Sáb. Nov 27th, 2021

Oratório Peregrino

Um oratório à maneira de um viático para tempos de carestia
Uma proposta desenvolvida em parceria com

Irmãs do Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro


XXXII Passo | «Como imitar, no céu da minha alma, esta ocupação dos bem-aventurados no Céu da glória?».

 

E hoje encontraremos, talvez ainda mais acentuados, dois aspectos do seu desejo de ser louvor de glória: a sua continuidade («dia e noite sem repouso», «incessante», por duas vezes, «ininterrupto», um «Sanctus» perpétuo) e a sua intensa pureza. Por isso, Isabel insiste uma vez mais na transformação de si mesma em Deus: orar supõe «sair de si mesma» e «transformar-se no Outro». Para o fazer «dignamente», com a perfeição que Deus merece e que Isabel anseia, requer-se uma plena atenção amorosa: «perder-se de vista a si mesmo» a fim de contemplar a Deus com uma «limpidez de olhar».

É certo que a nossa debilidade é um facto. Alguém da altura de Isabel da Trindade dá-se conta da sua «incapacidade» (NI 15), e nós experimentaremos ainda mais do que ela as fraquezas e as quedas de que nos falará mais à frente (UR 31). Ela sabe que nem sempre o nosso louvor poderá ser «consciente, pois a debilidade da natureza não lhe permite ter o olhar fixo em Deus sem se distrair», mas a alma que está já transformada e por assim dizer «totalmente convertida em louvor e amor e apaixonada pela glória do nosso Deus» vive em tudo o que faz «sob a acção de Deus que realiza tudo nela» (CF 44).

Hoje Isabel retoma o tema. «O Espírito» do «Pai» pode «robustecer» a nossa natureza limitada, mas se a entregamos inteiramente, de forma que «Cristo habite em nós» e assim possamos viver «enraizados e fundamentados no amor».

A imagem das raízes profundas (as boas, as do «eu» bom!), tenazes, consistentes, estendidas, parece agradar muito a Isabel. Quando há um grande amor e uma grande fé, «a alma penetra e vive nessas profundidades de Deus»: dali tira, pelas raízes do amor e da fé, a seiva divina, a qualidade teologal dos seus actos. Ao estar inspirada e dirigida pela fé e pelo amor, «tudo nela rende homenagem ao Deus três vezes santo», quer seja consciente de o fazer (como tanto o deseja Isabel, uma vez que o acto consciente é ainda mais digno de Deus), quer não tenha consciência disso. Nessas condições, as raízes vão-se aprofundando cada vez mais: «Essa alma “enraíza-se” mais profundamente no seu Amado em todos e cada um dos seus sentimentos e aspirações, e por meio de todos e cada um dos seus actos, por mais vulgares que sejam».

Já vemos como nessa alma vida e oração vão juntas. E o campo que as une é o amor. «Unamo-nos para fazer dos nossos dias uma comunhão contínua – escreve à sua jovem amiga Germana de Gemeaux –. De manhã despertemos no Amor, durante todo o dia entreguemo-nos ao Amor, quer dizer, fazendo a vontade de Deus, sob o seu olhar, com Ele, n’Ele, só para Ele. Dêmo-nos em todo o tempo sob a forma que Ele quer. (…) Por fim, quando vier a noite, depois de um diálogo de amor que não cessou no nosso coração, adormeçamos ainda no Amor» (Ct 172).

Ao fazer a profissão religiosa, Isabel exprimiu o desejo de que «isso fosse o começo de um acto de adoração que nunca cesse jamais na minha alma…» (Ct 150). Mas Isabel não julgava que essa profundidade na atenção a Deus fosse algo exclusivo da vocação dos contemplativos. Ela tinha vivido já com grande seriedade essa atitude de adoração no mundo, «na cela do seu coração» (D 140). «Mesmo no meio do mundo podemos escutá-Lo no silêncio de um coração que não quer ser senão para Ele» (Ct 38). Ao ir a uma festa, pedia a Jesus: «que estivesse de tal maneira em mim, que o sintam os que se aproximam» de mim (Ct 54). E, de imediato, uma confidência inesperada: «Envio-lhe uma fotografia; enquanto ma tiravam, pensava n’Ele, assim é Ele quem vai na foto» (Ct 62).

Isabel recorda a Guida que «em todas as partes “se pode” encontrar o segredo de crescer no amor, mesmo no meio das relações sociais e no meio das cuidados da vida» (CF 16). Um dia foi convidada para uma festa que não lhe agradava muito, e Guida conta-nos a reacção de sua irmã: «Alegro-me muito de que vás a essa festa, pois pelo menos haverá alguém ali que ame a Deus e lhe faça companhia. Além disso, tens de te pôr muito elegante!».

Voltemos ao oitavo «dia». Para adorar a Deus como o fazem os bem-aventurados no céu, tal como os descreve o Apocalipse, há que começar por «lançar a coroa»: as nossas múltiplas coroas, que em realidade são tão ridículas… Diante de Deus, há que sair de si mesmo, despojar-se: nisto consiste o êxtase (quer dizer, encontrar-se fora de si mesmo), o humilde e autêntico «êxtase do amor».

