GLOSAS – Espaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente
Glosas a Brève apologie pour un moment catholique
– L’utilité de la communion –
(pp. 83-119)
(Cont.)
[Primeiro texto: aqui.]
– 25. «Envio». – Em nota epilogar («Envio: Um momento católico»), apresenta-se uma recapitulação de algumas linhas de força do escrito: a impossibilidade de identificar «os católicos» como um grupo homogéneo, não se encontrando nenhum outro denominador comum que não a confissão de fé em Jesus Cristo; a opção por essa via de fé sem ser por «virtude, nem por heroísmo, nem por mania», mas apenas por lhes parecer a melhor das decisões; e a identificação da oportunidade de um «momento católico», que nada tem que ver com uma «reconquista», mas como o peso de uma responsabilidade que se assume (Glória?), um serviço que se presta (Liturgia?), na falta de quem esteja pronto para voltar a tecer um relações sociais rasgadas.
– 26. Uma apreciação de conjunto. – Impõe-se concluir. Escrevia-se ao princípio destas Glosas: estamos diante de um texto invulgar: esclarecido, provocatório, teologicamente bem nutrido, cheio de esprit, escrito com uma fina atenção à realidade contemporânea.
Não é preciso acompanhar todos as opções de um texto para dele fazer o mais positivo dos juízos. Chegados ao seu termo, não deixa, com efeito, de se notar uma omissão. Numa Igreja que pretende ser «sinal de contradição» e não «contradição do sinal», e que a si se diz como «instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano» (Lumen Gentium 1), teria sido bom que a reflexão se voltasse também para a oportunidade de um moment catholique para a própria instituição eclesial. Com efeito, em virtude daquela identidade com que a Igreja se autopresenta, a sua disciplina particular – quer dizer, o que consente ou o que proíbe àqueles que a integram e que em comunhão com ela procuram viver a respectiva vocação – não constitui questão menor ou puramente secundária, mas atinge dimensões essenciais da vida crente. Não é bastante – e de novo o cristianismo antigo nos serve de referência – reduzir a centralidade do contributo da Igreja à dispensação sacramental entendida em sentido muito escrito. Bom seria que também este ponto houvesse sido objecto de reflexão.
Mas não se deverá medir a força de um texto pela sua capacidade em resistir ao que indevidamente se escreveu, ou indevidamente se omitiu? Se assim é, então deve reconhecer-se como poderosíssimo este uso que Marion faz da palavra: palavra lúcida, arguta, generosa. Palavra que é dádiva. Recordamos alguns dos acentos fundamentais da obra: a capacidade de ler a realidade a partir dos elementos fundamentais da fé cristã, e de a apresentar desde o seu núcleo; o amplo aproveitamento da grande tradição da Igreja, considerada nas suas realizações mais vigorosas e não nas formas mais caducas; a profunda reconstituição do sentido de palavras fundamentais de ordem política, como a divisa da República ou o regime da laïcité, ou melhor, da separação; a atenção muito próxima a alguns dos principais males sociais do mundo contemporâneo, às suas causas e aos seus efeitos, em especial ao nihilismo omnipresente; a capacidade de saber discernir o que pode indevidamente ser confundido – lembra-se a distinção entre crise e decadência; o discernimento de oportunidades para o serviço dos católicos às comunidades que integram; o discurso historicamente esclarecido, denunciando o logro da polemística anti-clerical mais básica; o desenvolvimento de quadros conceptuais alternativos à asfixiante lógica do mercado e do poder, como ocorre com a «lógica da dádiva»; a recusa da reconstituição de um cristianismo que combate pelo poder, pelo estandarte e pela bandeira, e pela clara asserção de que tais formas históricas de organização política apenas se podem entender como perversões do fundamental da proposta cristã (proposta de «autoridade» e não de «poder»); finalmente, a maravilhosa prosa. Que o faça em pouco mais de 100 páginas tem-se por um feito notável.
– 27. Uma presença que não desmobiliza. – Como se conclui a Brève apologie, assim se concluirá igualmente a presente série de Glosas – com uma citação de Chateaubriand. Desta vez sine glosa:
«Não encontro outra solução para o futuro senão no cristianismo, e no cristianismo católico. (… ) Se deve haver um futuro, um futuro possante e livre, este futuro está ainda longe, longe por detrás do horizonte visível; não chegaremos a ele senão com a ajuda desta esperança cujas asas crescem na medida em que tudo a parece trair, esperança mais longa do que o tempo e mais forte do que a desgraça.»
– Fim –