GLOSASEspaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente

Glosas a Brève apologie pour un moment catholique

– Laïcité ou séparation –

(pp. 48-82)

(Cont.)

 [Primeiro texto: aqui.]

Tiago Azevedo Ramalho

 

– 17. A tradição cristã de separação Igreja-Estado (cont.). – A leitura da tradição (judaico-)cristã permite rapidamente inferir a centralidade que para ela reveste a «dessacralização» do poder político. É ela, na verdade, uma decorrência do dado teológico central: a Criação enquanto separação, de onde a necessária distância entre o divino e o humano e, portanto, a denúncia da temporalidade, e não sacralidade, das instituições constituídas pelo ser humano (pp. 57-58). Semelhante dado teológico fundamental está colocado, portanto, em clara oposição àquele que é o movimento tendencial do poder político, e a que, aliás, nem sempre as comunidades eclesiais sabem resistir:

«Mas é mesmo necessário espantar-se com que, como tal, todo o poder político pretender prolongar-se, prorrogar-se e enquistar-se no seu poder através – eventualmente – de todos os meios, incluindo o mais forte, a sua sacralização, e assim instituindo uma idolatria? O próprio ateísmo dos regimes totalitários não os reteve na vontade de se sacralizarem, mesmo de se santificarem.»

Assim ocorre igualmente em âmbito intraeclesial, que não está poupado a este tipo de provações –pense-se nas igrejas nacionais (que justamente um papado para além das fronteiras do político pretende contrabalançar), como as saídas da Reforma, ou numa certa insinuação ao poder como também ocorrida em âmbito católico. A diferença está em que, ao fazê-lo, acusa-se a si própria, reconhece-se a cometer uma «apostasia perante Aquele de quem constitui o corpo, uma auto-idolatria, que a degrada ao nível de uma simples sociedade humana» (p. 62). Há um movimento interno da fé cristã que provoca um desconforto radical com a excessiva aproximação ao poder político, e que reclama, por isso, a liberdade de religião (sem desconhecer que no concreto quadro do embate com o iluminismo foi ela contestada), a ponto de aceitar o martírio por essa mesma liberdade – e é essa tradição, conclui Marion, que em última linha está na base da Lei da Separação de 1905:

«(…) não se pode invocar de forma encantatória o conceito de “laicidade” – se existe um e se ele admite um sentido unívoco, o que está longe de evidente – sem reconhecer a origem teológica, a origem cristã da separação.» (p. 63)

Prova-o a circunstância de ser apenas em espaços que foram fermentados pela cultura (judaico-)cristã que um tal regime de separação, e consequente liberdade perante a religião, haja podido estabelecer-se:

«Em todos os outros países, mesmo o ateísmo pessoal torna-se impensável e impraticável, salvo na clandestinidade e marginalidade» (p. 64).

(Continua.)

 


Imagem de Rocco Stoppoloni por Pixabay