GLOSASEspaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente

Tiago Azevedo Ramalho 

 

Eixos fundamentais de crítica (cont.) –

[Introdução geral: nn.º 1 a 8/ I. Ivan Illich e a Escolarização: nn.º 9 e ss.]

 

– 18. Terceiro eixo fundamental de crítica. Crítica aos meios. –  Objecto de crítica é igualmente o modo (os meios) como se estrutura o sistema de escolarização. Conforme passagem antes citada, assenta o sistema de escolarização na confusão entre substância e processo (cf. o n.º 15). Ou seja, em confundir a aprendizagem, que é um resultado, com o processo de escolarização, que é um meio ou procedimento, e que pode conduzir ou não àquele resultado. Por força da referida identificação, o sistema de escolarização, mais do que formar para a autonomia, contribui para uma situação de dependência, propondo constantemente prestar novos serviços. Deste modo, as «escolas pervertem a inclinação natural para crescer e aprender em procura de instrução» (Deschooling, p. 60), isto é, da constante procura de aquisição de novos serviços educativos.

A isto chama Ivan Illich «ritualização do progresso» (título do cap. 3 de Deschooling). O mundo «escolarizado» conduz a que o valor da escolarização seja medido pelo «número de anos que a pessoa completou e pelo custo das escolas que frequentou» (Deschooling, p. 61).

A confiança não é depositada no saber, mas no consumo: «os reformadores educativos prometem a cada nova geração as últimas novidades e o melhor, e o público é escolarizado para procurar o que oferecem.» (Deschooling, pp. 42-43) Bem a propósito, serve-se Ivan Illich da analogia entre o consumo escolar e a soteriologia, mas entendida de modo radicalmente secular:  «assim como Max Weber traçou os efeitos sociais da crença de que a salvação pertence àqueles que acumulam riqueza, podemos agora observar que a graça é reservada para aqueles que acumulam anos na escola.» (Deschooling, p. 45)


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