GLOSAS – Espaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente
Tiago Azevedo Ramalho
– «Nulla salus extra scholam» (cont.) –
[Introdução geral: nn.º 1 a 8/ I. Ivan Illich e a Escolarização: nn.º 9 e ss.]
– 32. Educação e alienação. – Um segundo âmbito em que se sentem os efeitos do sistema educativo respeita à autocompreensão da pessoa. Servindo-se de um termo muito caro a uma corrente de pensamento que, ao tempo desta reflexão de Ivan Illich, gozava de grande capacidade de atracção, o sistema de educação é visto como alienatório. Neste mesmo ponto, o sistema escolar é tão só, como já se referiu (n.º 12), uma manifestação mais patente de uma característica genérica das instituições modernas: «Ricos e pobres dependem igualmente de escolas e de hospitais que guiem as suas vidas, formem a sua perspectiva do mundo, e lhes definam o que é legítimo e o que não é.» (Deschooling, p. 2)
Correlato dessa dependência pessoal está o crescimento burocrático institucional. «Alienar» significa tornar alheio o que é próprio. Neste caso, o novo titular passa a ser o aparato burocrático que se serve do sistema escolar para realizar o respectivo projecto de sociedade. Desde esta perspectiva, o sistema escolar é interpretado como um meio de legitimação desse mesmo aparato institucional: «Por toda a parte, o currículo oculto da escolarização inicia o cidadão no mito de que as burocracias guiadas pelo conhecimento científico são eficientes benevolentes. Por todo o lado este mesmo currículo instila no pupilo o mito de que o aumento de produção vai permitir uma melhor vida. E por todo o lado desenvolve o hábito de um consumo autodestrutivo de serviços e de produção alienante, de tolerância em relação à dependência institucional, e reconhecimento de rankings institucionais. O currículo oculto da escola faz tudo isto apesar dos esforços em sentido contrário levados a cabo por professores, não interessa que ideologia prevaleça.» (Deschooling, p. 74)
Vejamos como reconstrói a crítica marxista à alienação pela exploração do trabalho: «Alienação, no quadro tradicional, era uma consequência directa da relação entre trabalho e remuneração que privava a pessoa da oportunidade de criar e de ser recriada. Mas agora os jovens são pré-alienados por escolas que os isolam enquanto pretendem ser, quer produtores, quer consumidores do seu próprio conhecimento, que é concebido como um produto colocado no mercado pela escola. A escola torna a alienação preparatória para a vida, assim privando a educação de realidade e o trabalho de criatividade. A escola prepara para a institucionalização alienadora da vida ao ensinar a necessidade de ser ensinado. Assim que esta lição é aprendida, as pessoas pedem o seu incentivo para crescer em independência; já não acham os mais próximos interessantes, e fecham-se elas próprias às surpresas que a vida oferece quando não são predeterminadas por definição institucional.» (Deschooling, pp. 46-47) O ópio do povo, de efeito alienatório, também já não é a religião, mas a indústria do conhecimento (Deschooling, p. 47).
Onde uma colectividade política adquira tais feições, dificilmente se pode continuar a considerar-se liberal, isto é, estruturada desde e para a garantia e promoção da liberdade dos seus cidadãos. A autonomia cívica é totalmente subordinada à pronúncia de colégios de especialistas, que, em nome de uma nebulosa «ciência» ou daquilo a que chamam «evidências», revelam sob uma mítica forma oracular qual o rumo que se deve imprimir à sociedade:
«A certa altura durante as últimas duas gerações, triunfou na cultura americana um compromisso com a terapia, e os professores passaram a ser vistos como terapeutas de cujos auxílios todas as pessoas precisam se querem gozar da igualdade e da liberdade com as quais, de acordo com a Constituição, nasceram.» (Deschooling, p. 70)
E ainda:
«Se não desafiamos o pressuposto de que o conhecimento que tem valor é um produto que sob certas circunstâncias pode ser imposto ao consumidor, a sociedade será crescentemente dominada por pseudo-escolas sinistras e por managers de informação totalitários. Terapeutas pedagógicos vão drogar cada vez mais os seus pupilos em ordem a ensiná-los melhor, e os estudantes vão drogar-se eles próprios para se aliviarem das pressões dos professores e da corrida aos certificados.» (Deschooling, p. 49)
Mas talvez o efeito mais alienante esteja num diferente plano. Onde o sistema escolar adquira intenções praticamente salvíficas, a exclusão desse mesmo sistema é experimentada como uma verdadeira condenação existencial. É nesse sentido que Ivan Illich afirma: «Então às crianças mais pobres é roubado o seu auto respeito ao subscreverem um credo que garante a salvação apenas através da escola.» (Deschooling, p. 29)
Fruto deste processo de alienação pessoal está a impossibilitação de relações interpessoais. Toda a interacção terá agora de ser mediatizada por estruturas institucionais, que a programam nos termos que entendam mais conveniente: «O ideal contemporâneo é um mundo pan-higiénico: um mundo no qual todos os contactos entre as pessoas, e as pessoas e o seu mundo, são resultado de previsão e manipulação. A escola tornou-se um processo planeado que torna a pessoa um instrumento para um mundo planeado, o principal instrumento para apanhar o homem numa armadilha humana. É suposto moldar cada ser humano num nível adequado para tomar parte neste jogo.» (Deschooling, p. 110) Uma vez introduzida uma tal dinâmica, a tendência será para o seu constante crescimento. Com efeito, «para o tecnocrata, o valor de um determinado ambiente aumenta quão mais contactos entre cada pessoa e o seu meio envolvente podem ser programados.» (Deschooling, p. 70) De facto, quão maior a frequência de contacto maior o número de interacções em que se pode interferir.
No plano antropológico, é agora outra a lógica da confiança humana:
«Subrepticiamente, a confiança em processos institucionais substitui a pendência na boa-vontade pessoal. O mundo perdeu a sua dimensão humana e readquiriu a lógica da necessidade dos factos e a fatalidade que eram características de tempos primitivos. (…) O ser humano tornou-se o brinquedo de cientistas, engenheiros e planeadores.» (Deschooling, p. 111)
Trata-se não mais do que a aplicação, às diferentes esferas da sociedade, do princípio de que «a educação é um processo educacional gerido pelo educador» (Deschooling, p. 70), isto é, de que há-de haver um intermediário institucional que modela e orienta as diferentes relações humanas.
Interessante apontamento, por fim, é a relação entre esta antropologia e o drama contemporâneo do desemprego. «O desemprego é o resultado desta modernização: é a ociosidade de uma pessoa para quem não há nada mais a “produzir” e que não sabe mais que “fazer” – ou seja, como “agir”. O desemprego é o triste ócio de alguém que, ao contrário de Aristóteles, acredita que fazer coisas ou trabalhar é virtuoso, e que a ociosidade é má.» (Deschooling, p.63)