Sáb. Nov 27th, 2021

Pe. Franclim Pacheco

Breve comentário
Para melhor entendermos este episódio, devemos ter em conta que o evangelho segundo Mateus se dirige a uma comunidade de cristãos de origem judaica, com toda a sua carga histórica e religiosa, e que vive em ambiente palestinense, no meio dos outros judeus que não aceitaram a Boa Nova.
Na linha da tradição, muitos cristãos consideravam o povo de Israel como a estirpe eleita e santa, único herdeiro da salvação de Deus. Outros mostravam alguma abertura, admitindo que os israelitas eram os primeiros destinatários da salvação, mas não os únicos. De facto, Jesus Ressuscitado tinha sido claro na sua ordem de envio: «Ide, fazei discípulos todos os povos…» (Mt 28,19) e esta questão mereceu a atenção do 1º Concílio da Igreja nascente (Act 15).
A vida pública de Jesus desenrolou-se praticamente em território judaico e a sua missão quase se limitou «às ovelhas perdidas da casa de Israel». Mas há alguns gestos da parte de Jesus que são um prelúdio e anúncio do universalismo da salvação. É neste ambiente que Mateus nos refere o episódio da mulher cananeia.
As duas cidades, Tiro e Sídon, situadas na linha costeira a norte de Israel, sempre foram consideradas na tradição bíblica como representantes dos povos pagãos. Para os israelitas, povo pagão é sinónimo de inimigo de Deus e do povo, daí serem tratados por «cães».
O evangelista Mateus foi colher este episódio ao evangelho de Marcos mas apresenta-o duma forma mais dramatizada, apresentando Jesus numa atitude tão dura que até os discípulos intervêm para se verem livres daquela mulher que, por seu lado, não desanima.
A mulher era doutra raça e doutra religião. Começa por suplicar a cura da filha que estava possuída por um espírito impuro. Os pagãos não tinham problemas em recorrer aos judeus, mas o mesmo não acontecia com os judeus em relação aos pagãos. Era-lhes proibido pela Lei entrar em contacto com uma pessoa doutra religião ou raça.
A mulher toma a iniciativa e chama Jesus como «filho de David». O episódio está inserido na chamada secção dos pães pelo facto de a palavra «pão» surgir várias vezes. O título dado a Jesus faz lembrar o programa messiânico do rei David: assegurar a todos os filhos de Israel uma ração de pão a cada um (2Sm 6,19). Garantir o pão equivale a dar a vida. A mulher pede a cura – a vida – para a sua filha.
A mulher grita mas Jesus não responde, mostra-se insensível. É uma atitude estranha mesmo para os discípulos que começam a ficar cansados da insistência da mulher: «Despede-a, porque ela vem atrás de nós a gritar». Mas Jesus não escuta nem quer escutar. Defende-se com a Lei e com o objectivo da sua missão: «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel». É o mesmo que dizer que o Pai, que o enviou, não quer que ele escute aquela mulher.
A mulher não se deixa vencer. Prostrou-se aos pés de Jesus e suplica: «Senhor, socorre-me». O verbo «prostrar-se» é muito importante e atravessa todo o evangelho de Mateus. É um gesto de submissão, de reconhecimento da importância de quem se tem à frente, é um gesto de adoração. A esta segunda tentativa, Jesus permanece fiel aos princípios judaicos, fazendo uso duma parábola tirada da vida familiar que inclui um insulto clássico dos judeus em relação aos povos pagãos: «Não é bem tomar o pão dos filhos para o lançar aos cachorros». Nas casas pobres, então como agora, havia muitos filhos e muitos cães, pelo que o pão era reservado apenas aos filhos.
A mulher aceita o insulto, transformando-o num novo desafio lançado a Jesus. Admite que não é digna de participar no banquete do Reino, mas leva a comparação até ao fim, mostrando que na casa dos pobres os cachorros comem as migalhas que caem da mesa, inclusive as migalhas atiradas pelas crianças. Jesus, em criança, deve ter feito o mesmo. Por isso, a mulher espera que na nova «casa» inaugurada por Jesus, isto é, na comunidade cristã, haja alguma migalha ou pedaço que tenha sobrado.
Desde o não ligar coisa alguma, o apresentar a supremacia do povo de Israel, até ao insulto, chamando «cadela» à mulher que implora a cura da filha, de tudo isto se serve Jesus para pôr à prova a fé daquela mulher que ele mesmo acaba por reconhecer, numa frase jamais dirigida a um membro do povo Israel: «Ó mulher, é grande a tua fé! Faça-se como desejas». A cura da filha obtida por meio da fé humilde e constante da mulher pagã é um sinal antecipador do novo caminho, aberto também aos pagãos, para aceder à mesa dos filhos e fazer parte de pleno direito da casa de Israel.