GLOSAS – Espaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente
Tiago Azevedo Ramalho
– Distinguir para compreender (cont.) –
[Introdução geral: nn.º 1 a 8/ I. Ivan Illich e a Escolarização: nn.º 9 e ss.]
– 11. Reflexão desde a vida. – A reflexão de Ivan Illich sobre o sistema escolar, conforme o próprio revela, foi espoletada pela respectiva experiência pessoal. Enquanto Vice-Reitor da Universidade Católica de Porto Rico ocupou um lugar no Consejo Superior de Ensenanza, um dos centros de «programação» do sistema escolar (Conversation, p. 60; Deschooling, p. vii). Foi o embate com o que, a seus olhos, constituía um insucesso do sistema escolar junto de uma parte significativa dos que o frequentavam, quando não promovendo mesmo a respectiva estultificação (Deschooling, p. 66), que levou Ivan Illich a interrogar-se sobre a real índole do processo de escolarização, revendo a simpatia que a princípio reservava para políticas de «apoio ao desenvolvimento». É a experiência a motivar a reflexão (cf. o n.º 8): especialmente a experiência de descobrir no sistema escolar um conjunto de práticas que, pese embora o voraz consumo de recursos que reclama, criam (de modo certificado) autênticas castas sociais de exclusão. Conforme escreve, «os pobres precisam de financiamento para aprenderem, não para verem certificado das suas alegadas desproporcionadas deficiências.» (Deschooling, p. 6)
– 12. O significado da escola por entre as instituições sociais modernas. – Mas se Ivan Illich reservará especial atenção ao sistema escolar, fá-lo, não só pela sua realidade específica, mas por duas razões que o ultrapassam.
Em primeiro lugar, porque nele vê uma particular manifestação de um conjunto de outras instituições modernas que seguem a mesma índole. O sistema escolar não é uma realidade isolada por entre as múltiplas burocracias modernas, mas uma expressão particularmente clara de um conjunto de práticas institucionais que têm um alcance mais vasto.
Em segundo lugar, porque pensa as instituições sociais como um pólo com o qual a pessoa humana se encontra sempre em relação. Por conseguinte, o estudo das instituições sociais modernas é de especial relevância, não apenas pelo que o seu estudo permitirá revelar acerca delas, mas pelo que elas dizem acerca de nós, pelo que conformam do nosso espaço existencial e, por consequência, pelo que condicionam da nossa experiência do mundo.
Comecemos por ver a primeira vertente.
Em momentos diferentes da respectiva reflexão, Ivan Illich serve-se de paralelos entre a lógica que identifica subjazer ao sistema escolar e aquela que motiva outras instituições modernas. É nesse sentido que afirma que «[n]ão só a educação, como também a realidade social foram escolarizadas.» (Deschooling, p. 2) Semelhante lógica passa pelo esforço programado e dirigido de expropriar a pessoa e as comunidades humanas mais originárias (família, vizinhos, povoação) da pretensão de conseguir satisfazer com competência as respectivas necessidades mais básicas – e de confiaram nas suas próprias capacidades (Deschooling, pp. 3, 4). Estas deveriam ser antes supridas – eis a lógica das «burocracias do bem-estar» – mediante procedimentos programados, racionalizados, mais eficientes, que determinam se, como e em que termos tais necessidades devem ser supridas. Daí a sensação de perda de referentes, de expropriação, de dependência, de alienação. Satisfazer necessidades é agora sinónimo de adquirir serviços, tornando-se uma operação de consumo; por consequência, os diferentes factores da vida social passam a ser mensuráveis (a «pobreza» é como insuficiência quantitativa de bens; a «falta de educação» como insuficiente consumo de anos de ensino; etc.). Em discurso directo:
«As burocracias do bem-estar têm uma pretensão do monopólio profissional, político e financeiro sobre a imaginação social, definindo parâmetros a respeito do que é valioso e do que é realizável. Este monopólio está na raiz da modernização da pobreza. Cada simples necessidade para a qual uma resposta institucional é encontrada permite a invenção de uma nova classe de pobres e de uma nova definição de pobreza. Há dez anos, era algo normal, no México, nascer e morrer na sua própria casa e ser inumado pelos amigos. Apenas as necessidades espirituais eram tomadas ao cuidado da Igreja institucional. Neste momento, começar e terminar a vida em casa tornou-se, ora sinal de pobreza, ora de privilégio especial. O processo que conduz à morte e a própria morte caiu sob a gestão institucional de médicos e agentes funerários.
Assim que as necessidades básicas foram traduzidas pelas sociedades como procura de bens produzidos cientificamente, a pobreza é definida por standards que os tecnocratas podem mudar de acordo com a sua vontade. A pobreza refere-se então àqueles que ficaram aquém de um ideal publicitado de consumo num qualquer assunto relevante. No México, os pobres são aqueles a quem faltam três anos de escola, e em Nova Iorque aqueles a quem faltam doze.
Os pobres foram sempre privados de poder social. A crescente confiança no cuidado institucional introduz uma nova dimensão ao seu desamparo: a impotência psicológica, de se proverem à própria vida. (…) Esta modernização da pobreza é um fenómeno global, e está na origem do subdesenvolvimento contemporâneo.» (Deschooling, p. 3)
Tal lógica permeia diferentes institucionais sociais, independentemente das paragens em que se encontram, constituindo um marco caracterizante da índole específica de uma época histórica – do seu ethos, conforme expressão de Valentina Borremans, uma colaboradora próxima de Ivan Illich (Deschooling, p. vii):
«Durante os anos sessenta [década imediatamente anterior à da escrita desta linhas], instituições nascidas nas diferentes décadas posteriores à Revolução Francesa atingiram em simultâneo uma avançada idade; o sistema público de escolas fundado no tempo de Jefferson ou de Atatürk, assim como outros que começaram apenas após a 2.ª Guerra Mundial, todos eles se tornam burocráticos, autojustificantes, e manipulativos. A mesma coisa ocorreu com os sistemas de segurança social, os sindicatos, as grandes igrejas e as diplomacias, o tratamento de idosos, e o tratamento dos defuntos. (…) Hoje, todas as escolas são obrigatórias, abertas, e competitivas. A mesma convergência no estilo institucional afecta os cuidados de saúde, o merchandising, a administração, e a vida política. Uma fusão de burocracias mundiais resulta desta convergência de instituições.» (Deschooling, p. 61)
Na medida em que esta lógica se torna «global», passa a caracterizar todo o ambiente em que a pessoa respira. Torna-se, portanto, uma forma política, que, determinando o espaço de relação entre pessoas na sua pluralidade, por consequência determina a concreta condição em que cada uma se encontra. Em suma: a política determina a antropologia.
Imagem: https://br.atsit.in/archives/165081