GLOSASEspaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente

Tiago Azevedo Ramalho 

­ – «Nulla salus extra scholam» (cont.) –

[Introdução geral: nn.º 1 a 8/ I. Ivan Illich e a Escolarização: nn.º 9 e ss.]

–  34. A «vaca sagrada». – Um discurso de Ivan Illich permite-nos surpreender de modo especialmente vívido os temas principais sobre que incide a respectiva reflexão sobre a escola. Recolhido em Awareness (pp. 121 e ss.), foi ele proferido a um grupo de recém graduados da Universidade Porto Rico. A data exacta não se encontra referenciada, mas, dada a publicação da primeira edição da colectânea Awareness em 1971, terá tido lugar antes desse momento. Devemos convocar a imaginação para reconstituir o contexto em que Ivan Illich intervém: perante um grupo de jovens com toda a alegria, mas também a presunção, decorrente de se verem a ingressar numa elite formada de um país que então apostava intensamente no respectivo sistema educativo. Jovens, portanto, fortemente orgulhosos do título distintivo que acabavam de adquirir. Diante deles Ivan Illich profere um discurso a que vem a intitular de «Escola: a vaca sagrada». O contraste não poderia ser maior.

Apresenta-se de seguida a respectiva tradução.

«Este é um tempo de crise na instituição da escola, uma crise que pode marcar o fim da “idade da escolarização” no mundo ocidental. Falo da “idade da escolarização” no sentido em que estamos habituados a falar em “idade feudal” ou em “era cristã”. Começou “idade da escolarização” aproximadamente há dois séculos. Gradualmente cresceu a ideia de que a escolarização era um meio necessário para se tornar um membro útil da sociedade. É tarefa desta geração enterrar tal mito.

A vossa própria situação é paradoxal. No termo e como resultado dos vossos estudos, estão capacitados para ver que a educação que os vossos filhos merecem, e que vão exigir, requer uma revolução no sistema escolar de que vocês são um produto.

O rito de graduação que hoje celebramos solenemente confirma as prerrogativas que a sociedade de Porto Rico, por meio de um dispendioso sistema de escolas públicas subsidiadas, confere aos filhos e filhas dos seus cidadãos mais privilegiados. Vocês são parte dos mais privilegiados dez por cento da vossa geração, parte do grupo minúsculo que completou estudos universitários. O investimento público em cada um de vós é quinze vezes o investimento educativo num membro médio dos dez por cento mais pobres da população, que salta para fora da escola antes de completar o quinto ano.

O certificado que recebem hoje atesta a legitimidade da vossa competência. Não está disponível para os autodidactas, para aqueles que adquiriram capacidades por meios não oficialmente reconhecidos em Porto Rico. Os programas da Universidade de Porto Rico estão todos devidamente acreditados pela Middle States Association of Colleges and Secundary Schools.

O grau que a universidade hoje vos confere implica que, ao longo dos últimos dezasseis anos ou mais, os vossos pais vos obrigaram a submeter-se, voluntária ou involuntariamente, à disciplina deste complexo rito escolástico. De facto, vocês marcaram presença diária, cinco dias por semana, nove meses por ano, no sagrado recinto da escola e assim continuaram ano após ano, normalmente sem interrupção. Os funcionários governamentais e industriais e as associações profissionais têm boas razões para crer que não vão subverter a ordem a que fielmente se submeteram enquanto completavam os vossos “ritos de iniciação”.

Muita da vossa juventude foi passada com a custódia da escola. É expectável que vocês agora continuem com o vosso trabalho, garantindo às gerações futuras os privilégios que vos foram conferidos.

Porto Rico é a única sociedade do hemisfério ocidental a dedicar trinta por cento do seu orçamento à educação. É um de seis lugares do mundo que dedica entre seis e sete por cento do rendimento nacional à educação. As escolas de Porto Rico custam mais e oferecem mais emprego do que qualquer outro sector público. Em nenhuma outra actividade social está uma porção tão grande da população de Porto Rico envolvida.

Uma enorme quantidade de população assiste a este evento na televisão. A sua solenidade vai confirmar, por um lado, o seu sentido de inferioridade educativa e, por outro, aumentar as suas esperanças, em larga medida condenadas ao desapontamento, de um dia também eles receberem um grau universitário.

Porto Rico foi escolarizado. Eu não digo educado, mas, antes, escolarizado. Os porto-riquenhos já não conseguem conceber a sua vida sem referência à escola. O seu desejo por educação deu agora como resultado a escolarização compulsória. Porto Rico adoptou uma nova religião. A sua doutrina é que a educação é um produto da escola, um produto que pode ser definido por números. Há números que indicam quantos anos um estudante passou sob a tutela dos professores, e outros que representam a proporção das suas respostas correctas num exame. Sob a recepção de um diploma, o produto educativo adquire um valor de mercado. A frequência da escola em si mesma garante assim que se adquira a pertença ao grupo dos consumidores disciplinados da tecnocracia – como em períodos passados a frequência da igreja garantia a pertença à comunidade dos santos. Desde o governador até ao jíbaro, Porto Rico aceita agora a ideologia dos seus professores como em tempos aceitou a teologia dos seus padres. A escola é agora identificada com a educação como a igreja era antes com a religião.»

(Continua.)


Imagem de StockSnap por Pixabay