GLOSASEspaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente

Tiago Azevedo Ramalho 

 

Eixos fundamentais de crítica (cont.) –

[Introdução geral: nn.º 1 a 8/ I. Ivan Illich e a Escolarização: nn.º 9 e ss.]

 

– 16. Primeiro eixo fundamental de crítica. O monopólio educativo pelo sistema de escolarização. – O primeiro eixo fundamental de crítica dirige-se à pretensão do sistema escolar de ter o monopólio da educação, a ponto de as diferentes dimensões de formação da pessoa deverem passar pela mediação de uma burocracia dirigida a definir os termos e os fins do ensino.

Este monopólio educativo tem por correlato a desqualificação de outras instituições sociais para assumirem tal função, e, portanto, a auto-alienação dos diferentes membros da comunidade para o fazer, tidos por não qualificados em intervir na formação dos demais. A responsabilidade pela educação é assim confiada a burocracias especializadas: «Por todo o mundo a escola tem um efeito anti-educacional na sociedade: a escola é reconhecida como a instituição que se especializa na educação. A escola apropria-se do dinheiro, das pessoas, da boa vontade disponível para a educação e adicionalmente desencoraja outras instituições de assumirem tarefas educativas. O trabalho, o lazer, a vida na cidade, e mesmo a vida na família dependem das escolas para os hábitos e conhecimentos que pressupõem, em vez de se tornarem elas próprios meios de educação.» (Deschooling, p. 8). Ou ainda: «A legitimação da educação pelas escolas tende a tornar toda a educação não escolar um acidente, quando não uma contravenção directa.» (Futility, p. 119) É, sob certo ponto de vista, o exacto inverso da aspiração iluminista de, nas palavras de Kant, o ser humano sair da situação de menoridade em que culpavelmente se encontra (Resposta à pergunta: Que é o iluminismo?). Ou então a sua realização em termos burocráticos: saída da situação de menoridade, que é um estado humana e juridicamente transitório, para se ver remetido de modo permanente à tutela de instituições especializadas. Inaugura-se um paradigma de uma existência de consumo progressivo de serviços: «Os reformadores educativos prometem a cada nova geração as últimas novidades e o melhor, e o público é escolarizado para procurar o que eles oferecem.» (Deschooling, pp. 42-43)

Mas, igualmente, a «escolarização» tem por consequência o afastamento, por parte daqueles que não se integram no sistema de escolar, de outras formas de aprendizagem – nas famílias, nos lugares de trabalho, nas relações de vizinhança – que subsistiriam não fosse a afirmação do sistema escolar que as elimina, mas não as substitui. «Nem na América do Norte, nem na América Latina, os mais pobres obtêm igualdade do sistema educativo. Mas em ambos os lugares a simples existência de escolas desencoraja e inabilita os mais pobres a tomarem controlo sobre a sua própria aprendizagem. Por todo o mundo a escola tem um efeito antieducacional. A escola é reconhecida como a instituição que se especializa em educação.» (Deschooling, p. 8)

Ivan Illich escrevia na viragem dos anos 60 para os anos 70, e teria em vista formas de organização social «não escolarizadas» sobretudo de meios não urbanizados. É uma situação significativamente diferente da contemporânea, em que décadas de escolarização conduziram à desqualificação de grande parte das instituições extra-escolares para conseguirem, pelos seus próprios meios, educar e formar. A real disponibilidade de outros meios de educação diferentes da escola, ao menos numa dimensão estatisticamente relevante, pode agora ser seriamente colocada em causa. Mas ela existiu, como podem testemunhar todos aqueles que puderam contactar com as últimas gerações subtraídas a uma «escolarização» longa, e, sem prejuízo, com uma formação humana e técnica de grande valor. De facto, apenas uma cultura quase totalmente escolarizada pode supor que alguém ter «apenas a 4.ª-classe» equivale a estar perante alguém quase por hominizar. Pois só ela, que já não conhece qualquer processo educativo extra-escolar, se torna incapaz de representar um mundo para além dos muros da escola.


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