Sinais | Leitura de ‘sinais’ inquietantes | Rubrica promovida em parceria com o Correio do Vouga

A geografia ajuda à agregação de paróquias

António Jorge Pires Ferreira

A constituição de comunidades pastorais, tarefa que a Diocese de Aveiro tem em mãos, pode não ser uma fácil. Implica, certamente, que cada paróquia – cada pessoa – mude alguns hábitos, deixe algumas práticas, perca certas tradições. As mudanças trazem sempre algum desconforto. Se uma família, que no verão junta os familiares numa almoçarada porque é dia do santo do lugar e a procissão passa à porta, deixa de ter a festa, é capaz de ficar zangada. Tal como a avó que leva os netos à catequese onde também ela teve catequese é capaz de ficar triste se uma comunidade pastoral concentrar as catequeses de várias paróquias num único local… de outra paróquia. E como estas, muitas outras situações. É preciso lembrar que as comunidades pastorais querem ser uma resposta aos tempos que vivemos. Espera-se que sejam uma forma de a Igreja continuar localmente a sua missão, que é sempre falar de Jesus, propor o seguimento de Jesus – e não a perpetuação de tradições, que só valem se nos conduzirem a Jesus. Como disse o Papa Francisco, “a pastoral em chave missionária exige o abandono deste cómodo critério pastoral: «fez-se sempre assim»”. Ou seja, o sempre se fez assim não é critério nenhum. É uma constatação, não um argumento. E por isso diz Francisco logo a seguir: “Convido todos a serem ousados e criativos nesta tarefa de repensar os objetivos, as estruturas, o estilo e os métodos evangelizadores das respetivas comunidades” (EG, 38). Não tenho dúvida de que o processo das comunidades pastorais é uma concretização do repensar criativamente os objetivos, as estruturas, o estilo e os métodos evangelizadores. O Bispo de Aveiro sempre disse e tudo fez para que as mudanças fossem pensadas e assumidas, digamos assim, a “partir de baixo”, a partir dos cristãos comuns, num processo sinodal – e não a partir de um mapa ou de números. Mas para reforçar a ideia de agregação de paróquias, podemos de facto pensar que a nossa Diocese de Aveiro pode ir mais longe se pensarmos em alguns números. A área total da Diocese de Aveiro é 1540 km2. É pequena. Há no país dois concelhos com área igual (Alcácer do Sal) ou maior (Odemira, que conta com seis padres para toda esta vigararia de Beja). E mais cinco com áreas muito aproximadas (entre os quais o concelho de Castelo Branco). Ou seja, as nossas distâncias são pequenas, ainda que a densidade populacional seja maior. Por outro lado, há na Diocese de Aveiro, concelhos que são pequeníssimos em relação à média do país, como Ílhavo (73 km2), Murtosa (73 km2), Oliveira do Bairro (87 km2) e Estarreja (108 km2). Na realidade, só dois concelhos ultrapassam os 200 km2, Anadia (216 km2) e Águeda (335 km2). Perante este panorama geográfico, a agregação de paróquias não nos deve assustar. A missa e a catequese nunca serão demasiado longe. Pelo contrário, a agregação torna-se um imperativo de racionalização de recursos, bens e agentes pastorais.