Temas para debate | Reflexões que ajudam a ler os tempos…
Rosa Lopes*
Vivemos um tempo em que as perguntas adquirem um novo sentido e importância, talvez mais verdadeiro do que as respostas rápidas ou as explicações fechadas. Também, na nossa vida de fé já não é possível partir de certezas simples sobre aquilo que os jovens acreditam, aquilo que vivem ou que procuram. Entre a pertença e a distância, entre a tradição recebida e a experiência pessoal, a fé juvenil aparece hoje como um lugar de tensão, de procura e de reinvenção.
É neste horizonte que partilho esta reflexão pessoal, nascida do estudo e da experiência, com o desejo de ler o mundo a partir de uma sensibilidade cristã em diálogo com a cultura contemporânea. Abre-se aqui um espaço de reflexão onde a fé se confronta com a vida concreta, nas suas contradições, inquietações e possibilidades. Não pretendo formular diagnósticos definitivos, mas antes escutar os “sinais” do tempo, discernir percursos e permitir que a própria realidade se torne lugar de interpelação para a Igreja.
Na continuidade de um percurso de 25 anos como Catequista e no acompanhamento regular de grupos de jovens em contexto paroquial, a questão que orienta esta reflexão — Hoje, os jovens têm ou não têm fé? — não procura uma resposta fechada. Procura, antes, abrir caminhos de discernimento. Porque, talvez a questão mais profunda não seja apenas saber se há ou não fé, mas a de compreender a forma como ela se expressa, se transforma e, por vezes, se reorganiza em linguagens novas, menos institucionalizadas, mais fragmentadas, mas nem por isso menos densas do ponto de vista existencial.
A reflexão sobre a religiosidade juvenil contemporânea, à luz de um estudo sobre os grupos de jovens católicos no norte de Portugal[1], remete-nos para uma questão de fundo que ultrapassa a mera análise sociológica: a transformação da forma como a fé é subjetivada, mediada e eclesialmente incorporada na contemporaneidade.
O que se observa não é simplesmente um fenómeno de secularização linear, mas antes um processo complexo de recomposição do religioso, no qual a pertença eclesial se reconfigura sob modalidades fragmentadas, seletivas e altamente reflexivas. A fé deixa de se apresentar como um habitus social herdado para emergir como um itinerário existencial em permanente discernimento.
Como compreender, então, hoje, a pertença eclesial enquanto realidade em tensão?
Os nossos grupos de jovens constituem um espaço eclesial de particular densidade teológica e pastoral, pois, funcionam simultaneamente como lugares de iniciação cristã, de mediação comunitária e de experiência identitária da fé.
Contudo, uma análise empírica mostra uma crescente tensão estrutural entre a participação comunitária e a “adesão normativa”. A presença ativa nas atividades e dinâmicas eclesiais não corresponde necessariamente à sua integração estável na praxis sacramental e na configuração doutrinal da fé católica. Pelo contrário, observa-se uma pluralização interna das formas de crença, frequentemente acompanhada por processos de recomposição simbólica que integram elementos de espiritualidades diversas.
Neste sentido, poderíamos falar de uma forma contemporânea de “catolicidade porosa”, na qual a pertença não é negada mas reconfigurada ao nível da intensidade, seletividade e fluidez.
Como compreender, então, hoje, a “bricolage religiosa” [2] e a subjetivação da fé?
Parece-nos, à primeira vista, uma expressão estranha esta de “bricolage religiosa”, mas o professor e sociólogo Thomas Luckmann ajuda-nos a perceber algo muito concreto e real: na modernidade, o religioso já não se organiza apenas a partir de estruturas institucionais estáveis mas tende a ser apropriado de forma mais pessoal, mais seletiva e, muitas vezes, mesmo fragmentada.
Numa leitura teológico-pastoral, importa sublinharmos que este processo não deve ser entendido apenas como uma perda ou enfraquecimento da ortodoxia. Pode ser lido também como sinal de uma subjetivação mais profunda da fé, na qual acreditar deixa de ser apenas uma adesão exterior a um conjunto de regras, passando a ser algo que necessita de ser interiormente assumido e integrado na própria história de vida.
A questão desloca-se, assim, de uma simples conformidade com um conteúdo doutrinal para a forma como a fé é apropriada, reinterpretada e vivida na experiência concreta de cada um.
Ainda assim, esta subjetivação levanta uma questão eclesiológica que não podemos evitar: como articular a liberdade do sujeito crente com a mediação objetiva da fé transmitida e celebrada pela Igreja?
Que frutos deixou, então, a JMJ 2023 na compreensão da fé juvenil contemporânea?
Neste horizonte interpretativo, a Jornada Mundial da Juventude de 2023, realizada em Lisboa, pode ser compreendida como um acontecimento eclesiológico de elevada relevância teológico-pastoral.
