GLOSASEspaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente

Tiago Azevedo Ramalho 

 

Eixos fundamentais de crítica (cont.) –

[Introdução geral: nn.º 1 a 8/ I. Ivan Illich e a Escolarização: nn.º 9 e ss.]

 

– 19. Quarto eixo fundamental de crítica. Crítica aos resultados. – É claro que todas as objecções que se pudessem fazer ao sistema de escolarização poderiam cair por terra diante do sucesso por ele obtido. Mas mesmo um tal sucesso é colocado em questão.

Para o efeito, importa considerar um conjunto de matizes sem as quais a perspectiva de Ivan Illich se afigura de difícil compreensão.

Como já se referiu, Ivan Illich não coloca em causa o valor da aprendizagem. Pelo contrário, permanecerá sempre como um «aristocrata» do mundo da alta cultura humanística. Também não nega a conveniência de instituições (n.º 10). Por tal razão, a crítica ao sistema de escolarização não é feita em nome da negação de um dos fins a que o sistema de escolarização se propõe – a saber: contribuir para o processo de aprendizagem –, mas pelo seu fracasso na realização desses fins. Não é em nome da relativização, mas sempre da promoção do saber, que terá lugar a crítica de Ivan Illich.

É também de notar, como igualmente já se ressalvou, que desde o tempo de Ivan Illich até ao período actual a expansão do processo de escolarização foi especialmente significativa, com a correlacionada consequência de incapacitação de outros grupos sociais para proporcionarem a aprendizagem.

É de sublinhar igualmente, como também já se referiu, que Ivan Illich olha para a escola desde os seus efeitos para uma pessoa estatisticamente normal, e não desde a perspectiva daqueles que colhem os frutos do sistema educativo, que por ele se vêem acreditados e que, portanto, o defenderão com especial vigor – mesmo se «os estudantes saudáveis frequentemente redobram a sua resistência ao ensino quando se descobrem amplamente manipulados.» (Deschooling, p. 41)

Deve distinguir-se ainda entre a aprendizagem pela escola e na escola. Ora, se grande parte do tempo dos primeiros vinte e cinco anos de vida da pessoa contemporânea é passado em directa exposição ao sistema de escolarização, é natural que, se a pessoa aprende, o tribute ao sistema educativo, pois foi esse realmente o contexto de uma parte significativa da sua aprendizagem. O mito escolar, segundo Ivan Illich, assenta em fazer crer que tudo o que se aprende na escola ou no período escolar se deve à escola: «Uma grande ilusão em que repousa o sistema educativo é que a maior parte da aprendizagem é o resultado do ensino. O ensino, é verdade, pode contribuir para certos tipos de aprendizagem em certas circunstâncias. Mas a maior parte das pessoas adquire a maior parte do seu conhecimento fora da escola, e na escola apenas na medida em que a escola, nalguns poucos países ricos, se tornou o seu espaço de confinamento durante uma parte significativa das respectivas vidas.» (Deschooling, p. 12)

Finalmente, é de colocar um último matiz, que, todavia, não é especialmente tematizado. Como paradigma do saber parece estar, para Ivan Illich, o uso corrente e competente da língua – como meio para a convivialidade, que, na obra do Autor, é um bem maior –, e não o domínio de saberes formais (matemática, ciências naturais, e, no plano da língua, gramática, linguística, etc.).

Feitas todas estas ressalvas, então a crítica de Ivan Illich revela-se de enorme força. Tomando por referência o uso dos saberes básicos que permitem a participação na vida social, o sistema escolar, apesar dos amplos meios que consome, apresenta resultados fortemente modestos no confronto com outros contextos de aprendizagem. Contraste-se o domínio de uma língua de um falante natural com o de alguém que a estudou em ambiente escolar como língua estrangeira, apesar de aquela aprendizagem não ter seguido nenhuma específica metódica pedagógica e esta última ser objecto de um ensino planificado. A circunstância de um falante analfabeto não escolarizado poder ter, sob diversíssimos aspectos, um domínio mais competente de uma língua do que um especialista que lhe dedicou uma vida inteira, interpela a respeito de quais são as condições ideais de aprendizagem. O mesmo se diga de outros saberes que continuam a ser transmitidos, embora de modo não exclusivo, de modo paralelo à escola (pense-se na cozinha doméstica, no bricolage, em práticas agrícolas, no desporto, etc.).

Para devidamente se apreciar o vigor da crítica de Ivan Illich é importante, pois, enquadrar qual é o seu ponto de partida e o seu ponto de mira. Ao escolher a escolarização obrigatória como alvo, está a denunciar a pretensão de um sistema de escolarização que pretende ministrar um conjunto de conhecimentos que, não raro, são (ou poderiam ser) eficazmente transmitidos sem ele. Daí a suspeita de que o sistema de escolarização (entenda-se: o sistema de escolarização «total») se justifica, não em vista do sucesso dos seus resultados, mas do ideário de sociedade que procura realizar, constituindo a ponta da lança das instituições modernas, o «processo iniciático» publicamente regido de introdução à crença na valia das instituições burocráticas. Desde a perspectiva adoptada por Ivan Illich, porém, os resultados do sistema escolar não se podem dizer senão modestos: «Aprendemos a maior parte do que sabemos fora da escola. (…) Toda a gente sabe como viver fora da escola. Aprendemos a falar, a pensar, a amar, a sentir, a brincar, a praguejar, a participar em politiquices, e a trabalhar sem a interferência de um professor.» (Deschooling, pp. 28-29)


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