Luís Manuel Pereira da Silva*
Acompanha-me, há muitos anos, um sonho: o de assistir ao restabelecimento da comunhão entre catolicismo e ortodoxia.
Quando o partilho aos meus alunos, muitos desabafam: ‘o professor tem cada sonho!’.
Para quem vive, intensamente, o drama da desunião cristã e reconhece os custos, na evangelização, dessa condição, esta não é uma questão menor. Para mais que ela frustra o desiderato crístico que associa essa união ao crédito que os demais darão: ‘Eu neles e Tu em mim, para que eles cheguem à perfeição da unidade e assim o mundo reconheça que Tu me enviaste e que os amaste a eles como a mim.’ (Jo 17, 23 – segundo a tradução de www.paroquias.org)
Grandes passos se foram dando, desde que, em 7 de dezembro de 1965, o Papa S. Paulo VI e o Patriarca Atenágoras suspenderam, reciprocamente, as excomunhões que impendiam, mutuamente, sobre cada um das igrejas.
Ecumenismo: critérios e atitudes
O Vaticano II deu-nos o critério maior para a promoção deste caminho. No número 11 do decreto conciliar sobre o ecumenismo, ‘Unitatis Redintegratio’, afirma-se que ‘Na comparação das doutrinas, lembrem-se que existe uma ordem ou «hierarquia» das verdades da doutrina católica, já que o nexo delas com o fundamento da fé cristã é diferente.’
Bem certo que a aplicação de um tal critério não deverá fazer-se subjugado ao desejo de um falso irenismo que branqueia a verdade, mas convirá recordar que, efetivamente, entre os cristãos, é muito mais o que une do que o que divide, sendo que, historicamente, poderá constatar-se que os motivos imediatos que assistiram à rutura foram, muitas vezes, favorecidos por razões mais conjunturais do que centrais. O papel dos mediadores que, em 1054 (por ocasião do cisma do Oriente), ou em 1517, por ocasião da rutura com Lutero e a Reforma protestante, conduziram o processo de ‘(des)encontro’ entre Roma e os ‘divergentes’ pode ter sido mais determinante do que as próprias matérias em discussão e em ‘litígio’.
Uma leitura disponível e conciliadora deverá recordar, no prisma católico, que muito se aprendeu com Lutero no que respeita ao reconhecimento do ‘sacerdócio comum dos fiéis’, ou no acesso à Palavra de Deus com a respetiva tradução em vernáculo (percurso lento e de séculos), na assunção e recordação permanente de que só por Cristo se opera a salvação, contra o risco de que o culto dos santos de Maria descentre do núcleo ou, ainda, no que respeita ao reconhecimento de que todos os méritos humanos decorrem da ação de Cristo e que a graça não se nos impõe contra a nossa vontade, carecendo, sempre do envolvimento do sujeito humano num processo que é, contudo, dom gratuito de Deus, muito para além de todos os méritos humanos.
O que aprendemos, com o protestantismo, carece, para que se efetive o caminho em comum, do reconhecimento de que o pensamento católico não é a ‘caricatura’ com que frequentemente foi lido. Não adoramos os santos; não adoramos a Virgem Maria; não adoramos imagens, em atitude idolátrica; não absolutizamos a ‘tradição’; não absolutizamos os méritos humanos e não compramos a nossa salvação…
O caminho em comum faz-se ouvindo o outro.
Assim também com a ortodoxia.
Cabe-nos, a nós, católicos, reconhecer quanto aprendemos com os irmãos ortodoxos e com as igrejas do oriente cristão, de língua grega.
Dali nos vêm, aliás, os primeiros símbolos (credos) e todos os concílios do primeiro milénio, sendo curioso registar que o modo de concretizar a comunhão era, nesse contexto, inspirador para o caminho que se nos pede, hoje. Valerá, a título ilustrativo, recordar que o primeiro grande concílio da história, de que se comemoraram, em 2025, os 1700 anos, não foi presidido pelo Papa, Bispo de Roma, que, aliás, ali se fizera apenas representar por dois presbíteros, assumindo as decisões ali definidas, em comunhão sinodal (‘em caminho conjunto’). O dinamismo sinodal era prática que a história documenta e que a Igreja Ortodoxa continua a preservar. O desafio, hoje retomado, pode ser motivo de ponte. Há muito saber acumulado pela Igreja Ortodoxa que a nós, Católicos, poderá inspirar, assim como o exercício do primado de Pedro, garante da unidade na diversidade, pode ser o contributo recíproco da comunhão católica. Uns e outros muito temos a aprender em comum. Sabendo, como, aliás, também recorda o Vaticano II (Lumen Gentium, n.º8), que a verdade ‘subsiste’ na Igreja Católica, um reconhecimento humilde que a afirmação da Constituição Dogmática em que é proferida não deixa margem para dúvidas: ‘Esta Igreja, constituída e organizada neste mundo como sociedade, subsiste na Igreja Católica, governada pelo sucessor de Pedro e pelos Bispos em união com ele, embora, fora da sua comunidade, se encontrem muitos elementos de santificação e de verdade, os quais, por serem dons pertencentes à Igreja de Cristo, impelem para a unidade católica.’
