Sáb. Nov 27th, 2021
‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

TRADUTORA DE SÃO TOMÁS DE AQUINO

Javier Sancho*

 

a) Conhecendo a São Tomás

A partir da sua entrada na Igreja Católica Edite preocupou-se constantemente por conhecer a aprofundar a rica tradição do catolicismo. Por diferentes motivos, fizeram-na dirigir o olhar muito cedo para São Tomás. Não podemos esquecer que o seu lar desde 1923 até 1931 foi o colégio das Dominicanas de Santa Madalena, as quais, entre os seus santos, veneram especialmente o Aquinate.

Depois de liberta das traduções dos escritos de Newmann, começará, a partir de 1925, a estudar seriamente os textos de São Tomás. E estuda precisamente as Questiones Disputatae de Veritate. A ideia surge de um encontro com Przywara. Os dois constatam uma necessidade urgente: confrontar a filosofia tradicional católica com a filosofia moderna. Numa das suas cartas a Ingarden (8 de Agosto de 1925) refere-se a isto e antecipa já qual pode ser o resultado: «E do que resulte disso, ainda não o posso prever: se uma tradução (ainda não existe nenhuma) com notas, ou um ensaio sobre a teologia tomista do conhecimento e metodologia, contemplado em si mesmo ou em comparação com a fenomenologia ou algo pelo estilo» (Ct 746).

É certo que na medida em que Edite mergulha no conhecimento de Tomás, cujo primeiro fruto será o artigo de homenagem a Husserl (A fenomenologia de Husserl e a filosofia de São Tomás de Aquino. Para um confronto), mais se ia convencendo da necessidade de uma tradução da principal obra filosófica do Doutor Angélico. Se a pretensão era favorecer um diálogo frutuoso entre a filosofia católica e a filosofia moderna, era necessário prover o público dos materiais necessários. Será São Tomás que levará novamente Edite a retomar o trabalho científico a sério, como «um trabalho apostólico» (cf. Ct 809).

 

b) Perfilando o trabalho

Pelo epistolário podemos seguir a evolução da leitura que Edite vai fazendo de São Tomás. Na medida em que penetra na obra, embora ao início o faça apenas em tempos livres, vai tomando posição sobre o trabalho que pode realizar. A 9 de Outubro de 1926 esclarece a Ingarden que começou a traduzir a parte da obra referente à teoria do conhecimento. O seu objectivo é esclarecer as noções fundamentais, embora não esteja totalmente decidida a isso (cf. Ct 770).

Doravante continuará a traduzir, embora sempre limitada pelo tempo das aulas e das conferências que começam a ser frequentes a partir de 1928. Apesar disso, em Outubro de 1928 já está a corrigir uma parte (cf. Ct 814). Acredita que em 1929 se possa publicar uma parte (Ib. 815). Em Fevereiro de 1929 tem já concluída toda a tradução e ocupa-se da revisão geral do texto e de resolver as dúvidas com o apoio de outros especialistas (cf. ib. 821). No entanto, nos meses seguintes encontra dificuldade para avançar com o trabalho, embora já o tenha concluído antes do final do ano (ib. 839). Surge, então, o problema da edição, uma vez que o resultado é um volume excessivamente grosso. A editorial Herder recuou e teve que levá-lo ao seu editor de Breslau, Otto Borgmeyer (ib. 840-841), que, por fim, publicará o texto em dois volumes.

 

c) Questiones Disputatae de Veritate

Ela própria nos diz o sentido que dá à sua tradução: «No meu trabalho sobre São Tomás não encontrará muito de meu; quero que seja ele mesmo a fazer uso da palavra, e só no fim de cada investigação faço um breve resumo sem tomar posição crítica» (Carta a Ingarden 13 – 5- 1928, 812).

Mesmo que não se trate de uma elaboração do pensamento de São Tomás, o trabalho realizado por Edite implica um esforço muito maior. Não é uma mera tradução, mas inclui uma adaptação ao estilo moderno de discussão. Implicará que a tradutora preste muita atenção a todas as questões para poder reproduzir fielmente o pensamento de São Tomás. Apesar disso, o tempo de espera da publicação será maior do que o trabalho de tradução em si.

No geral, a obra foi bem acolhida. Grabmann, um dos principais filósofos cristãos alemães da época, escreveu a apresentação da obra. Os dois volumes do texto foram publicados em 1931-1932: Des heiligen Thomas von Aquino Untersuchungen über die Wahrdheit, (“Questiones de Veritate de São Tomás de Aquino”) Bd. 1-2. Mit einer Einleitung von Msgr. Grabmann und einem lateinich-deutschen Wörterverzeichnis. Otto Borgmeyer, Breslau vol. 1, 1931, vol. 2. 1932.

Mais tarde, Edite preparará outro volume complementar à obra. Trata-se de um índice e vocabulário de termos para facilitar a compreensão dos termos próprios da filosofia tomista. Conclui e acaba de corrigir este volume estando já no Carmelo: Lateinisch-Deutsch Wörterverzeichnis 1934.

A obra será publicada posteriormente e novamente em dois volumes 3 e 4 de ESW: Des hl. Thomas von Aquino Untersuchungen über die Wahrheit. I. Teil: Questio 1-13 (1952); ESW 4: Des hl. Thomas von Aquino Untersuchungen über die Wahrheit. II. Teil: Questio 14-29 (1955).

 

d) De Ente et Essentia

Com a tradução do De Veritate, Edite tinha apenas começado a aproximar-se de São Tomás de Aquino. A sua obra, Acto e Potência será a primeira grande tentativa de estabelecer o diálogo entre Tomás e a Fenomenologia. Isto será ampliado e retomado na sua obra Ser finito e ser eterno.

É certo que esta não é a única tradução que fez dos escritos de São Tomás. Entre os manuscritos conservados no Arquivo do Carmelo de Colónia encontramos também traduzida a obra filosófica mais conhecida de São Tomás: De ente et essentia.

Embora não tenhamos dados que nos confirmem com exactidão a data de dita tradução, o mias provável seria por volta de 1934, depois de ter recebido licença dos seus superiores para continuar adiante com a sua obra filosófica. É possível que a necessidade de continuar a aprofundar mais na doutrina tomista, a levou a traduzir este escrito fundamental na compreensão da filosofia tomista. Mais tarde fará o mesmo ao ter que realizar um trabalho sobre o Areopagita.


Javier Sancho. 100 Fichas sobre Edith Stein. Edições Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 114-115.

 

Imagem de Dorothée QUENNESSON por Pixabay