GLOSASEspaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente

Tiago Azevedo Ramalho 

 

Eixos fundamentais de crítica (cont.) –

[Introdução geral: nn.º 1 a 8/ I. Ivan Illich e a Escolarização: nn.º 9 e ss.]

 

– 17. Segundo eixo fundamental de crítica. A crítica à presunção. – Um segundo eixo de crítica ao sistema escolar tem em vista o estreitamento de horizontes que nele se dá, a ponto de quantos nele participam presumirem o monopólio do conhecimento, pelo simples facto de o haverem frequentado. Tal cria uma solidariedade de classe, mas também um esquema de partição do mundo entre diferentes níveis de cultura.

Quanto ao primeiro ponto, relativo à solidariedade de classe, nota Illich que «a solidariedade de todos os cidadãos baseada na sua graduação comum pela escola tem sido uma parte inalienável da sua auto-imagem moderna do Ocidente.» (The Futility of Schooling in Awareness, p. 109) E ainda: «com raras excepções, um graduado universitário de um país pobres sente-se mais confortável com os seus colegas norte-americanos e europeus do que com os seus compatriotas não escolarizados, e todos os estudantes são academicamente processados para serem felizes apenas na companhia de colegas consumidores dos produtos da máquina educacional.» (Deschooling, p. 35)

Quanto ao segundo, que a lógica subjacente ao sistema de escolarização «gradua as nações de mundo de acordo com um sistema internacional de castas» (Deschooling, p. 9).

Há uma relação de proporcionalidade inversa entre o número daqueles que obtém certa quantidade de formação e o prestígio (ou a presunção) associada ao exercício da sua actividade. Assim, quando um número especialmente amplo de pessoas já consumiu os primeiros graus de ensino, apenas os níveis superiores servem de elemento diferenciador. Quando, pelo contrário, sejam poucos aqueles que dominam um certo nível de ensino, a diferenciação será significativamente maior: «quão menos graduados universitários há num país, mais as suas pretensões cultivadas são tomadas por modelos para o resto da população.» (Deschooling, p. 35) Resultado da referida presunção é a pretensão, dela decorrente, de a todos se pretender educar: «A escolha funde a humilhante dependência crescente de um mestre com o fútil sentido de omnipotência que é tão típico do pupilo que quer sair da escola e ensinar todas as nações a salvarem-se elas próprias.» (Deschooling, p. 45)

Mas, no entender de Illich, é mesmo de presunção que se trata. Ou seja, de um forte contraste entre a largueza das pretensões e a estreiteza das realizações. O exemplo escolhido para o ilustrar chega a ser de dolorosa pertinência: «as escolas, quando são compulsórias – como vemos neste momento nos Estados Unidos – criam uma população atordoada, uma população “instruída”, uma população mentalmente pretensiosa, como nunca antes vimos. Os últimos cinquenta anos de desenvolvimento intensivo da escola – aqui, ou na Alemanha, ou em França – criou consumidores de televisão.» (Conversation, pp. 68-69)


Foto: https://www.manhattan-institute.org/the-genius-of-ivan-illich