GLOSASEspaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente

Glosas a Brève apologie pour un moment catholique

– Catholique et français –

(pp. 15-47)

(Cont.)

 [Primeiro texto: aqui.]

Tiago Azevedo Ramalho

 

 

– 8. Cont. – Um qualquer desejo de restauração de uma maioria social cristã é, assim, objecto de uma aguda crítica teológica: «O que significaria para os católicos constituírem em França (de novo ou porventura pela primeira vez) uma maioria? Que significaria para a Igreja ser bem-sucedida? Estabelecer um reino cristão sobre a terra, instaurar uma Jerusalém subindo da terra e não descendo dos céus? Integrar numa “sinfonia” perfeita a ordem espiritual e a ordem natural? Basta formular estas palavras para ver a inadequação teológica manifesta, para nelas dever denunciar os ídolos e as blasfémias. De resto, Cristo, ele próprio, não vem a ser bem-sucedido neste sentido: e não vem porque nunca o quis; pelo contrário, denuncia esta muito humana e muito política “restauração do reino de Israel” (Actos 1, 6) como a tentação e o contrasenso mais contrários à proclamação de que o “Reino de Deus está muito próximo, está entre vós” (Lucas 10, 9 e 11). Seremos nós, então, maiores do que o nosso mestre (João 13, 16)? O que queremos nós, o que por fim esperamos, a sua vontade ou a nossa?» (pp. 26-27).

            Daqui se transita para um recentramento crístico da eclesiologia e da pastoral cristã. É a Igreja que se tem de pensar a partir da missão que lhe é dada, e de quem crê – por vias, sabe-se bem, que se afiguram insondáveis – que se encontra ao respectivo leme; cabe-lhe assumir a missão que lhe é confiada, não definir a sua própria missão: «Certo, [Cristo] prometeu à Igreja que as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Mas nunca lhe assegurou que se tornaria maioritária ou dominante no mundo: apenas lhe pediu que passasse pela mesma cruz onde conquistou a Ressurreição» (p. 27).

            E por isso – e que provocação! – pode mesmo o bom cristão despreocupar-se com a arquitectura das instituições eclesiásticas: «o fiel sério que pratica a fé esquece-se de se interessar pela reforma das instituições eclesiásticas (tarefa que, voluntariamente, bem abandona aos trabalhadores especializados nas reparações domésticas). A Igreja não importa ao baptizado de base senão como a distribuição de água importa ao habitante de uma cidade: desde que a água do Espírito que eu deva beber passe sempre nos canais, desde que o sistema de dispensação dos sacramentos me doe a vida do Espírito, a minha primeira preocupação é beber, não refazer o sistema de condução de água» (pp. 27-28).

São palavras que têm tanto de exagerado como de lúcido. Exagerado, desmesurado, hiperbólico – porque parecem reduzir a nada a urgente preocupação com as estruturas eclesiais, das quais muito depende da acção da Igreja, e pelas quais se hão-de interessar os comuns cristãos. Não se deve, com efeito, reduzir a nada a questão das estruturas (talvez, neste ponto, perca o discurso algum equilíbrio): se a identidade cristã tem uma dimensão eclesial, e se a Igreja tem também uma expressão institucional, negar a possibilidade de uma activa iniciativa eclesial (e assim, como é sabido, ocorre continuamente) amputa uma parte bem relevante da identidade cristã.

Mas, não obstante quanto se observou, são palavras que mantém a sua inteira lucidez, na exacta medida da força daquela hipérbole: por mais relevante, e mesmo indispensável, que seja a questão das «estruturas eclesiais», ela como nada é diante da grandeza dos grandes lances existenciais em que se vive a vida cristã (daí a sensação «estranhamente desapontante» de Hannah Arendt ao ler o Diário da Alma de São João XXIII: onde poderiam alguns esperar grandes voos sobre temas políticos ou eclesiásticos, eis que se detecta com um diário-razão do exame diuturno de consciência). E impõe-se, também aqui, um severo juízo de crítica das próprias possibilidades: «De resto, quem sou para pretender reformar a Igreja? Quem sou eu para a criticar? Seria necessário que eu fosse mais lúcido, corajoso e, finalmente, mais santo do que ela. Então, ou tenho mesmo de fazer silêncio, ou então devo agir como um santo. Os santos apenas reformam a Igreja, mas edificando-a, e não tomando-a, ou governando-a» (p. 28). Vem à ideia a memória de um grande reformador, Francisco (de Assis), que sua fez esta lição.

A Igreja, em suma, é um mistério mesmo para aqueles que a integram: «Só Cristo conhece o estado da sua Igreja (…). Os membros da Igreja não estão eles próprios a par do estado da Igreja, nem mesmo da Igreja na sua totalidade. Têm apenas acesso, naquilo que não podem ver, ao conhecimento de Cristo e, por ele, ao Pai na vida do Espírito» (pp. 28-29).

(Continua.)

 


Imagem de Dimitris Vetsikas por Pixabay