Sáb. Nov 27th, 2021

Pe. Georgino Rocha 

É apelo, que se faz convite e exortação, dirigido por Jesus aos discípulos, ao terminar o ensinamento sobre as bem-aventuranças. E a justificação vem logo a seguir: “Porque é grande, nos Céus, a vossa recompensa”.Mt 5, 1-12.

Os discípulos são aconselhados a viverem, na alegria exultante, as situações de difamação e insulto, de perseguição e enxovalho à sua dignidade; situações criadas “por minha causa”, por serem coerentes com as atitudes de Jesus, o divino Mestre; atentados provocados por quem não tolera mais o seu estilo de vida, o seu testemunho.

O quadro de referências está traçado, os termos são claros, é grande a provocação e maior o desafio. A novidade da proposta de realização feliz, de toda a pessoa, vai ser solenemente anunciada. No cimo da montanha, como outrora Moisés no Sinai, Jesus declara honoráveis os pobres, por decisão própria, os espoliados injustamente do seu nome e dos seus bens, os generosos voluntários da paz, os perseguidos por defenderam a justiça. A honorabilidade provém de Deus porque estas atitudes reflectem e concretizam as suas preferências e o seu agir, continuam, na história, o estilo de vida do seu Filho Jesus e vão-se configurando, no proceder de cada discípulo e de cada comunidade cristã.

“O que torna feliz uma existência, afirma o Irmão Roger, fundador da comunidade de Taizé, é avançar para a simplicidade: a simplicidade do nosso coração e da nossa vida. Para que uma vida seja feliz, não é indispensável ter capacidades extraordinárias ou grandes possibilidades: o dom humilde da própria pessoa torna-a feliz”.

A riqueza do homem é a sua pessoa e não o seu dinheiro. Optar por tudo o que ajude a pessoa a ser livre, a sentir-se sem quaisquer amarras, a estar disponível para partilhar o que tem, a não acumular e reter bens apenas para si, torna-se indispensável à saúde da nossa comum humanidade e à qualidade da nossa fé cristã. Quem o faz ou se esforça com seriedade, por o ir fazendo, está em sintonia com Deus, é feliz e beneficia da sua bênção. Choca, inevitavelmente, com uma sociedade baseada na ambição da riqueza, na ânsia do poder e da glória. E vê recaírem sobre si as mais diversas formas de descrédito, de humilhação, de espoliação, de acusação infame, de morte silenciada.

Quem a estas desonras responde com mansidão e pureza de intenções, de paciência sofrida e desejo sincero de justiça, de misericórdia benevolente, manifesta o proceder de Deus e “corre o véu” que tantas vezes oculta a sua presença entre nós e abre caminho à comunhão definitiva com Ele e com todos os que n’Ele se encontram. Participa, deste modo, na comunhão dos santos! Vive já uma nova realidade que no futuro contemplará em plenitude. “É uma multidão imensa, que ninguém pode contar de todas as nações, povos, tribos e línguas, confessa São João no Apocalipse. “São os que vieram da grande tribulação, os que lavaram as túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro”. São os santos de “ao pé da porta”: pais que criam os seus filhos com tanto amor, homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, doentes, consagradas idosas que continuam a sorrir, exemplifica o. Papa Francisco.

Aspirar à santidade e ser santo, faz parte da realização plena da natureza humana, é fruto do amor de Deus por nós e do esforço de cada um e de todos para correspondermos a este amor enternecido que se humaniza de modos tão próximos e interpelantes.

“Por fim, escreve o Papa Francisco na homilia deste dia, gostaria de citar mais uma bem-aventurança, que não se encontra no Evangelho (deste domingo), mas na conclusão da Bíblia, e fala do final da vida: «Felizes os mortos que morrem no Senhor» (Ap 14, 13). Amanhã seremos chamados a acompanhar com a oração os nossos defuntos, para que rejubilem para sempre no Senhor. Recordemos com gratidão os nossos queridos e oremos por eles”.


Imagem: Interior da cúpula, com fresco de Giorgio Vasari [1511-1574] e Federico Zuccari [ca. 1542-1609] representando o Juízo Final