Aveiro e a História

Escritor Júlio Dinis em Aveiro e na Gafanha da Nazaré

Cardoso Ferreira (textos)

Parceria com o Correio do Vouga

Em setembro de 1864, o escritor Júlio Dinis, cujo nome real era Joaquim Guilherme Gomes Coelho, passou alguns dias na cidade de Aveiro, alojado na casa de um primo situada na atual Rua Gustavo Ferreira Pinto Basto, altura em que também visitou a Gafanha da Nazaré.

Foto da casa de José Estêvão na revista “Aveiro e o seu Distrito”, publicação semestral da Junta Distrital, n.º 21, de 1976, e aspeto da rua na atualidade.

A deslocação à cidade de Aveiro ocorreu durante a estadia do escritor em Ovar, terra natal do pai e onde a partir de finais de abril de 1863, se hospedou em casa de familiares, casa essa que hoje é a Casa-Museu Júlio Dinis.

Praticamente desde que chegou a Ovar, o escritor manifestou a intenção de se deslocar a Aveiro. Numa carta escrita de Ovar, em 11 de maio de 1863, dizia que “conto por toda a semana que vem partir para Aveiro”. No entanto, pelos mais diversos motivos, essa viagem foi sendo adiada.

Em carta datada de 3 de julho de 1863, o escritor referia alguns desses motivos, ao escrever “em primeiro lugar, desde que principiei a sentir que robustecia em Ovar, fui adiando a minha partida, intimidado pelas descrições tétricas que os facultativos daqui me faziam de Aveiro; em segundo lugar, concorreram cartas de família em que se me pedia que me demorasse até que se pusesse em exploração o caminho de ferro, para me visitarem; em terceiro, a saída de Aveiro de um primo em casa de quem tinha de me hospedar, porque na ausência dele seria eu obrigado a aceitar a hospitalidade da família, que conheço pouco ou nada e, por isso, a viver pouco à vontade, condição indispensável para eu viver bem”.

A oportunidade para se deslocar a Aveiro ocorreu em setembro do ano seguinte, conforme carta que Júlio Dinis escreveu a Custódio Passos, datada de 28 de setembro de 1864: “Escrevo-te de Aveiro. São 7 horas da manhã do histórico dia de S, Miguel  (…) Aveiro causou-me uma impressão agradável ao sair da estação; menos agradável ao internar-me no coração da cidade, horrível vendo chover a cântaros na manhã de ontem, e imensas nuvens cor de chumbo a amontoarem-se sobre a minha cabeça; mas, sobretudo intensamente aprazível, quando, depois de estiar, subi pela margem do rio e atravessei a ponte da Gafanha para visitar uma elegante propriedade rural que o primo, em casa de quem estou hospedado, teve o bom gosto de edificar ali. − Imaginei-me transportado à Holanda, onde, como sabes, nunca fui, mas que suponho deve ser assim uma coisa nos sítios em que for bela. Proponho-me visitar hoje os túmulos de Santa Joana e o de José Estêvão, duas peregrinações que eu não podia deixar de fazer desde que vim aqui”.

A casa do primo

A casa onde Júlio Dinis se alojou será o prédio que ainda hoje existe na esquina da Rua Gustavo Ferreira Pinto Basto com a Rua 31 de Janeiro. Na referida carta, o escritor referia “a casa em que moro fica fronteira à que pertenceu ao José Estêvão. Há ainda, vestígios das obras que ele projetava fazer-lhe e que, por sua morte, ficaram incompletas”.

José Estevão era proprietário de uma casa situada na esquina da Rua Gustavo Ferreira Pinto Basto com a Rua Luís Cipriano (pai desse parlamentar aveirense), do lado oposto da residência do primo de Júlio Dinis. Luís Cipriano Coelho de Magalhães faleceu no dia 17 de março de 1857, precisamente nessa habitação.

Esse facto é corroborado pela seguinte passagem do livro José Estevão – Discursos Parlamentares: “Poucos dias depois da morte do pai, defendia ele, no tribunal de Aveiro, alguns dos seus amigos políticos, processados por motivos eleitorais. Do salão do tribunal via-se, na casa fronteira, apenas separada por uma estreita travessa, a janela do quarto onde o santo velho falecera. Num momento, evocou, não sei a propósito de quê, a sua memória. Os olhos voltaram-se repentinamente para a janela e cobriram-se, encheram-se de lágrimas. «Se ele fosse vivo – exclamou soluçando -, podia ouvir-me dali». Numa comoção profunda, todo o tribunal chorou”.

Júlio Dinis

Joaquim Guilherme Gomes Coelho, mais conhecido pelo pseudónimo Júlio Dinis, nasceu no Porto, a 14 de novembro de 1839, e faleceu nessa mesma cidade, no dia 12 de setembro de 1871.

Era filho de José Joaquim Gomes Coelho, natural de Ovar e médico-cirurgião pela Escola Médico-Cirúrgica do Porto, e de Ana Constança Potter Pereira, natural do Porto, mas com ascendência britânica.

Formou-se em medicina na Escola Médico-Cirúrgica do Porto no ano de 1861.

Utilizou pela primeira vez o pseudónimo Júlio Dinis em 1860.

Morreu sem ter completado 32 anos, mas deixou uma notável obra literária, que inclui títulos como “As Pupilas do Senhor Reitor”, “A Morgadinha dos Canaviais” e “Uma família inglesa”