Qui. Out 28th, 2021
Letra viva | Valores de uma cultura que cuida e não mata
Rubrica dedicada à reflexão sobre o dever de cuidar de todos e os riscos de legalizar a eutanásia

João César das Neves*

O Expresso Curto (mensagem electrónica que o jornal envia diariamente, resumindo a sua edição) de 9 de Outubro estava intitulado «Em janeiro tudo eram rosas, agora o Governo está rodeado de espinhos». O texto começa a notícia dizendo: «Façamos um exercício de memória: lembra-se de onde estava a 1 de janeiro de 2020? Se o Governo fosse uma pessoa não hesitaria em dizer que estava num belo passeio na praia, mesmo que encasacado e com medo de uma traiçoeira onda externa. (…) Prova disso é que, em fevereiro, o grande tema político era a legalização da morte medicamente assistida (vulgo eutanásia). Alguém se lembra hoje deste tema? (Na verdade sim, voltamos a isto mais abaixo.)»

O jornalista (aliás anónimo) está a fazer uma análise justa da enorme transformação do clima político nacional em poucos meses por causa da pandemia. Mas o aspecto mais curioso é a escolha que fez do símbolo máximo de um tempo sereno: a questão da eutanásia. Quando as coisas azedam, quem se lembra mais disso? De facto nem sequer o próprio articulista, porque se esqueceu da promessa de voltar ao assunto adiante e omite-o no resto da longa mensagem. Isto pode parecer um facto menor, mas mostra bem a atitude de fundo da sociedade portuguesa acerca destes assuntos. E resume a maior infâmia que rodeia este caso da eutanásia lusitana.

Não se diga que o esquecimento resulta simplesmente de nos momentos de emergência se omitirem coisas importantes. Nunca passaria pela cabeça do repórter usar como tema ocioso, ilustrativo de uma época politicamente pacífica, assuntos como a eliminação da democracia, a restauração da escravatura ou da pena de morte. Se esses fossem os tópicos de discussão, estaríamos evidentemente em épocas de grande tumulto cívico. Mas a eutanásia é mesmo um assunto indolente, que só se trata quando não há mais nada de interessante para discutir. Eutanásia são rosas, orçamento são espinhos. Ao dizê-lo, este jornalista não é aberrante, e a sua afirmação concorda com a chamada opinião pública. Toda a gente sabe que assuntos como eutanásia, reprodução medicamente assistida, mudança de sexo, divórcio e afins são legislação que se ressurge quando não há mais nada de importante na agenda.

Este ponto é, no fundo, o mais grave de toda a luta que travamos nas questões da vida e da família: aqueles que pretendem revolucionar a ordem tradicional nestes campos fazem-no com uma incrível ligeireza e nas horas vagas. Se ao menos trouxessem gravidade à discussão, mostravam um respeito mínimo pelos temas da vida. Mas não, são assunto de décima escolha, no fundo da escala dos programas eleitorais. Por isso é que tantos partidos se esqueceram mesmo de os mencionar nos seus, confirmando a opinião do jornalista do Expresso.

Isto não quer dizer que esses activistas não saibam o que é gravidade. Nunca proporiam a violação de direitos humanos, do estatuto democrático, da dignidade pessoal, mas acham normal que se permita matar alguém que está doente, simplesmente porque se conseguiu convencê-lo a dar o seu consentimento. E, com esta falácia e aporia, até se chega a defender que tal morte faz parte integrante dos direitos humanos, do estatuto democrático, da dignidade pessoal. Sem nunca se darem conta que é precisamente com raciocínios desses que pessoas sérias e razoáveis justificaram a escravatura, a pena de morte, a purificação da raça e outros horrores. Todos esses casos têm em comum precisamente o argumento central da defesa da eutanásia: são vidas que não vale a pena serem vividas. Chega a ser espantoso ver políticos, que se dizem democráticos e civilizados, entrar em atitudes que tanto dizem repudiar.

Este paradoxo é bem explicado na última encíclica do Papa Francisco, quando fala das «sombras dum mundo fechado» (capítulo I). Aí diz explicitamente: «As guerras, os atentados, as perseguições por motivos raciais ou religiosos e tantas afrontas contra a dignidade humana são julgados de maneira diferente, segundo convenham ou não a certos interesses fundamentalmente económicos: o que é verdade quando convém a uma pessoa poderosa, deixa de o ser quando já não a beneficia.» (Fratelli Tutti, 25).


*Professor catedrático de Economia

Imagem de Sabine van Erp por Pixabay