Sinais nos tempos | Do tempo que sucede ao tempo que significa
Republicação de artigo originalmente publicado no jornal O Ponto, edição n.° 417, de 06/02/2019.
Pe. Nuno Duarte da Silva Queirós*
A referência ao mártir São Valentim é já presente no Martyrologium Hieronymianum (também chamado de Martirológio Latino), desenvolvido entre os séc. VI-VIII, é uma compilação de vários calendários anteriores, que justapõe as datas do martírio dos santos com pequenos elogios biográficos. No entanto, no Martirológio Romano de 1586, promulgado para toda a Igreja pelo papa Gregório XIII, encontramos a 14 de fevereiro, não apenas uma, mas duas entradas distintas para santos com o mesmo nome “Valentim” (facto que não se repete na recente edição típica de 2004): um presbítero romano e um bispo sepultado em Terni. Ao longo da história parece que foram feitas muitas analogias entre os dois santos que partilharam não só o nome e o dia do martírio, mas também corajosos testemunhos de fé e curas milagrosas que provocaram conversões, sendo ambos martirizados por decapitação na segunda milha da via Flamínia. Se, segundo os relatos coligidos os acontecimentos do presbítero Valentim estarão relacionados com a cura de uma filha cega de um nobre romano chamado Astério que se converte ao cristianismo com toda a sua família, sendo sepultado na via Flamínia, onde se terá erigido uma igreja; a tradição do martírio do bispo de Terni parece ter subsistido com outros pormenores. Este parece ter sido morto por volta de 273, decorrente da cura milagrosa do filho de Cratão, um rector e filósofo romano, que viria suscitar não só a conversão de toda a família, bem como de três jovens discípulos, e ainda do filho do prefeito Plácido, Abôndio. Após o martírio os restos mortais de Valentim teriam sido levados para a cidade de Terni, a cerca de 100 km de Roma, onde se erigiu uma grandiosa Basílica, sendo o padroeiro da cidade e da diocese e local de peregrinação ainda hoje. Soma-se maior confusão quando verificadas outras referências a santos com o mesmo nome, pejadas de outras lendas e factos, o que torna impossível um perfil histórico isento, como é habitual na hagiografia antiga.
A celebração de 14 de fevereiro parece também não estar isenta da influência pagã, acreditando-se que Gelásio I, papa de 492 a 496, terá sobreposto a memória de São Valentim às Festas Lupercais, ou Lupercalia, que outrora se realizavam nesses dias como festival pagão junto à gruta Lupercal, no Palatino, sob auspícios mitológicos, com sacrifícios de animais e exageros variados ligados à fecundidade, que hoje nos recordariam o Carnaval. Nesse contexto, é atribuída ao mártir Valentim a capacidade de proteger os noivos e namorados, ilustrada com variadas lendas como a que o santo ofereceria rosas aos pares de noivos para lhes desejar uma união feliz; ou então que o bispo teria sido martirizado porque celebrava casamentos em segredo, contra a proibição do imperador Cláudio II, o Gótico, que acreditava que os jovens que não tivessem família, nem esposa, alistar-se-iam com maior facilidade nas suas fileiras bélicas. O epíteto de santo padroeiro dos namorados terá mesmo sido atribuído pelo papa Alexandre VI em 1496, numa altura em que a conjugação de variadas lendas já teria codificado costumes diversos ligados a essa temática. Em 1969, com a promulgação do novo calendário romano geral, a memória de São Valentim circunscreveu-se ao culto tradicional local, sendo suplantada para toda a Igreja pela festa dos dois irmãos São Cirilo, monge (que morreu a 14 de fevereiro de 869), e São Metódio, bispo, apóstolos dos eslavos, até então celebrada a 7 de julho, sendo proclamados por João Paulo II padroeiros da Europa, em 31 de dezembro de 1980.