GLOSAS – Espaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente
Tiago Azevedo Ramalho
– Eixos fundamentais de crítica –
[Introdução geral: nn.º 1 a 8/ I. Ivan Illich e a Escolarização: nn.º 9 e ss.]
– 14. O ponto de mira: a escolaridade obrigatória. – A realidade educativa tem uma grande amplitude e diversidade. Veja-se que parte das relações em ambiente familiar ou noutros contextos de proximidade têm significado «educativo»; têm-no igualmente as actividades de anúncio das diferentes comunidades religiosas; procuram-no as grandes realizações da cultura, aí onde façam sua a aspiração de educar pela estética; também o autodidactismo, tão diferente das modalidades anteriores, tem um propósito, se não educativo, ao menos de aprendizagem; e, finalmente, relaciona-se com a educação o sistema organizado de ensino escolarizado nos seus vários níveis.
Dentro desta realidade muito vasta, Ivan Illich adopta um ponto de mira: aquilo sobre que versará a respectiva reflexão é o processo de escolarização realizado por forma institucionalizada, obrigatória, mediante o empenho de meios públicos programados para esse efeito, decorrendo num tipo de instituição social designado escola, e todo o aparato institucional reclamado para a respectiva manutenção (Deschooling, p. 68). Em sentido rigoroso, a investida de Ivan Illich não é contra a educação (pelo contrário: é até em nome da educação que investe), mas sim contra a escolarização (cf. o n.º 9).
– 15. Uma causa justificativa da abordagem: os seus danos. – Como razão justificativa para uma tal análise está o conjunto de mitos em que a escola assenta e os danos que produz. Como se inverte o modo usual de análise do sistema escolar: em lugar da enunciação dos respectivos méritos, visíveis nas biografias de muitos que o frequentaram com sucesso, é analisado desde a perspectiva das suas falhas. O método de Ivan Illich assenta em abstrair do fim a que a escola se propõe (o discurso de justificação) e em descrever o que ela faz (a prática em acção); em abstrair da idealidade e atentar na realidade factual.
O resultado é uma descrição muitíssimo dura. Eis as primeiras palavras do Deschooling Society, (p. 1):
«Muitos estudantes, especialmente os que são pobres, sabem intuitivamente o que a escola lhes faz. Escolariza-os de forma confundirem processo e substância. Quando se confundem, é assumida uma nova lógica: quão maior for o tratamento, melhores serão os resultados; ou então, a escalada conduz ao sucesso. O pupilo é assim “escolarizado” para confundir ensino com aprendizagem, obtenção de ovos graus com educação, diploma com competência, e fluência com a habilidade de dizer qualquer coisa nova. A sua imaginação é “escolarizada” para aceitar a prestação de serviços em lugar do valor. O tratamento médico é confundido com serviços de saúde, o trabalho social com a melhoria da vida comunitária, a protecção policial com a segurança, a força militar com a segurança nacional, trabalhar incessantemente como ratos por trabalho produtivo. Saúde, aprendizagem, dignidade, independência e actividade criativa como pouco mais do que o desempenho das instituições que têm a pretensão de servir estes fins, e o seu desenvolvimento é feito de modo a depender da alocação de cada vez mais recursos para a gestão de hospitais, escolas e outras instituições./ Nestes ensaios, pretendo mostrar que a institucionalização de valores conduz inevitavelmente à poluição física, polarização social, e impotência psicológica: três dimensões no processo de degradação global e modernização da miséria. Vou explicar como este processo de degradação é acelerado quando necessidades imateriais são transformadas em pretensões a novos bens; quando a saúde, educação, mobilidade pessoal, bem-estar, ou tratamento psicológico são definidos como o resultado de serviços ou “tratamentos”.»
O excerto traduzido patenteia dois aspectos centrais do pensamento de Ivan Illich, já antes antecipados: que – como já se referiu várias vezes – a crítica não se dirige contra a educação, mas sim contra um modelo de escolarização que, entende, perverte a aprendizagem, ao realizar um conjunto de práticas que contrariam o seu fim declarado (n.º 9). Interpela-o muito especialmente a percepção de que, pela frequência do sistema de escolarização, muitos se passem a desinteressar de modo duradouro pela sua própria aprendizagem: «ao fazerem com que as pessoas abdiquem do seu próprio crescimento, as escolas conduzem a muitos para uma espécie de suicídio espiritual.» (Deschooling, p. 60). Ou ainda: «as escolas graduam e, por conseguinte, desgraduam. Levam a que os desgraduados aceitem a sua própria submissão.» (Futility, p. 114). O segundo aspecto central que o excerto patenteia é que a crítica ao sistema de escolarização se dirige igualmente a um conjunto de instituições que, em âmbitos diferentes, agem em termos próximos do sistema educativo (cf. o n.º 12).
Dir-se-á: é a misericórdia diante dos desacoroçoados pelo sistema de escolarização que motiva a crítica robusta de Ivan Illich.
Foto: https://parisinstitute.org/corruptio-optimi-pessima-dialogue-with-david-cayley-on-ivan-illich/