Para além da dimensão celebrativa e comunicacional, a JMJ constituiu um espaço de constatação da diversidade das formas contemporâneas de experiência da fé juvenil. Um dos seus frutos mais significativos reside na capacidade de reativar dinâmicas de pertença eclesial em sujeitos previamente distanciados das práticas regulares da vida da Igreja, promovendo processos de reintegração progressiva nas comunidades locais.
Tive oportunidade de participar diretamente neste acontecimento, não enquanto jovem, mas enquanto responsável de um grupo de jovens, o que me permitiu uma leitura particularmente mais próxima e concreta destes processos. Esta experiência confirma, de forma muito viva, a complexidade e ao mesmo tempo a vitalidade das formas atuais de adesão e de vivência da fé, tal como aqui se procura refletir.
Todavia, a receção da JMJ não elimina a tensão constitutiva da religiosidade juvenil contemporânea. Pelo contrário, torna-a mais visível, pois é visível a coexistência de intensidades espirituais elevadas com percursos ainda não estabilizados de integração eclesial, revelando uma fé em estado de itinerância.
Desta forma, e do ponto de vista teológico, este fenómeno pode ser interpretado como sinal de uma eclesiologia em movimento, na qual a Igreja se apresenta menos como uma estrutura estabilizada de pertença e mais como um espaço de acolhimento e de discernimento.
Quais, então, as implicações para a teologia pastoral e para a educação na fé?
A partir desta configuração, a teologia pastoral é convocada a repensar as categorias clássicas de iniciação cristã, pertença e maturidade na fé. A linearidade normativa cede lugar a uma lógica processual, na qual o acompanhamento espiritual e formativo é central.
No âmbito da educação da fé, particularmente na disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica e Catequese, esta realidade exige uma deslocação metodológica e epistemológica, pois, o modelo predominantemente transmissivo revela-se insuficiente perante sujeitos marcados por uma identidade religiosa reflexiva e fragmentada.
A centralidade passa a residir numa pedagogia do discernimento, entendida não como mera adaptação ao contexto, mas como uma mediação crítica entre a tradição e a experiência, entre a objetividade da fé e a subjetividade da sua apropriação. Contudo, esta abertura não pode ser confundida com relativização. O desafio teológico consiste precisamente em sustentar a densidade cristológica da fé num contexto de pluralização simbólica evitando tanto o reducionismo normativo como a dissolução experiencial do conteúdo da fé.
A fé é o lugar teológico de discernimento eclesial
A experiência religiosa juvenil contemporânea deve, então, ser compreendida como um locus theologicus privilegiado para o discernimento da Igreja no mundo atual. Não se trata apenas de um fenómeno a interpretar a partir das diferentes categorias sociológicas ou pastorais mas de um espaço vivo onde a própria Igreja é chamada a repensar as formas da sua presença histórica, da sua linguagem e dos seus modos de mediação da fé.
A fé juvenil emerge, assim, não como um problema a resolver nem como uma realidade em declínio inevitável mas como um espaço teológico onde se torna visível a tensão constitutiva entre a tradição e a liberdade, a instituição e o carisma, a objetividade da fé e a subjetividade do crente. E, é precisamente nesta tensão, muitas vezes difícil de habitar, que jogamos a possibilidade de uma compreensão mais autêntica da experiência cristã no presente.
A questão decisiva, por isso, não reside apenas na forma como os jovens vivem ou não vivem a fé, mas na forma como a Igreja, enquanto comunidade de discernimento, é capaz de reconhecer nesta vivência um lugar legítimo de interpelação teológica. Ou seja, não apenas como destinatários da pastoral, mas como sujeitos que interpelam a própria forma como a fé é pensada, é transmitida e é celebrada.
Neste horizonte, a pergunta que orienta esta reflexão — Hoje, os jovens têm ou não têm fé? — revela-se intencionalmente aberta. Não dá nem procura respostas fechadas ou conclusivas, mas antes, propõe abertura a caminhos de discernimento. Porque, talvez a questão mais profunda não seja simplesmente saber se há ou não fé, mas compreender de que forma ela se expressa, se transforma e, por vezes, se reorganiza nas novas linguagens eminentes, menos institucionalizadas, mais fragmentadas, mas nem por isso menos densas do ponto de vista existencial.
Entre a continuidade e a rutura, a pertença e a distância, a certeza e a procura, a fé juvenil contemporânea não desaparece, ela desloca-se, reconfigura-se e, neste movimento, desafia a Igreja a voltar a escutar o modo como Deus continua a falar também através das novas gerações.
[1] Cardoso, C.M., T. Medina e S. M. Silva, “Grupos de Jovens Católicos: um estudo sobre identidades vivências e práticas religiosas no norte de Portugal”, REVER, vol. 22, nº 1 (2022), p. 22-111.
[2] Conceito central na sociologia da religião associado a Thomas Luckmann que descreve o processo pelo qual os indivíduos, na modernidade, constroem as suas crenças e práticas espirituais, combinando elementos provenientes de diferentes tradições religiosas e culturais.
*Arquiteta – OA nº 21505 – CCP nº F660345/2017