Para Isabel, esse é o êxtase do amor de um coração «esmagado pela beleza, força, ou grandeza» de Deus: «por ser Ele quem é». São poucos os profetas de Deus que recordaram com tanta intensidade como Isabel a importância do primeiro mandamento – o de amar a Deus – enquanto viviam com os olhos bem abertos às necessidades dos próximos mais próximos.

Esta adoração leva-a a um «silêncio pleno e profundo», o silêncio da adoração e do dom de si sem reservar nada para si. (Este é o sentido do «desfalecimento» a que alude, expressão tomada dos salmos e dos místicos, e que não deve ser tomada no sentido físico). Este «silêncio pleno» será também para Isabel o silêncio da felicidade: «No meio do silêncio e da dor, a alma encontra a sua felicidade na do Ser adorado». «O abismo do nosso nada» converter-se-á nesse «poço» onde a Água viva se comunica «com ímpeto».

O texto de Isabel

  1. «Não têm repouso, nem de dia, nem de noite, dizendo: Santo, santo, santo, o omnipotente Senhor, que era, que é, que será pelos séculos dos séculos… E então prosternavam-se, adoravam, e lançavam as coroas diante do trono, dizendo: Vós sois digno, Senhor, de receber a glória, a honra, e o poder…» (Ap 4, 8. 10-11).

Como imitar, no céu da minha alma, esta ocupação incessante dos bem-aventurados no Céu da glória? Como continuar este louvor e esta adoração ininterruptas?

S. Paulo dá-me sobre isto uma luz, quando escreve aos seus que «o Pai os fortifica em poder pelo seu Espírito, quanto ao homem interior, de modo que Jesus Cristo habite pela fé nos seus corações e que sejam enraizados e fundados no amor» (Ef 3, 16-17).

Estar enraizado e fundado no amor: tal é, parece-me, a condição para cumprir dignamente o seu ofício de laudem gloriae. A Alma que penetra e mora nestas «profundezas de Deus» cantadas pelo rei-profeta, que, por conseguinte, tudo faz «n’Ele, com Ele, por Ele, e para Ele», com essa limpidez do olhar que lhe dá uma certa semelhança com o Ser simples – esta alma, em cada um dos seus movimentos, das suas aspirações, como em cada um dos seus actos, por mais vulgares que sejam, «enraíza-se» mais profundamente n’Aquele que ama. Tudo nela presta homenagem ao Deus três vezes santo: ela é, por assim dizer, um Sanctus perpétuo, um incessante louvor de glória!…

  1. «Prosternam-se, adoram, lançam as suas coroas»… E em primeiro lugar, a alma deve «prostrar-se», mergulhar no abismo do seu nada, meter-se nele de tal modo que, segundo a maravilhosa expressão de um místico [Ruysbroec], encontre «a paz verdadeira, imutável e perfeita, que nada perturba, porque se precipitou tão fundo que ninguém lá a irá procurar».

Só então, é que se há-de poder «adorar». A adoração, ah!, como é uma palavra do Céu! Parece-me que é possível defini-la: êxtase do amor. É o amor esmagado pela beleza, força, ou grandeza imensa do Objecto amado, e «cai numa espécie de desfalecimento» (Sl 83, 3), num silêncio pleno, profundo, esse silêncio de que falava David quando exclamava: «O silêncio é o teu louvor!…» (Sl 65, 1). Sim, é o mais belo louvor, pois é o que eternamente se canta no seio completamente tranquilo da Trindade, e é também o «último esforço da alma que transborda e já não consegue dizer mais nada…» (Lacordaire).

«Adorai o Senhor, porque Ele é santo», diz-se num salmo (Sl 98, 9). E ainda: «Para sempre será adorado por causa de Si mesmo» (Sl 71, 15). A alma que se recolhe nestes pensamentos, que os penetra com «aquele sentido de Deus» de que fala S. Paulo (Rm 11, 34; 1 Co 2, 16), vive num Céu antecipado, acima do que passa (…), perde-se de vista e encontra a sua beatitude na do Ser adorado, no meio de todo o sofrimento e de toda a dor. Pois que se abandonou encontra-se «transposta» num Outro. Parece-me que esta atitude de adoradora, a alma «se assemelha àqueles poços», de que fala São João da Cruz, que recebem «as águas que descem do Líbano», e ao vê-la, pode-se dizer: «A impetuosidade do rio alegra a Cidade de Deus» (Sl 45, 5).

Sugestões para orar

Fixaste-te na fórmula de Isabel: fazer tudo «n’Ele, com Ele, por Ele e para Ele», que recorda o fim da oração eucarística? Assim, a tua vida de cada dia converter-se-á numa Missa de acção de graças e de louvor.

Hoje, «afunda as tuas raízes» no Senhor que está presente no teu coração. Repete-lhe que os actos «ordinários» da tua vida real, de responsabilidade e ou de caridade fraterna, os fazes todos por Ele e para o louvar. Tudo pode conduzir à adoração. A nossa adoração pode ter os pés solidamente apoiados na existência e na luta concretas do mundo de cada dia. A adoração deveria ser a atitude mais profunda do crente e o rio subterrâneo de toda a sua actividade criadora.

Podes adorar amiúdo a Santíssima Trindade com a doxologia da Eucaristia, onde Jesus se entrega a cada instante pela vida do mundo: Por Cristo, com Cristo, em Cristo, a Vós, Deus Pai todo-poderoso, na unidade do Espírito Santo, toda a honra e toda a glória agora e para sempre.


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