GLOSASEspaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente

Tiago Azevedo Ramalho 

­ – Um discurso de Ivan Illich –

[Introdução geral: nn.º 1 a 8/ I. Ivan Illich e a Escolarização: nn.º 9 e ss.]

– 35. Em busca de alternativas. – É especialmente vigorosa a crítica de Ivan Illich ao sistema de escolarização. E é também radical, porque assenta na identificação das raízes das pretensões que aquele faz suas, e no reconhecimento de que é somente a ponta da lança – de particular relevância porque iniciática – das instituições modernas (n.º 12). No sistema de escolarização, segundo Illich, vêem-se somente reflectidas características que permeiam as mais diferentes instituições sociais: «Uma das maneiras de preencher o tempo é estimular a crescente procura do consumo de bens e, simultaneamente, de produção de serviços. Aquela implica uma economia que produz uma constantemente crescente variedade de novas coisas que podem ser feitas, consumidas, gastas, e recicladas. A última implica a fútil tentativa de “fazer” de acções virtuosas produtos de instituições que prestam “serviços”. Isto conduz à identificação entre escolarização e educação, entre serviços de saúde e saúde, entre ver programas de televisão e entretimento, entre velocidade e efectiva locomoção. A primeira opção tem agora o nome de desenvolvimento.» (Deschooling, p. 63)

Ainda assim, e por mais que, ao tempo em que formulada, a crítica de Illich tivesse obtido alguma ressonância (n.º 6), deve reconhecer-se o seu reduzido impacto a meio prazo. Olhando o último meio século, o sistema de escolarização apenas se desenvolveu, crescendo em intensidade, duração e pretensões. O próprio Ivan Illich se verá forçado a reconhecer, em visão retrospectiva, que subestimara a profundidade do enraizamento das instituições de escolarização.

Mas é talvez num outro ponto que se encontra a razão explicativa para os efeitos limitados da crítica de Ivan Illich. Ivan Illich conjuga, na sua obra, a radicalidade da denúncia profética com a radicalidade das propostas que apresenta: uma total reformulação dos meios educativos (cf. as suas propostas constantes especialmente do cap. 6 de Deschooling, pp. 72 e ss.: «Learning webs»). A primeira será de aplaudir: só a radicalidade da denúncia cria o efeito de choque que permite a releitura da própria prática, a metanóia, mudança de mentalidade que impulsiona a alteração do comportamento.  Já não assim com a segunda: a radicalidade da proposta de reformulação dos meios educativos pode ter por consequência a rápida perda de referentes de acção. Aqui não se pediria radicalidade, mas prudência. De outro modo, pela impraticabilidade real dos projectos de alteração propostos, corre-se o risco de se procurar refúgio seguro naquelas precisas instituições que, mesmo alvo de legítima crítica, oferecem conforto e orientação – sobretudo quando se tornaram o meio ambiente normal da sociedade moderna. Em lugar de a crítica ter por resultado a revisão institucional, pode antes conduzir à respectiva cristalização.

De todo o modo, nalguma medida a própria vida de Ivan Illich espelha a procura de alternativas a essa proposta de mudança radical que o próprio acaba por reconhecer como fracassada. Tal é visível no modo como se relaciona com a universidade. Embora também sobre ela invista, é em seu redor que passará a última fase da sua vida (n.º 7). Ouça-se em primeiro lugar a crítica: «O fim estrutural da universidade moderna tem pouco que ver com a investigação tradicional. Desde Gutenberg, a troca de investigação disciplinada, crítica, moveu-se, na sua maioria, da “cátedra” para a impressão. A universidade moderna perdeu a sua chance de propiciar um esquema simples para encontros, que são simultaneamente autónomos e anárquicos, concentrados mas não planeados e em ebulição, e optou pelo contrário por gerir o processo pelo qual aquilo a que chamam investigação e instrução se produz.» (Deschooling, pp. 35-36) E observa ainda: «Não há dúvida de que presentemente a universidade oferece uma combinação única de circunstâncias que permite a alguns dos seus membros criticar o conjunto da sociedade. Fornece tempo, mobilidade, acesso a pares e informação, e certos privilégios de impunidade não igualmente disponíveis para outros sectores da população. Mas a universidade fornece esta liberdade apenas àqueles que já foram profundamente iniciados na sociedade de consumo e na necessidade de algum tipo de escolaridade pública obrigatória.» (Deschooling, p. 37) Mesmo se assim olha a universidade, é porém nela que se acoberta nos anos finais da sua vida. Mesmo numa instituição modernizada, portanto, acaba por reconhecer a possibilidade de, nela, se restaurarem formas de relação que se suporiam impossíveis.

Não há dúvida, pois, de que a crítica de Ivan Illich perde força no que tem de interpelação «revolucionária», isto é, enquanto exortação a uma substituição integral do sistema de escolarização por um outro a que se haveria de (rapidamente) dar lugar. Mas já enquanto interpelação a, desde dentro das instituições modernas, abrir espaço a que, nelas, se criem condições «conviviais», ou ainda enquanto exortação a uma gradual transformação das instituições, mantém ela todo o seu vigor – menos como revolução, e mais como fermento a levedar a massa.

Temperada a radicalidade da crítica pela prudência das propostas de acção, a reflexão de Ivan Illich não perde nenhuma da sua frescura. Serve antes de estímulo e alento para, por entre um quadro institucional cinzento, burocrático, instrumental, conseguir obter, enquanto mais não for possível, que aqui e ali se abram espaços para viver a Age of Leisure (Deschooling, p. VIII). Pois é nessa propiciação do prazer, do ócio, do lazer, vividos na dignidade do estudo pessoalmente comprometido e no conforto confrontativo da interacção dialogal, que consiste a «schole» que toda a escola deveria desejar ser.


Imagem de Alexandra_Koch por Pixabay