Dom. Dez 5th, 2021
GLOSASEspaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente

Tiago Azevedo Ramalho 

Acompanhamos nestas glosas a obra de Charles Taylor, A Secular Age, cujo objecto foi enunciado na primeira destas composições. A leitura feita da obra (glosas 2 a 29) é hoje concluída, com a consideração da Parte V.

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– 105.  A Parte V. – Tem a última parte da obra de Charles Taylor, a Parte V (pp. 537-772), uma índole significativamente diversa das anteriores. Nas quatro partes anteriores narrou-se o processo de formação da Idade Secular, percorrendo todo arco da modernidade (Partes I a III, caps. 1 a 11), para identificar, no seu termo, o lugar da religião no mundo contemporâneo (Parte IV, caps. 12 a 14). A intenção central, por conseguinte, pode dizer-se histórica e sociológica, destinada a tornar compreensível quais os factores, as motivações e os contextos que permitam a formação de um período histórico caracterizado pela secularidade.

Mas a última parte, dizia, tem uma índole significativamente diversa.

Nos capítulos 15 a 19, divisa-se uma intenção essencialmente apologética, se é lícito avocar esse ramo da teologia que, entre outras, tem por função demonstrar a razoabilidade da fé. E de uma verdadeira apologética se trata, isto é, de uma defesa da razoabilidade fé, e não apenas da recolha de um arsenal de munições para entrar em polémica com entendimentos conflituantes. Conforme se explicará já de seguida, é mesmo uma parte da obra na qual há a sublinhar mais o espírito e a atitude do seu Autor do que propriamente os respectivos conteúdos (n.º 106).

Já no capítulo 20, último da obra, apresenta-se uma reflexão que fecha de modo integrado a Idade Secular (n.º 107).

– 106. Uma apologética em sentido próprio. – Embora seccionados, os primeiros cinco capítulos da Parte V (caps. 15 a 19) da Idade Secular são animados por um espírito semelhante, como constituindo uma mesma longa reflexão com ligeiras variações entre as diferentes unidades. Recordemos que, ao cabo do percurso realizado nas Partes I a IV, Taylor concluíra pela existência, não de uma Idade Secular no sentido de desaparecimento da dimensão religiosa do mundo humano, mas antes como uma Idade de tensões entre uma pluralidade de alternativas, crentes e não crentes (sob diferentes modalidades, virtualmente inesgotáveis, de crença e de não crença), antagónicas entre si (pense-se, de novo, no triângulo constituído pelos vértices opção teística; humanismo exclusivo; contrailuminismo imanentista). Idade na qual, portanto, nenhuma atitude existencial se pode pensar como livre do desafio resultante da simples presença de uma opção alternativa. E assim mesmo se, como não deixa de notar a espaços, em ambiente universitário a opção teística tende a estar arredada – com consequências para o estilo de grelhas de leitura da realidade que nele se adoptam. Com efeito, embora a época seja de grande alternativa de posições, pode haver meios particulares onde prevalece a hegemonia. Assim, «[u]m ateu numa região fortemente cristã [literalmente: o Bibel belt] tem dificuldade em ser compreendido, tal como frequentemente (num sentido muito diferente) a tem um cristão crente em certos domínios da academia» (p. 556).

Naqueles quatro primeiros capítulos – 15 a 19 –, a tarefa de Taylor parece ser então a de mostrar claramente como a opção crente não é menos razoável do que a alternativa descrente. Fá-lo, porém, não com intuito polémico, mas com grande benignidade, percorrendo diferentes pontos críticos nos quais se torna claro que a alternativa descrente enfrenta debilidades de índole semelhante à opção crente, sem poder arrogar a si – senão com ignorância das suas reais possibilidades – uma valia absoluta de que não dispõe. Servindo-me de termos correntes da linguagem teológica, Taylor faz uma abordagem mais «apofática» do que «catafática», colocando em evidência, não possíveis erros, mas os múltiplos espaços temáticos em relação aos quais também a alternativa não crente deve reconhecer as suas dificuldades, conservando-se em silêncio.

