GLOSAS – Espaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente
Tiago Azevedo Ramalho
– Um discurso de Ivan Illich –
[Introdução geral: nn.º 1 a 8/ I. Ivan Illich e a Escolarização: nn.º 9 e ss.]
– 34. A «vaca sagrada» (cont.) – «As minhas propostas podem mortificar a muitos. Mas foi dos grandes positivistas e liberais que herdámos o princípio de utilizar fundos públicos para administração de escolas dirigidas por educadores profissionais; tal como, previamente, a décima era destinada à Igreja para ser administrada por padres. Sobra para vós lutar por uma escola pública livre em nome da verdadeira igualdade de oportunidades educativas. Admiro a coragem daqueles de entre vós que queiram entrar neste combate.
Os jovens pretendem instituições educativas que lhes forneçam educação. Não pretendem nem precisam de ser mimados, de ser certificados, de ser doutrinados. É difícil, claro, obter educação de uma escola que recusa educar sem a condição de que os seus estudantes se submetam simultaneamente a custódia de terceiros, a competição estéril, e a doutrinação. É difícil, obviamente, financiar um professor que é olhado simultaneamente como guarda, árbitro, conselheiro e curriculum manager. Não é eficiente combinar tais funções numa só instituição. É precisamente a fusão destas quatro funções, frequentemente antitéticas, que aumenta o custo da educação adquirida na escola. É ela também a razão da escassez crónica dos recursos educativos. São vocês que devem criar instituições que forneçam educação a todos num custo compatível com a escassez dos recursos públicos.
Só quando Porto Rico superar psicologicamente a escola estará apto para financiar a educação para todos, e só então serão aceites formas de educação verdadeiramente eficientes, não escolares. Entretanto, estas novas formas de educação terão de ser modeladas como meios provisórios para compensar os falhanços das escolas. Para criar novas formas de educação, temos de demonstrar quais as alternativas à escola que oferecem opções preferenciais para os estudantes, professores e contribuintes.
Não há nenhuma razão intrínseca pela qual a educação que as escolas hoje não conseguem fornecer não possa ser adquirida com mais sucesso no âmbito da família, do trabalho e da vida local, em novos tipos de bibliotecas e em outros centros que disponibilizem os meios de aprendizagem. Mas as formas institucionais que a educação tomará na sociedade de amanhã ainda não podem ser claramente vistas, como não pode nenhum grande reformador antecipar claramente os estilos institucionais que resultarão das suas reformas. O receio de que as novas instituições venham a ser imperfeitas não justifica, por seu lado, a nossa aceitação servil das actuais.
Este apelo a imaginar Porto Rico sem escolas certamente é, para muitos de vós, uma surpresa. E é precisamente para a surpresa que a verdadeira educação nos prepara. O fim da educação pública não deve ser menos fundamental do que o fim da Igreja, ainda que o desta última seja mais explícito. O fim básico da educação pública deve ser criar uma situação na qual a sociedade compele cada indivíduo a dar-se conta de si e da sua pobreza. A educação implica promoção de um estilo de vida independente e de proximidade que vão lado a lado com um cada vez maior acesso, e uso, de memórias sedimentadas na comunidade. A instituição escola oferece o centro para este processo. Isto pressupõe um lugar na sociedade em que cada um de nós é despertado pela surpresa; um lugar de encontro em que os outros me surpreendem com a sua liberdade e me tornam consciente da minha. A própria universidade, se quiser ser digna das suas tradições, tem de ser uma instituição cujos propósitos se identificam com o exercício da liberdade, cuja autonomia se baseia na confiança pública no uso dessa liberdade.
Meus amigos, é vossa função surpreenderem-se a vós próprios, e a nós, com a educação que foram capazes de inventar para as vossas crianças. A nossa esperança de salvação está em sermos surpreendidos pelo Outro. Eduquemo-nos sempre a receber mais surpresas. Há muito que eu decidi esperar por surpresas até ao acto final da minha vida – o que quer dizer, na própria morte.»
Imagem de Sasin Tipchai por Pixabay