GLOSAS – Espaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente
Glosas a Brève apologie pour un moment catholique
– L’utilité de la communion –
(pp. 83-119)
(Cont.)
[Primeiro texto: aqui.]
Tiago Azevedo Ramalho
– 23. A lógica da «dádiva». – Quais os traços caracterizantes de uma «lógica da dádiva», lógica da dádiva que não seja simples reprodução de padrões de troca, mesmo que troca gratuita? (Tal é o tema, na verdade, de uma das obras fundamentais de Marion: o estudo Étant donné, Puf, 1997).
Três exemplos servem, para Marion, para mostrar a distinção entre a economia da troca e a lógica da dádiva (pp. 110-112).
Primeiro, do ponto de vista do donatário, a possibilidade de o doador abstrair inteiramente da pessoa do donatário (por ex., oferta a uma associação; «amar os inimigos»). A dádiva quebra, pela desatenção à pessoa do donatário, a expectativa de reciprocação.
Segundo, a dádiva pode ter lugar após o desaparecimento do doador – a quem, pois, já não se pode retribuir. É o caso das liberalidades por morte (uma herança, um legado, …).
Terceiro, a própria dádiva excede sempre o próprio objecto dado. Serve-se Marion de um exemplo que toma de Santo Agostinho: alguém que, perante um pedido de casamento, aceita a aliança de noivado, mas declara desde logo que recusará casar. O problemático numa tal hipótese está, tal a interpretação proposta, na dissociação entre o objecto e o que «vai com ele»: choca aceitar-se a aliança de noivado, recusando-se o que ela sobretudo significa. Quer dizer, o objecto é sinal de um outro bem que o excede. Do mesmo modo, aquele que veste os nus e alimenta os famintos, não se limita a dar vestes e alimentos, mas a dar vida:
«A vida dá-se dando-se outra coisa diferente dela, uma outra que que não teria nenhum valor se ela não permitisse permanecer na vida, a verdadeira dádiva. (…) Quão mais aquilo que damos é essencial, menos é real, e apenas as dádivas sem importância coincidem perfeitamente com objectos, como um cigarro a um transeunte na rua.» (pp. 112-3)
A lógica da dádiva segue, segundo Marion, a mesma estrutura que a lógica do eros: não a do cálculo, da reciprocidade, do controlo, do domínio, mas a de «tomar o risco de uma ausência de reciprocidade», única chance de «ganhar a partida». Escreve logo de seguida:
«Assim vai a dádiva, que cria as condições eventuais de uma dádiva em contrapartida, mas que não depende da realidade do retorno sobre o investimento, nem o espera» (p. 114).
Pensar a categoria do cidadão, não como agente económico – quer dizer, agente que se reduz ao cálculo de custos e de vantagens –, mas a partir da categoria da lógica da dádiva, eis o que permite reconhecer aos cristãos que vivem segundo uma tal lógica uma posição privilegiada no espaço público.
(continua…)