Não que a opção crente não tenha, também ela, dificuldades de afirmação (desde logo, acrescento eu, por a própria iluminação da fé pressupor nalguma medida a adesão crente). O que não se afigura necessariamente mau. Taylor, que não deixa de referir a espaços a sua condição de católico, parece mesmo assumir uma grande simpatia com a Idade Secular – ao menos no confronto com períodos históricos anteriores –, e com a situação que provoca de forçar a via crente a abdicar de certa presunção de que poderia dispor em períodos históricos anteriores nos quais gozava de hegemonia, nessa medida podendo cair na tentação de pretender dispensar a dimensão pessoal da fé – e, assim, traindo e pervertendo a precisa fé que se supunha estar a servir.

A tónica não está, portanto, em afirmar que a opção crente pode chamar a si mais objectividade ou cientificidade do que a opção descrente, mas em sublinhar que, no que respeita a questões existencialmente centrais, também a opção descrente depara com algumas dessas mesmas debilidades que poderia supor apenas atingirem a opção crente. A tomada de consciência destes limites – por mais que o framework da ciência moderna (quando não nalguns seus mais elevados expoentes, ao menos nos seus operadores comuns) assente na errada convicção da ausência de radicais limitações epistémicas que também para a ciência moderna se colocam – permite colocar lado a lado, e já não em relação de ordenação da primeira à segunda, a relação entre crença e descrença. Em suma: «Talvez exista apenas a escolha entre boa e má religião» (p. 708). Nunca é possível escapar inteiramente à incerteza, à dúvida, à fragilidade – e à necessidade de uma aquiescência crente como momento de superação dessa mesma incerteza, ao menos como crença prática que permita a actuação no quotidiano. E têm-na mesmo os que, somente por a depositarem num conteúdo diferente do das religiões tradicionais, supõem dispensar a opção crente. Por isso se repete: «Talvez exista apenas a escolha entre boa e má religião». Mesmo que a «religião» não dê por esse nome.

Aí onde se julga haver escapado ao fenómeno religioso, logo se cai, mas agora inadvertidamente, em asserções ou práticas que não podem ser qualificadas senão como de índole religiosa – mesmo se essa sua natureza é ignorada por quem as afirma ou leva a cabo. Serve de exemplo o recurso ao mecanismo do «bode expiatório», amplamente estudado por René Girard, que, sendo típico do discurso religioso como forma de canalização da violência, se vê a espaços «secularizado» (luta de classes; anti-semitismo germânico; etc.) sem consciência da respectiva filiação – e sem as específicas cautelas que o próprio discurso religioso descobriu para travar e dirigir de forma não destrutiva esse caudal de violência que habita na pessoa humana. De novo: não é dada ao homem a escolha entre ter ou não religião, mas apenas da religião que professa – mesmo que seja chamada, por ex., ideologia.  «Talvez exista apenas a escolha entre boa e má religião. Agora, a questão é que existe boa religião» (p. 708).

Já a exposição de qual a boa religião ultrapassa o propósito da Idade Secular. A tónica da Parte V é apologética, mas não polémica. Embora escrita de modo desassombrado, a atitude de fundo – coerente, aliás, com a vivência da profissão de fé do Autor – é de significativa mansidão: não tem em vista inculcar uma suposta «obviedade» da fé cristã – obviedade que a fé cristã aliás não tem –, postando-a em combate com as alternativas crentes e não crentes suas contemporâneas, mas apenas limpar o terreno para que possa ressoar. Mas o que tem de ressoar é o vento, ruah, pneûma, Espírito (1 Rs 19, 12).

A abordagem «apologética» de Taylor distende-se pelos capítulos intitulados: «O quadro imanentista» (The Immanent Frame), pp. 539-593 (cap. 15), «Pressões cruzadas» (Cross pressures), pp. 594-617 (cap. 16, «Dilemas I» e «Dilemas II» (Dillemas I e II), pp. 618-675 e 676-710 (caps. 17 e 18), e «Fronteiras inquietas da modernidade» (Unquiet Frontiers of Modernity), pp. 711-727 (cap. 19).

