso, Brève apologie pour un moment catholique não é uma obra filosófica ou sequer teológica sensu stricto. É obra, porém, flagrantemente saída de quem se encontra profundamente versado naquelas disciplinas, e cujo discurso deixa entrever, quer os duros rigores da exercitação intelectual a que o seu autor se submeteu, quer o horizonte de sentido que escolheu e no qual declaradamente confessa pretender inscrever-se.

Nem sempre a Igreja, bem o sabemos, vem contando com quem assuma e exerça este tipo de discurso. É certo que nunca deixou de cultivar no seu interior as letras filosóficas, e que nelas pretende versados os que são admitidos aos principais ministérios ordenados. Não obstante, não deixa de se notar um assinalável contraste entre aquele que parece ser o modo magisterial de proposta da exercitação filosófica e o modo como esta tem lugar fora da cintura eclesial, com não raro – como não se pode deixar de reconhecer – abismos de incomunicabilidade entre uma e outra. Contraste-se, por ex., uma proposta como a da Encíclica Veritatis Splendor, de São João Paulo II (1993), com algumas das principais exercitações de Filosofia contemporânea do lado de cá ou do lado de lá do canal. Ao não assumir, nem a intransigência da radical interrogação filosófica – a busca dos «ῥιζώματα πάντῶν», raízes de todas as coisas –, nem a não menos intransigente «loucura» do dado teológico, que subordina a espontaneidade do sujeito ao primado da escuta, o discurso coloca-se num espaço que torna difícil a comunicação do fundamental da via da fé. Que alguém versado naquela dupla intransigência, a da Filosofia e a da Teologia, tome a palavra, é um dado que, portanto, merece um profundo sublinhado.

Um segundo apontamento se justifica. É também de notar, com efeito, não estarmos diante de um contributo saído dos canais habituais de «produção» de pensamento católico: nem se trata de texto provindo da hierarquia, nem de nenhuma instituição educativa católica. É texto, na verdade, livre de qualquer sombra de qualquer rotinismo burocratizado, o que nem sempre se verifica quando provém de outras categorias de locutores.

Tudo contribui para tornar esta reflexão especialmente interessante, pelo modo de exercício da fé que representa: fé esclarecida, mas não altiva; minoritária, mas não sectária; vivida na convicção pessoal, mas aberta a propor-se ao mundo; assumida na singular condição baptismal, mas desejando-se enraizada no orbe católico; sabendo-se crescentemente desconhecida, mas testemunhando as razões da sua esperança. Tudo especialmente interessante, porque em tudo, afinal, especialmente acolhendo a exortação de quem presidiu à edificação da Igreja:

«Não temais as suas ameaças, nem vos deixeis perturbar; mas, no íntimo do vosso coração, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça; com mansidão e respeito, mantende limpa a consciência, de modo que os que caluniam a vossa boa conduta em Cristo sejam confundidos, naquilo mesmo em que dizem mal de vós» (1 Pe 3, 15-16; fora na tradução das citações directas de Marion, dão-se as versões da Bíblia dos Capuchinhos).

(Continua.)


Jean-Luc Marion, membro da Academia Francesa