Sinais | Leitura de ‘sinais’ inquietantes | Rubrica promovida em parceria com o Correio do Vouga

Fé e ciência

António Jorge Pires Ferreira


José Carlos González-Hurtado – Novas evidências científicas da existência de Deus, Paulus, 340 páginas

 


Este livro quer “discutir e demonstrar que a evidência científica conduz inevitavelmente a acreditar num Deus Criador”. Maior objetivo intelectual e de fé não pode haver. Se o autor for bem sucedido, faz um grande serviço à religião, embora fique por fazer a ligação entre o Deus exigido pela racionalidade e o Deus de Jesus Cristo (ligação que já foi feita pela grande tradição filosófica ocidental cristã, nomeadamente por São Tomás de Aquino). O trabalho de ligar a investigação científica à crença na existência de Deus é algo permanente porque a ciência avança e, ao contrário da ideia do Deus-Tapa-Buracos, que consiste em ter de postular a existência de Deus quando há algum aspeto (ainda) não explicado pela ciência, o autor faz-nos pensar que quanto mais ciência, mais indícios para afirmar a existência de Deus. Neste sentido, o livro é muito interessante porque, para quem se afirma ateu, torna-se cada vez mais difícil ter argumentos para justificar a crença (sim, o ateísmo é uma crença) na não existência de Deus. É como disse certo autor: “Pouca ciência afasta, muita ciência aproxima”, talvez porque um bocadinho de ciência dá presunção, muita ciência dá humildade e abertura a Quem está por detrás de (e em) tudo. O livro faz-nos pensar desde a primeira página. E por vezes diverte. O autor espanhol, empresário e apologista católico, usa uma linguagem rigorosa sem deixar de escrever com piada. Tomemos como exemplo o “argumento cosmológico” de Leibniz, que não é da ciência positiva, mas da filosofia, também conhecido por “argumento da contingência” e que se poderia resumir nisto: “Porque é que existe o tudo em vez do nada?” (se nos dermos ao trabalho de insistir na pergunta, poderemos deslumbrar-nos com a firme convicção de que Deus tem de existir, embora fique por responder a questão «Que Deus?»)”. O autor apresenta assim o argumento de Leibniz: “a) Tudo o que existe tem uma explicação para a sua existência. b) Se o Universo existe tem uma explicação para a existência, essa explicação é Deus. c) O Universo existe.” E depois acrescenta: “Portanto, a explicação para a existência do Universo é Deus. Se o leitor for ateu, é muito provável que não aceite a conclusão porque não concorda com a segunda premissa. Seja ateu ou teísta, se for minimamente racional, concordará com a primeira. Se não estiver de acordo com a terceira premissa, recomendo-lhe que mude de medicação” (pág. 37).


Imagem recolhida de https://www.paulus.pt/