Alguns dos temas considerados são: as limitações epistémicas de um quadro de compreensão da realidade puramente imanentista (cap. 15); a existência de pressões cruzadas sobre cada posição crente ou descrente (cap. 16); o confronto entre a experiência de vida espiritual e as limitações de uma cultura que reduz o corpo a objecto terapêutico (cap. 17); o sentido do sofrimento, do sacrifício e da salvação (cap. 17); o significado da violência (cap. 17 e 18); as limitações das éticas contemporâneas (utilitarismo; Kant) de índole normativa (cap. 18); a noção de tempo, e a morte como um corte no tempo que interpela o ser humano (cap. 19).

– 107. Conversões.Já o último capítulo, o cap. 20, tem por título «Conversões» (Conversions), integrando as pp. 728-772 (seguir-se-á ainda um breve epílogo, já mencionado no n.º 80).

É assinalável que o longo e denso percurso de Taylor relativo a uma Idade Secular termine com um capítulo em tema de conversões. Opção importante do ponto de vista simbólico: depois de uma obra dedicada, em boa parte, a explicar o processo de formação de um quadro existencial no qual a opção de dúvida, para quase todos, e de descrença, para muitos, se pôde afirmar como óbvia, a obra termina voltado para aqueles que romperam com o framework próprio da Idade Secular – ou, mais precisamente, que exploraram todas as suas virtualidades – para tomarem assumidas opções crentes (p. 731). Especial atenção é reservada, no capítulo, ao percurso de conversão de Charles Péguy (pp. 745-755) e de Gerard M. Hopkins (pp. 755-765). São itinerários pessoais que testemunham, em vidas concretas, a fragilidade da opção descrente, que, por isso precisamente, é superada muitas vezes pela conversão crente. Aliás, segundo Taylor, as duas seguintes razões contribuirão para o fim das modernas teorias da secularização, que tendem a «censurar o passado religioso por muitas das desgraças do nosso mundo»: (i) a circunstância de sociedades não ocidentais não seguirem o padrão que nelas se pretende explicar; e (ii) o não desaparecimento, nelas, dos «males» que historicamente se atribuíam à religião (p. 770). A constante presença de fenómenos de conversão exemplifica um e outro aspecto.

Aquilo a que porventura se assiste, afinal, é somente ao fim da identificação «durkheimiana» entre religião e ordem social. Mas não é o fim da religião, nem é necessariamente um mal, mesmo de uma perspectiva cristã crente – é apenas o fim de um certo modo de presença da religião na sociedade, que não impede que outros, até melhores, possam surgir. Evoca Taylor neste momento a singular figura de Ivan Illich, para quem a modernidade deveria ser pensada em bloco como uma forma extrema de corrupção do cristianismo, caracterizando-a a tentativa de substituição do centro da vida cristã – a vivência incarnada de redes de relação comunional, alimentadas pela agápe – por desincarnadas formas de transformação institucional da sociedade mediante «acções de reforma» que, no seu termo, conduziram ao «evanescimento» da presença do religioso em diferentes sectores sociais (pp. 737-743). A troca, apetece acrescentar, do binómio pessoarelação pelo indivíduo-instituição.

Precisamente o fim daquela identificação pode configurar uma oportunidade de primeira grandeza. Pois permite colocar termo a uma forma de associação entre o fenómeno religioso e «acções institucionais de reforma» que traz consigo o risco de enclausurar e, no limite, de conduzir ao definhamento da própria prática religiosa, porque privada do contacto com as suas fontes vitais. Porque corrompida, mesmo que na suposição de que se estava a cumprir o seu propósito. O termo da identificação «durkheimiana» entre religião e ordem social pode, portanto, permitir recuperar a experiência da tensão escatológica entre a realidade do Mundo e a realidade do Reino. Agora que o Reino não está já identificado com a ordem institucional deste Mundo, também já não é rejeitado apenas por simplesmente se estar a recusar este Mundo e esta ordem. Pode então voltar a ser procurado, e recebido, com todo o seu brilho e toda a sua força.

A história, com as suas sombras e possibilidades, encontra-se em aberto. Mas, bem vistas as coisas, é também um horizonte cheio de esperança que se está a abrir.

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Seguiremos com breves reflexões a respeito do conjunto da obra A Idade Secular.


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