Virgem Maria, Mãe da santa Esperança

Homilia do Funeral de Mons. João Gaspar

Tive como lema orientador da minha vida “Caminhar na esperança para o Além de Deus”, afirmou o Mons. João Gaspar numa carta de consciência que deixou ao cuidado do bispo diocesano e, ao mesmo tempo, pediu que, se fosse possível, celebrássemos no seu funeral a missa em honra da Virgem Maria, Mãe da Santa Esperança.

É na esperança que fomos salvos, diz São Paulo aos Romanos (Rm 8,24). A salvação é-nos oferecida no sentido que nos foi dada a esperança, uma esperança fidedigna, graças à qual podemos enfrentar o nosso tempo presente: o presente, ainda que custoso, pode ser vivido e aceite se levar a uma meta, e se pudermos estar seguros desta meta, se esta for tão grande que justifique a canseira do caminho.

Neste caminhar na esperança, Maria é modelo do nosso caminho. A Igreja alegra-se com o seu nascimento, que foi «para o mundo esperança e aurora de salvação». No mistério da gloriosa Assunção, contempla a Santíssima Virgem como segura esperança de salvação que brilha para os fiéis «no meio das dificuldades da vida», a sua luz resplandece para todos os filhos de Adão «como sinal de segura esperança, até que brilhe o dia glorioso do Senhor».

É a partir de Maria, Mãe da Esperança, que o Monsenhor escolheu o texto das bodas de Caná para a Eucaristia de hoje.

A água e o vinho são os elementos centrais do relato do evangelho de S. João. A água é depositada em seis talhas de pedra destinadas às purificações dos judeus, e que tinham ficado vazias. O vinho é sinal de amor e de alegria. O Cântico dos Cânticos apresenta-o como símbolo do amor entre o esposo e a esposa, que, por sua vez, simboliza o amor de Deus e do povo. O vinho simboliza a totalidade do banquete, banquete de bodas a que tantas vezes se compara o Reino de Deus e para o qual somos convidados. A Virgem Maria é a mãe da esperança, convertendo-se em símbolo do novo Israel. Atenta às necessidades dos irmãos, deseja o vinho novo do Reino e, com plena confiança no seu Filho, apela a que todos escutemos a sua Palavra: “Fazei o que Ele vos disser!”.

Da vida do Monsenhor, desejo realçar três aspetos que estiveram muito presentes na sua existência: o amor à sua terra – Eixo – e às suas gentes; a sua implicação na vida cultural da sociedade aveirense, e o seu amor à diocese de Aveiro nas várias missões a que foi chamado.

Durante o seu serviço na diocese de Aveiro, o Monsenhor foi secretário dos vários Bispos de Aveiro, residindo sempre na Casa Episcopal. Foi capelão do Lar de Santa Joana, na cidade de Aveiro, assistente da JEC do Liceu de Aveiro, administrador do semanário diocesano “Correio do Vouga”, Presidente da Comissão diocesana de Arte Sacra e do Património Cultural, assessor Cultural da Câmara Municipal de Aveiro, membro da Comissão Municipal de Arte e Arqueologia de Aveiro e membro do Conselho da Universidade de Aveiro.

Académico correspondente da Academia Portuguesa da História, publicou inúmeras obras, destacando-se as que se referem ao Património de Aveiro e à vida de Santa Joana Princesa.

Foi Vigário-Geral da diocese de Aveiro de 1988 a 2017 e Administrador Diocesano entre 7 de abril e 13 de setembro de 2014.

Escritor que foi da nossa terra e das suas gentes, autor de tantos e variados livros, no último sábado terminou, a pedido do diácono José Carlos, umas memórias sobre a sua vida e que, juntamente com outros testemunhos de pessoas amigas, serão publicadas proximamente.

Deixou-nos uma Mensagem para ser lida nas suas exéquias. Apresento-a durante a homilia para que seja ele a falar a cada um de nós.

MORREREI … MAS VIVEREI SEMPRE!…

Num qualquer dia de sol radioso ou de luz pardacenta, irá divulgar-se a notícia de que eu finalmente morri.

Agora, no momento em que escrevo esta anotação, não sei a data da ocorrência, mas tal notícia será certa.

Poucos minutos ou poucas horas antes, quase sem aviso, terminara a curta alínea da minha vida neste mundo.

Porém, eu tenho a firme certeza de que, guiado pela fé, jamais perdi nem quero perder o sentido do norte, ao longe da presente caminhada entre espinhos.

Sempre acreditei que, no termo destes breves anos, Deus vai levar-me, nos braços da sua misericórdia, para a alínea do seu Além feliz, que jamais terá fim.

Enriquecido com inauditos e singulares dons celestes, ver-me-ei imediatamente envolvido pela festa eterna.

Durante a efêmera e transitória existência terrena, Deus concedeu-me e concede-me a graça de viver algo da preciosa mensagem evangélica de Cristo, aí descobrindo sempre a sabedoria para o meu rumo, plena de ciência, de encanto, de riqueza e de poesia.

Testemunhando a fé que principiou a germinar no Batismo e grato pela alegria de ter sido dotado pelo Sacerdócio, jamais me acomodei apenas e só com o mero existir, mas tentei e tento dar esperança e serenar consciências.

Nunca me faltou nem falta a mão misericordiosa de Deus, nem o auxílio materno da Mãe de Jesus e minha Mãe, nem o exemplo de caridade da Princesa Santa Joana, nem os incentivos de tantos irmãos e de tantas irmãs.

Fixando os meus olhos na abundância insondável do Céu, ambiciono partir sem o peso de qualquer bagagem material.

Peço que ninguém chore por mim, nem use sinais de luto, mas que me recorde com alegria, como estando presente, porque a morte não é pena, mas glorificação na saudade.

Prosseguirei a falar de paz, de justiça, de bondade e de amor.

Não me despeço de ninguém, pois desejo continuar presente.

Serei sempre vosso amigo sincero e leal. – Contai comigo.

Janeiro de 2014

Padre João Gaspar

Monsenhor, junto de Deus peça por nós, pela cidade e diocese de Aveiro e nós também o lembraremos nas nossas orações e no altar da Eucaristia.

Amen.

Catedral de Aveiro, 4 de julho de 2026.

 António Manuel Moiteiro Ramos, Bispo de Aveiro.