GLOSAS – Espaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente
Tiago Azevedo Ramalho
– Um discurso de Ivan Illich –
[Introdução geral: nn.º 1 a 8/ I. Ivan Illich e a Escolarização: nn.º 9 e ss.]
– 34. A «vaca sagrada» (cont.) – «Já se encontra em andamento, a meu ver, um divórcio entre a educação e a escolarização, impulsionada por três factores: o terceiro mundo, os guetos, e as universidades. Entre as nações do terceiro mundo, a escola discrimina a maioria e desqualifica os autodidactas. Muitos membros dos guetos “negros” vêem como um agente de “branqueamento”. Os estudantes universitários em protesto dizem-nos que a escola lhes aborrece e se interpõe entre eles e a realidade. Estamos diante de caricaturas, sem dúvida, mas a mitologia da escola torna difícil perceber as realidades subjacentes.
A crítica que os estudantes de hoje estão a fazer aos seus professores é tão fundamental como aquela que os seus avós fizeram ao clero. O divórcio da educação da escolarização tem o seu modelo na desmitificação da Igreja. Combatemos, em nome da educação, contra um modo profissional de ensinar que involuntariamente constitui um interesse económico, tal como em tempos passados os reformadores combateram contra um clero que era, muitas vezes involuntariamente, parte de uma velha elite de poder. A participação no “sistema de produção”, não interessa de que tipo, ameaçou sempre a função profética da Igreja, tal como agora ameaça a função educacional da escola.
O protesto escolar tem causas mais profundas que os pretextos enunciados pelos seus líderes. Estes, mesmo que frequentemente de índole política, são enunciados como exigências para reformar o sistema. Mas nunca conseguirão o apoio popular, contudo, se os estudantes não perderem a fé e o respeito pela instituição que os nutriu. As greves estudantis reflectem uma intuição profunda largamente partilhada entre a geração mais nova: a intuição de que a escola vulgarizou a educação, de que a escola se tornou anti-educativa e anti-social, tal como noutras épocas a Igreja se tornou anti-cristã e Israel idólatra. Esta intuição pode, penso, ser formulada de modo explícito e breve.
O protesto de alguns estudantes de hoje é análogo à dissidência daqueles líderes carismáticos sem os quais a Igreja nunca teria sido reformada: as suas profecias conduziram ao martírio, as suas perspectivas teológicas à sua perseguição como hereges, a sua santidade frequentemente levou-os ao pelourinho [stake]. O profeta é sempre acusado de subversão, o teólogo de irreverência, e o santo é desqualificado como louco.
A Igreja dependeu sempre, na sua vitalidade, da sensibilidade dos seus bispos aos apelos dos fiéis, que vêem a rigidez do ritual como um obstáculo para a sua fé. As igrejas, incapazes de diálogo entre os clérigos no governo e os seus dissidentes, tornaram-se peças de museu, e isto pode facilmente acontecer com o sistema escolar de hoje. É mais fácil para a universidade atribuir a dissidência a causas conjunturais do que atribuir esta dissidência a uma profunda alienação dos estudantes em relação à escola. É, portanto, mais fácil para os líderes estudantis operar com slogans políticos do que lançar ataques radicais a vacas sagradas. A universidade que aceita o desafio dos seus estudantes dissidentes e os ajuda a formular de modo racional e coerente a inquietação que sentem por estarem a rejeitar a escolarização expõe-se ela própria ao risco de ser ridicularizada pela sua suposta credulidade. O líder estudantil que tenta promover nos seus colegas a consciência de uma profunda aversão à sua escola (não à própria educação) descobre estar a criar um nível de inquietação que poucos dos seus seguidores têm coragem de enfrentar.
A universidade tem de aprender a distinguir entre a crítica estéril à autoridade escolar e o que é um apelo à conversão da escola aos fins educacionais para os quais foi criada; entre a fúria destrutiva e a exigência de formas radicalmente novas de educação – que dificilmente podem ser concebidas por mentes formadas na tradição escolar; entre, por um lado, o cinismo que procura novas vantagens para os já privilegiados e, por outro, o sarcasmo socrático, que questiona a eficácia educativa das formas aceitas de instrução em que a instituição investe os seus maiores recursos. É necessário, por outras palavras, distinguir entre a multidão alienada e um profundo protesto baseado na rejeição da escola como um símbolo do status quo.»
(Continua.)
Imagem de Niek Verlaan por Pixabay