Afirmar que ‘subsiste’ está já muito longe da ideia de que ‘fora da Igreja não há salvação’… Afirma-se que, indubitavelmente, a verdade está presente, de forma sublime, mas sem excluir que haja, nas outras comunidades, verdade a reconhecer. Porque o Reino não coincide com os limites da Igreja.
Alimento, por tudo isto, o sonho.
O reavivar do sonho
O Papa Leão XIV dá-me motivos para crer que o possa ver realizado ainda durante a minha vida. Muitos foram os sinais que já foi evidenciando, tendo anunciado esperar decidir-se a data comum da Páscoa… Um importante sinal de que este caminho está a fazer-se…
Seria, aliás, interessante e curioso que um Leão restabelecesse a unidade que se perdeu em tempo de pontificados de outros dois Leões. Era Leão IX quem pontificava em 1054, quando se deu o Cisma do Oriente. Era Leão X que pontificava quando se deu a Reforma Protestante.
Bem certo que o caminho com o protestantismo será mais longo… Maior é a distância entre Catolicismo e Protestantismo do que entre Catolicismo e Ortodoxia. Mas, quem sabe como poderão operar-se os insondáveis caminhos do Espírito!?
Não resisto a recordar que este caminho ‘quotidiano’ de aproximação entre confissões cristãs está em curso, em Portugal, sempre que ocorrem aulas de Educação Moral e Religiosa Católica.
Na verdade, é pouco sabido, mas em muitas turmas (muito por efeito, também, da imigração), há alunos de diversas confissões cristãs que se matriculam nesta disciplina. Posso testemunhá-lo…
Em muitas, o ecumenismo é pleno: católicos, ortodoxos e protestantes estão na mesma sala de aula, sabendo-se cristãos de diversas confissões.
E quantas oportunidades de diálogo assim se geram!
Conto o ocorrido, após ter falado sobre o significado das imagens para um católico.
Tomei por exemplo uma folha de papel.
Um papel é, apenas, um papel. Ao papel posso dar uso no contexto de uma cozinha, de um trabalho que imprimo, posso limpar, escrever, pintar, etc., posso, inclusive, servir-me de um papel na casa de banha… Um papel é, apenas, um papel.
Mas, se sobre um papel (um papel igual a tantos papéis) eu decidir imprimir uma foto da minha família, essa nova ‘realidade’ que é a folha de papel com a ‘fotografia’ dos meus já não utilizarei para fins como os de limpar ou cortar. Não porque aquele papel tenha deixado de ser ‘papel e tinta’, mas porque a realidade que ele ali ‘representa’ (torna presente) lhe confere um novo significado, torna-o novo.
Numa aula em que me referi ao que significavam, para nós, católicos, as imagens de Santos, utilizando esta metáfora, uma aluna, de confissão protestante desabafou que a tinha ajudado a ver de um outro modo a veneração com que nos dirigimos às imagens. Elas são meios. Não os fins. Não as idolatramos. Assim como não idolatramos os santos que, por elas, veneramos. Não os adoramos, pois só a Deus é devido o culto de adoração.
Já Umberto Eco lembrava que a ‘construção do inimigo’ se faz caricaturando-o. O inimigo, dizia, nunca é belo, inteligente, merecedor de apreço.
Os irmãos cristãos não são inimigos. São irmãos. Devemos, por isso, sentar-nos à mesa do quotidiano, olhá-los, olhos nos olhos, ouvi-los, partilhar a vida e descobrir que, afinal, há tanto que julgamos sobre o outro que, efetivamente, não é o que ele é ou pensa!
Se nos reunirmos em torno de causas que nos unem – as da justiça, da paz, da defesa da vida e dignidade humanas (posso atestá-lo: nas caminhadas pela vida, muitos cristãos de diversas confissões se reúnem, agregados numa causa comum…), da construção a fraternidade universal, do combate à pobreza, do acolhimento dos que chegam, dos enlutados, dos padecentes, etc… – facilmente constataremos que, dos cristãos, o que espera o mundo é que lhe diga que tem salvação, apesar dos sinais de andar errante e perdido.
E que essa salvação lhe vem d’Aquele que é a Presença maior de Deus, na História: Cristo, que faz, de todos nós, ‘cristãos’. Uns somo-lo, explícita e reconhecidamente; outros sê-lo-ão, como dizia o teólogo católico Karl Rahner, como ‘cristãos anónimos’. Mas que se lhes fale do Cristo que os torna ‘cristãos’.
Entretanto, continuo a sonhar… Talvez, um dia, ainda nesta vida, assista à reconstituição da unidade!