GLOSASEspaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente

Glosas a Brève apologie pour un moment catholique

– Laïcité ou séparation –

(pp. 48-82)

(Cont.)

 [Primeiro texto: aqui.]

Tiago Azevedo Ramalho

 

– 19. Questões de competência. – Mas quem poderá auxiliar as recém-chegadas comunidades muçulmanas a encontrar um modus vivendi compatível com o regime da separação? Aqui divisa Marion mais uma oportunidade para um moment catholique – e para, a um só tempo, a igual denúncia da possível presunção do poder político em pretender promover uma aculturação sem dispor dos instrumentos para o efeito.

Para um moment catholique: justamente a experiência católica de perfeita integração num sistema de separação, até por lhe oferecer os respectivos pressupostos teológicos, pode habilitá-la no auxílio ao enfrentamento daquelas que são as questões centrais para uma efectiva inserção de uma comunidade crente no espaço público:

«(…) a crítica histórico-filológica dos textos santos, as regras de interpretação e os espaços de pluralismo, a natureza da autoridade espiritual e do poder político, a organização das comunidades crentes e das suas relações, caso divirjam entre elas (como ocorre entre sunitas e xiitas, etc.), a significação da diferença “sexual”, a relação com o estrangeiro, o não crente, o “infiel”, enfim (e decerto em primeiro lugar), a separação entre as instâncias religiosa e política» (p. 69).

Quer dizer, apenas por intermédio de quem se defronta com problemas análogos – apenas num diálogo inter-religioso (entendido seriamente, e não, como usualmente, para “mascarar discussões sem empenhamentos reais fatigados pelas suas identidades fluidas” – p. 70) pode haver uma real integração. Sem que, porém, se possa ter expectativas muito elevadas:

«Não sonhemos excessivamente com este instante de graça, porque nada custa mais aos responsáveis políticos do que renunciar a ideias simples.» (p. 72)

Após este primeiro momento de identificação da oportunidade de um moment catholique, segue-se, muito justamente, a crítica ao poder político – desde logo no modo como supõe saber ler e enquadrar o dito fenómeno religioso:

«Mas, como o poder político se sente (e a justo título) falível, atenua a sua postura marcial ao generalizar ao extremo o seu exercício: para não ter por alvo o adversário (potencial, quando não real) mais evidente, o islão, não apenas nunca o nomeia e metaforiza-o em “barbárie”, “terrorismo cego” e noutro “terrorismo anónimo”, como igualmente se vinga em grupos que não apresentam nenhum perigo aproximado, os últimos a quererem reagir (e, neste sentido, os cidadãos menos reaccionários que podemos conceber), os católicos.» (p. 72)

Um pretenso combate laicista dirigir-se-ia, pois, contra uma religião entendida no singular de que todas as demais seriam apenas declinações. Ocorre que um tal conceito comum de religião – o das «ciências das religiões» – não resiste a qualquer atenção de maior pormenor que se deva às religiões, no plural, historicamente existentes, que não se deixam reduzir a um denominador comum (pp. 74-78). A conclusão:

«A “laicidade” não sabe o que pretende, nem o que diz, pois pretende tirar de si própria aquilo que ao mesmo tempo recusa em virtude do seu cientismo, uma vez que tenta envolver um domínio ao qual negou toda a realidade e à qual ela própria o acesso (…). Quando procura conquistar um sentido positivo (quer dizer, polémico, contra as “religiões”, e sobretudo contra o catolicismo), enreda-se em dogmas, mas em dogmas que não quer nem pode estabelecer, e a que dá um nome que não tem sentido positivo, valores. Assim, a querer enunciar aquilo que não pode pensar, corre o risco de se tornar totalitária» (p. 78).

(Continua.)

 


Imagem de bouassa por Pixabay