GLOSASEspaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente

Tiago Azevedo Ramalho 

 

– Fenomenologia da escola –

 [Introdução geral: nn.º 1 a 8/ I. Ivan Illich e a Escolarização: nn.º 9 e ss.]

 

– 21. Fenomenologia da escola. – Por força da respectiva descrença no funcionamento do sistema de escolarização, Ivan Illich propõe-se a descrevê-lo de modo objectivo, para compreender as razões das suas insuficiências. A singularidade do respectivo modo de abordagem está em abstrair da pretensão do sistema escolar de «educar», optando antes por uma leitura «realista» do modo como ele funciona (cap. 2 da obra Deschooling). A escola será por si definida como um «processo dirigido a pessoas de certa idade, relacionado com um professor, requerendo presença a tempo integral e com um curriculum obrigatório» (Deschooling, pp. 26-27). São assim quatro os atributos da escola: (i) a idade dos seus destinatários; (ii) a presença de um professor; (iii) o seu tendencial consumo da totalidade do tempo de quem a frequente; (iv) um curriculum obrigatório.

– 22. Idade. – A escola dirige-se a uma parte da população escolhida em função da idade: «a escola agrupa pessoas de acordo com a sua idade. Este agrupamento assente em três premissas inquestionadas. As crianças pertencem à escola. As crianças aprendem à escola. As crianças devem ser ensinadas apenas na escola.» (Deschooling, p. 27)

Há, desta forma, uma relação de correspondência constitutiva entre ser criança e a escola. A escola dirige-se à fase da vida em que os seres humanos são crianças, e esta fase é caracterizada pela sua pertença à escola: «A sabedoria institucional diz-nos que as crianças precisam da escola. A sabedoria institucional diz-nos que as crianças aprendem na escola. Mas esta sabedoria institucional é ela própria o produto das escolas, porque o senso comum diz-nos que apenas crianças podem ser ensinadas na escola. Só segregando seres humanos na categoria da infância podemos conseguir submetê-los à autoridade de um professor de escola.» (Deschooling, p. 28) A moldagem das crianças pelo sistema escolar torna-se certamente maior no âmbito da cultura urbana em que, «sob o impacto da urbanização intensa, as crianças se tornaram um recurso natural a ser moldado pelas escolas e a alimentar a máquina industrial.» (Deschooling, p. 66)

 

– 23. Professor. – Se, do lado do consumo, se encontra a criança, do lado do respectivo fornecimento encontra-se o professor. A centralidade do professor é elemento característico da escola. Mas não decorre de ser reconhecido como um «mestre», mas de gozar de uma autoridade delegada, por parte do poder público, para ensinar. É um imaginário de autoridade – a autoridade de avaliar, de mensurar, de licenciar, etc. –, e não de saber, que estrutura orgânica escolar; e que, da orgânica escolar, constrói o imaginário político. Vemo-lo especialmente bem num país como Portugal, em que Chefes de Estado ou de Governo, se o podem, procuram estilizar-se como «Professores». É a tentativa de transposição para a esfera política, que se pretendia de cidadãos autónomos, da lógica escolar.

A figura do professor torna-se então um eixo do sistema escolar – o poder do professor contrapõe-se à impotência da infância. «Por definição, as crianças são pupilos. A procura para o meio da infância cria um mercado ilimitado para professores acreditados. A escola é uma instituição que se constrói no axioma de que aprender é o resultado do ensino. E a sabedoria institucional continua a aceitar o axioma, apesar da esmagadora prova em sentido contrário» (Deschooling, p. 28).


Imagem de David Mark por Pixabay